A recente declaração do ministro da Agricultura, Roberto Mito Albino, segundo a qual desconhece o projecto Sustenta — uma das maiores bandeiras políticas dos dois mandatos de Filipe Nyusi —, revela muito mais do que um lapso ocasional: denuncia uma mistura perigosa de arrogância e desleixo, que, infelizmente, tem vindo a contaminar a postura de alguns governantes no relacionamento com a imprensa e, por consequência, com o povo moçambicano.
Interpelado por jornalistas, o ministro respondeu de forma seca que nada sabia sobre o Sustenta e que apenas comentaria o projecto que está, neste momento, a desenhar. É uma resposta inaceitável. Arrogância, porque um governante não pode jamais descartar, com leviandade, uma pergunta legítima da imprensa, e muito menos sobre um tema com enorme impacto no sector que dirige. O que diz um ministro ao público através da imprensa não é um acto privado: é comunicação institucional. Ao desdenhar do Sustenta, Albino desrespeita não apenas o jornalista que lhe dirigiu a questão, mas todo o povo moçambicano, especialmente os agricultores e comunidades directamente afectadas pela execução ou falhas do programa.
Mas não se trata apenas de má educação institucional. A situação revela desleixo grave, pois não se compreende que o titular de uma pasta crucial como a Agricultura diga, com espantosa naturalidade, que desconhece um projecto sobre o qual até os moçambicanos mais distraídos já ouviram falar. O Sustenta mobilizou milhões de dólares, gerou debates intensos, levou tractores ao mato, seminários às capitais provinciais e promessas de transformação agrícola à boca das urnas. É, portanto, impensável que o novo ministro não tenha lido com a atenção devida os dossiers herdados do seu antecessor, Celso Correia. E, se os leu e ainda assim optou por ignorálos publicamente, trata-se então de um acto deliberado de petulância, ainda mais condenável.
Este episódio revela, também, um problema mais profundo: a ausência de preparação técnica e política de muitos dirigentes antes de enfrentarem o escrutínio público. Num tempo em que se exige mais transparência, seriedade e prestação de contas, é inadmissível que ministros saiam dos seus gabinetes sem o mínimo domínio sobre os assuntos essenciais da sua área de jurisdição.
Que tipo de assessoria recebe o ministro Albino? Ninguém previu que, em plena transição de políticas, seria inevitável o confronto com o histórico do Sustenta? É sintoma de amadorismo ou desleixo deliberado. Em qualquer dos casos, é preocupante.
Infelizmente, não é a primeira vez que este Governo nos brinda com posturas lamentáveis perante a comunicação social. Há pouco tempo, o Ministro do Interior, Pascoal Chaimite, ao ser questionado sobre os naparamas, empurrou a responsabilidade para o Ministro da Defesa, que, ironicamente, se encontrava ao seu lado na Praça dos Heróis. Além de evitar esclarecer um assunto directamente relacionado com a sua pasta, expos e embaraçou um colega de Governo em público, num gesto que roça a irresponsabilidade e a falta de solidariedade institucional.
Chegou o momento de encarar os factos com seriedade: urge formar, treinar e orientar os nossos governantes para a comunicação com o público. As funções executivas exigem mais do que domínio técnico: requerem tacto político, empatia, clareza de expressão e preparação. A comunicação política é parte integrante da governação. Quem não compreende isso, não está apto para servir numa república que se quer democrática, transparente e próxima dos cidadãos.
O povo moçambicano merece mais. Merece ministros que saibam, que respeitem e que falem com responsabilidade. Não se governa com arrogância. Não se transforma a agricultura com desleixo. E não se constrói um Estado sério com improvisação e desprezo pela inteligência do cidadão.




