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AGENTE DUPLO: “Salvador” da LAM assina com a Air Botswana às escondidas

– Em vez de “cortar o mal pela raiz”, a LAM renova-lhe a confiança

Apenas um mês e meio após a sua nomeação como presidente da Comissão de Gestão das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), Dane Kondic decidiu assumir, praticamente às escondidas, o cargo de presidente do conselho de administração (chairman board) da Air Botswana, companhia de bandeira daquele país. Antigo presidente e director executivo do grupo EuroAtlantic e da I-Jet Aviation, Kondic foi contratado para resgatar a LAM do estado vegetativo em que se encontra há largos anos, mas, ao que tudo indica, tem outras prioridades — o que o coloca na posição de potencial integrante da lista de “raposas” recentemente denunciadas pelo Presidente da República, Daniel Chapo. Apesar disso, o novo Conselho de Administração da LAM diz manter confiança nele.

Texto: Serôdio Towo

No passado dia 28 de Abril, ao apresentar o balanço dos primeiros 100 dias do seu mandato, o Presidente da República denunciou publicamente a existência de “gatos e raposas” infiltrados na LAM, cujos interesses colidem com a reabilitação da empresa, designadamente a aquisição de aviões próprios. Apesar disso, Chapo garantiu que o seu Governo prosseguiria com a reestruturação da transportadora, com vista a proteger o interesse público e a impulsionar o relançamento da companhia.

O processo de reforma previa, segundo o Chefe de Estado, mudanças significativas nos recursos humanos. E assim aconteceu: 17 dias depois, foi anunciada a nomeação do sérvio Dane Kondic como presidente da Comissão de Gestão da LAM, sob a supervisão de um Conselho de Administração não executivo composto por quadros indicados pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) e Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE) — instituições forçadas pelo Executivo a adquirir 91% das acções da LAM anteriormente detidas pelo Estado.

No entanto, tanto o Conselho de Administração como o próprio Presidente da República terão sido ludibriados por Kondic, que, na última sexta-feira, 27 de Junho, aceitou ser nomeado presidente do conselho de administração da Air Botswana, apesar do contrato de 12 meses que assinara recentemente com as autoridades moçambicanas.

A traição da “raposa” sérvia

A Knighthood Global — firma de consultoria representada por Kondic — afirma que os novos accionistas maioritários da LAM confiaram-lhe a missão de reforçar a sustentabilidade operacional da companhia, aumentar a sua competitividade nos mercados interno, regional e internacional, e assegurar um serviço aéreo seguro e alinhado com os padrões internacionais.

A própria Knighthood anunciara a intenção de “estabilizar e reposicionar” a LAM em três meses, reduzindo o endividamento e melhorando o seu perfil de investimento. Contudo, da promessa à prática, quase pouco se viu. Em menos de dois meses, Kondic ter se-á esquecido ou marginalizado os compromissos assumidos e associou-se a uma empresa concorrente.

A incursão de Kondic em terras tswanas, oficializada nas redes sociais da Air Botswana, é vista na praça pública como uma traição de alto nível a Moçambique, País que nele depositou expectativas de revitalização da LAM. Importa sublinhar que uma das funções de Kondic era precisamente “aumentar a competitividade” da LAM — objectivo claramente incompatível com o exercício simultâneo de funções numa transportadora concorrente da África Austral.

Para agravar a situação, Dossiers & Factos apurou que o novo Conselho de Administração da LAM não foi informado nem consultado sobre esta nova ligação de Kondic, tendo sido surpreendido pelo anúncio da Air Botswana. Pior: aquando de uma viagem recente àquele país, Kondic terá mentido aos seus empregadores moçambicanos, afirmando que se deslocaria para avaliar aeronaves, quando, na realidade, estaria a negociar os termos do seu novo contrato com a companhia local — atitude que pode ser entendido como desprezo e falta de profissionalismo.

LAM mantém confiança no farsante

Face à polémica, o Conselho de Administração da LAM reuniu-se de emergência no domingo, 29 de Junho, e, por meio de um comunicado, tornou públicas as suas deliberações. Na referida nota, o Conselho afirma que Dane Kondic deverá exercer funções em regime de exclusividade, salientando que o cargo de presidente da Comissão de Gestão exige “dedicação exclusiva e um compromisso pleno com os objectivos estratégicos da empresa”.

A LAM informa ainda que decorrem conversações com Kondic para viabilizar esta exigência de exclusividade, sugerindo assim que, estranhamente, esta cláusula não estava salvaguardada no contrato assinado em Maio.

Espantosamente, apesar dos sinais de deslealdade, a LAM afirma manter “total confiança” nas capacidades técnicas, estratégicas e de liderança do gestor sérvio, que, segundo apurou este jornal, partiu no sábado para a Europa, sem data de regresso confirmada.

Ora, fontes ouvidas pelo Dossiers & Factos consideram que a atitude de Kondic constitui uma oportunidade que deveria ser aproveitada pelo Governo moçambicano reconhecer o erro de confiar os destinos de uma companhia estratégica a entidades estrangeiras. Por ser símbolo da soberania nacional, a LAM não deveria, segundo as mesmas vozes, ser gerida por consultoras externas — lembre-se que, anteriormente, estivera sob responsabilidade da sul-africana Fly Modern Ark.

As perguntas que ficam por responder

Por que o comunicado da LAM não dissipou todas as dúvidas, Dossiers & Factos remeteu ao Conselho de Administração, no domingo, as seguintes questões:

1. O contrato assinado com o senhor Dane Kondic inclui ou não cláusula de exclusividade?

2. Kondic informou previamente a LAM da sua intenção de assinar contrato com a Air Botswana? Os accionistas foram consultados?

3. A LAM afirma estarem em curso negociações para que Kondic passe a actuar em exclusividade. O que isso implica para a companhia? E, já agora, qual é a remuneração acordada com Kondic no contrato entre ambos?

4. Como se justifica que a LAM mantenha confiança num gestor que assinou contrato com uma concorrente sem informar a empresa?

5. Os accionistas consideram correcto confiar a liderança de uma companhia estratégica e um dos símbolos da soberania nacional a estrangeiros?

Até ao fecho desta edição, não se registou qualquer resposta por parte da LAM. O jornal continuará a acompanhar o caso com máxima atenção

Kondic procura adquirir cinco aviões

Antes de assumir compromissos com a Air Botswana, a Knighthood Global — com sede em Abu Dhabi — enviou, a 6 de Junho, uma carta-convite aos seus parceiros, solicitando propostas para o fornecimento, por venda directa, leasing financeiro ou leasing operacional, de até cinco aeronaves Boeing 737-700 destinadas à LAM.

Segundo o documento a que o Dossiers & Factos teve acesso, a companhia moçambicana pretende adquirir aeronaves de idade intermédia, preferencialmente com inspecções de tipo D recentemente realizadas, certificadas pela Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) ou pela Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), e configuradas com cabine de classe dupla, entre 120 e 140 lugares.

As aeronaves devem estar aptas a operar em pistas curtas e em condições ambientais adversas, com entregas faseadas previstas para os próximos quatro meses. A data-limite para a submissão das propostas foi fixada em 20 de Junho. São propostas que os moçambicanos desejam ver concretizadas e não comprometidas com o actual barulho do contrato entre Kondic e a LAM.

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