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EDITORIAL D&F: A armadilha do desemprego

Na última sexta-feira, o Centro de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo, foi palco de um episódio que, pela forma como decorreu, deixa marcas profundas no debate sobre ética e transparência na relação entre governantes e governados. O evento fora amplamente publicitado como “Feira de Emprego” — um chamariz irresistível para centenas de jovens que, mergulhados no desemprego e na precariedade, acorreram na esperança de encontrar uma porta aberta para o futuro.

Porém, o que se seguiu foi um golpe baixo contra essa expectativa legítima. Ao chegarem, os jovens não encontraram bancas de empresas prontas para os receber, nem oportunidades para “vender o seu peixe” através de conversas, entrevistas rápidas ou simples trocas de contactos. Em vez disso, foram orientados a depositar os seus currículos numa caixa — com a promessa, vaga e sem garantias, de que “depois seriam entregues às empresas”.

Mais grave ainda, não se explicou com que critério se faria essa entrega, nem quais eram exactamente as empresas presentes. Uma ausência de transparência que retira qualquer seriedade à acção e que, no mínimo, demonstra uma organização amadora; no máximo, revela uma intenção premeditada de enganar.

Rapidamente se começou a ouvir nos corredores e nas redes sociais que a tal “Feira de Emprego” não passava de uma isca. O objectivo real, dizem, teria sido garantir uma plateia numerosa e entusiástica para a Conferência Nacional da Juventude — o evento que, de facto, estava programado. Uma estratégia torpe, que troca a confiança dos jovens por números e imagens para propaganda. Esta manipulação não é apenas imoral; é perigosa. Quando se instrumentaliza a fome de oportunidades para inflar o ego de uma organização ou para passar uma imagem de sucesso político, mina-se a credibilidade das instituições e reforça-se a percepção de que, no País, nada se move senão por cálculo e conveniência.

O resultado foi previsível: desilusão, frustração e, por fim, revolta. Não tardou para que, no meio do evento, ecoasse nas galerias o grito de “Venâncio”, numa clara manifestação de insatisfação política perante a presença do Chefe de Estado, Daniel Chapo. A encenação montada para mostrar adesão acabou por expor, diante das câmaras, uma ferida aberta na relação entre o poder e a juventude.

É preciso sublinhar que a juventude moçambicana não é ingénua. Pode, por vezes, ser paciente, resiliente até à exaustão, mas sabe reconhecer quando está a ser usada. E, neste caso, a percepção de que foram levados a acreditar numa promessa falsa só serviu para aumentar a desconfiança e distanciar ainda mais os jovens de quem governa.

Há quem tente relativizar o episódio, afirmando que “o importante foi a mensagem passada na conferência”. Mas essa visão ignora um ponto fundamental: a forma como se chega a um público importa tanto quanto o conteúdo que se pretende transmitir. A boa política não se constrói sobre enganos, nem sobre expedientes que tratam cidadãos como figurantes descartáveis.

Num país onde a taxa de desemprego juvenil atinge níveis alarmantes, qualquer promessa de oportunidades de emprego deve ser tratada com a máxima seriedade. Anunciar uma feira e, no lugar dela, oferecer um espectáculo político é não só um desperdício de recursos e de tempo, mas um insulto à inteligência de quem luta todos os dias para encontrar trabalho.

A credibilidade das instituições não se reconquista com slogans ou eventos bem encenados; reconquista-se com gestos concretos, com políticas consistentes e com um respeito genuíno pelo cidadão. Uma Feira de Emprego deveria ser, no mínimo, um espaço para interacção directa, para entrevistas imediatas, para recolha de portefólios e contactos — não um simples depósito de CVs num recipiente sem rosto nem destino certo.

A juventude moçambicana não precisa de mais promessas ocas, mas de compromissos tangíveis. Precisa de governantes que falem com clareza, que apresentem números concretos e que se comprometam com metas verificáveis. E precisa, sobretudo, de deixar de ser usada como massa de manobra para legitimar narrativas políticas que em nada mudam o seu quotidiano.

O episódio de Maputo não pode ser visto como um incidente isolado, mas como um alerta. Se a relação entre Estado e juventude continuar a ser marcada pela desconfiança, pela manipulação e pelo paternalismo, o fosso social e político só tenderá a aumentar. E quando a juventude — que é a maioria demográfica do País — começa a gritar nomes da oposição na cara do Presidente, é sinal de que a paciência chegou ao limite. É tempo de substituir armadilhas por oportunidades reais.

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