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DEPOIS DO NORTE: Chapo coloca FDS nas mãos do Centro

Após a conquista da Independência Nacional, em 1975, o Governo moçambicano, então sob égide de Samora Machel, colocou a unidade nacional como uma das suas bandeiras, impondo até a necessidade de “matar a tribo para construir a Nação”. Este desiderato tinha, aliás, reflexo na composição do seu Governo, que congregava ministros – muitos deles ex-combatentes da Luta de Libertação Nacional – oriundos de diversas regiões do País. Contudo, com a ascensão de Joaquim Chissano ao poder, começaram a emergir, dentro da própria Frelimo, discursos de condenação à suposta “marginalização” das regiões Centro e Norte das estruturas do poder, em benefício do Sul. Assim, nascia a ideia de “agora é nossa vez”, que terá tido maior expressão na era Nyusi, que durante o seu magistério privilegiou figuras do Norte. Finda a “vez do Norte”, parece ter iniciado a “vez do Sul”, particularmente visível nas Forças de Defesa e Segurança (FDS).

Texto: Amad Canda

Embora tenha parecido mera obra do acaso, a eleição de Daniel Chapo como candidato presidencial da Frelimo, na II Sessão Extraordinária do Comité Central, em Maio de 2024, respondeu a “silenciosas exigências” de algumas alas do partido, no sentido de que, findo o ciclo de governação de Filipe Jacinto Nyusi, o poder fosse entregue ao Centro de Moçambique, depois de já ter sido ocupado pelo Sul (Samora Machel, Joaquim Chissano e Armando Guebuza) e pelo Norte (Filipe Nyusi).

Curiosamente, por coincidência ou não, as escolhas de Chapo, que é natural de Dondo, província de Sofala, para a liderança de alguns dos sectores mais estratégicos do Estado moçambicano recaíram sobre quadros oriundos da zona centro do País, sobretudo ao nível das FDS. Recorde-se que o “politicamente imortal” José Pacheco, que recentemente assumiu o comando do Serviço de Informação e Segurança de Estado (SISE), é natural do distrito do Búzi, província de Sofala.

Antes de Pacheco, que sucede ao falecido Bernardo Lidimba, já tinham sido feitas outras nomeações no domínio castrense que, por sinal, confirmam a tendência da predominância da região central do País. É que, para exercer as funções de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), o Presidente da República e, por inerência, Comandante-em-Chefe das FDS, decidiu escolher o general do Exército Júlio dos Santos Jane. Jane, que, à semelhança de Pacheco, também parece estar destinado a grandes cargos, nasceu na cidade de Chimoio, capital provincial de Manica.

Já para o cargo de Comandante-Geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), Chapo optou por Joaquim Sive que, segundo consta, é natural da província de Sofala, província onde exercia as funções de comandante provincial antes de chegar ao topo da polícia moçambicana.

Entretanto, não é apenas no aparelho securitário que se circunscreve a forte influência da zona centro no actual ciclo governativo. Ao nível do Executivo, a escolha de Basílio Muhate para o Ministério da Economia é vista como mais uma prova de que a vez é mesmo do Centro. Estratégico em qualquer Governo, este ministério viu crescer o seu grau de importância após ser reconfigurado por Chapo de modo a congregar também os pelouros do Turismo, Indústria e Comércio. Ou seja, são quatro ministérios num só, o que faz com que Basílio Muhate, jovem economista nascido em Chimoio, seja considerado um dos “superministros” de Chapo.

Para além de Muhate, o levantamento do Dossiers & Factos, que não conseguiu obter a origem de cinco ministros, identificou outros dois nascidos no Centro. São eles Caifadine Manasse (ministro da Juventude e Desporto) – Zambézia; e Fernando Rafael (ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos) – Manica.

Com Nyusi, os ventos sopravam do Norte

A comparação entre as equipas de Daniel Chapo e Filipe Nyusi, especialmente ao nível das FDS, mostra que a sucessão por regiões é uma realidade no seio do partido Frelimo, mesmo que não seja assumida de forma aberta. Repare-se que, durante os dez anos em que esteve à frente dos destinos do País, Nyusi confiou a liderança da PRM a um único homem – o seu conterrâneo de Cabo Delgado, Bernardino Rafael.

Ao contrário do que sucedeu na PRM, as restantes instituições das FDS viveram momentos de instabilidade, com sucessivas trocas ao nível de topo, mas quase sempre com as escolhas a recaírem sobre gente nascida no Norte do País. Pelo cargo de Chefe do Estado-Maior General das FADM passaram três figuras escolhidas por Nyusi, nomeadamente os nampulenses Lázaro Menete e Eugénio Mussa, e ainda Rivas Mangrasse, nascido em Niassa.

Por sua vez, o SISE foi dirigido por igual número de directores-gerais apontados pelo antecessor de Chapo, designadamente Lagos Lidimo, Júlio Jane e Bernardo Lidimba. À excepção de Jane, os outros dois são naturais de Cabo Delgado, o que confirma a “tese” de que, nos últimos dez anos, os ventos sopraram do Norte.

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