– Jihadistas passeiam a classe, muitas vezes sem resistência
– Internacionalmente, denuncia-se “genocídio” contra cristãos
Numa altura em que se fala com cada vez mais optimismo sobre o regresso da TotalEnergies à Palma, para dar seguimento aos trabalhos que culminarão com a exploração do Gás Natural Liquefeito na Área 1 da Bacia do Rovuma, os terroristas voltam a mostrar a sua musculatura em Cabo Delgado, tendo inclusive regressado aos métodos primitivos das decapitações, especialmente de cristãos. O fenómeno, que no plano internacional é descrito como “genocídio silencioso”, coincide, curiosamente, com o surgimento de notícias de que o Governo estaria a enfrentar dificuldades em pagar às tropas ruandesas que colaboram no combate ao terrorismo.
Texto: Dossiers & Factos
Desde o primeiro dia, o Governo moçambicano negou que as Forças de Defesa do Ruanda tenham contrapartidas financeiras em virtude do seu envolvimento na contra-insurgência em Cabo Delgado. Apesar das múltiplas garantias, respaldadas pela contraparte ruandesa, sempre pairou alguma desconfiança na sociedade moçambicana.
Entretanto, um artigo do Africa Intelligence, publicado a 26 de Maio deste ano, praticamente transformou a “desconfiança” em “certeza” de que, efectivamente, Moçambique está a pagar pela ajuda militar ruandesa. O referido texto dava conta de que o País estaria a ter dificuldades de desembolsar verbas mensais aos ruandeses, que supostamente variam entre 2 a 4 milhões de dólares.
As dificuldades de honrar com este “compromisso” que, sublinhe-se, nunca foi assumido oficialmente, terão começado em Agosto de 2024, arrastando-se até Julho, quando a mesma Africa Intelligence deu conta da alegada retoma dos pagamentos. Coincidência ou não, ao longo deste período, os terroristas têm estado a recuperar alguma capacidade operacional, como atesta o aumento das suas incursões em vários distritos de Cabo Delgado e, esporadicamente, em Niassa – em Abril deste ano, invadiram a Reserva Especial do Niassa. Em grande parte das suas investidas, e segundo reporta alguma imprensa, os terroristas sequer chegam a encontrar resistência das Forças de Defesa (FDS) e seus aliados.
Outrossim, a intensificação dos ataques, incluindo a readopção de acções espectaculares, como decapitações e queima de infra-estruturas públicas e privadas, sugere uma tentativa de dissuasão do consórcio liderado pela TotalEnergies, na perspectiva de inviabilizar, ou pelo menos atrasar, o seu regresso à Afungi, de onde saiu em 2021 por “força maior”, depois do célebre ataque de Março do mesmo ano na vila de Palma.
Dados da ACLED indicam que, de 14 de Julho a 3 de Agosto, pelo menos 28 pessoas foram mortas, das quais 11 são civis. A plataforma dedicada à monitoria de conflitos destaca a movimentação do grupo para sul de Cabo Delgado, nomeadamente para distritos como Ancuabe e Chiúre – neste último, lembre-se, chegaram a tomar o Posto Policial de Chiúre-Velho.
Como corolário do aumento dos ataques, sobem exponencialmente os números relativos aos deslocados. De acordo com a Organização Internacional das Migrações, em apenas oito dias – de 20 a 28 de Julho – 46 mil pessoas abandonaram as suas zonas de residência à procura de locais seguros. 60% são crianças.
“Genocídio silencioso”
A escalada em Cabo Delgado não passa despercebida além-fronteiras, com organizações internacionais a denunciarem um “genocídio silencioso” contra cristãos. É o caso do Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio (MEMRI), que destaca decapitações de cristãos, queima de igrejas e de residências.
“O que vemos em África hoje é uma espécie de genocídio silencioso ou guerra silenciosa, brutal e selvagem que está a ocorrer nas sombras e muitas vezes ignorada pela comunidade internacional”, disse o vice-presidente do MEMRI, Alberto Miguel Fernandez, à Fox News Digital.
Num relato que coincide com episódios contados por várias testemunhas em Cabo Delgado, Fernandez explicou que, ao contrário dos muçulmanos, que têm a prerrogativa de juntar-se ao “exército” dos terroristas, os cristãos têm o destino traçado – a morte, muitas vezes através de métodos primitivos.
Especialistas consultados pelo site espanhol La Gaceta também não hesitam em classificar o cenário como “genocídio”. Já o Infovaticana afirma peremptoriamente que o que está em curso em Cabo Delgado “não é uma guerra, mas sim extermínio”, destacando a decapitação de seis cristãos a 22 de Julho em Natocua, no distrito de Ancuabe, como um dos episódios mais sangrentos.