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DIRECTOR REGIONAL SUL DO INGD: “Está garantida a segurança alimentar nas três províncias do Sul”

Moçambique enfrenta, reiteradamente, períodos de seca que mais severamente afectam os distritos do interior do País. Este fenómeno, caracterizado pela escassez de chuva, tem impactos profundos na agricultura e na economia das famílias que dela dependem para sobreviver, sendo as províncias de Gaza, Inhambane e Sofala as mais atingidas. Contudo, e em entrevista exclusiva ao Dossiers & Factos, o director regional Sul do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), Cândido Mapute, garante que a segurança alimentar nestas regiões está controlada. De acordo com o responsável, uma boa parte das famílias afectadas pela estiagem já recebe assistência alimentar, através de uma parceria do INGD com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e o Programa Mundial de Alimentação (PMA). Acompanhe de seguida a entrevista, no estilo de perguntas e respostas.

Texto: Anastácio Chirrute em Inhambane

Dossiers e Factos (D&F): Foi recentemente nomeado para o cargo de director regional Sul do INGD. Sabemos que antes foi delegado provincial na mesma instituição, em Inhambane. O que justifica a recorrente aposta em si?

Cândido Mapute (CM): Saio de Inhambane com a sensação de ter feito um bom trabalho. Criei os primeiros Comités Locais de Gestão de Risco de Desastre e olhámos muito para a questão da resiliência por parte das populações que viviam nas ilhas. O que percebi é que éramos mais reactivos do que proactivos. Foi introduzida a questão do conhecimento do risco por parte da comunidade, olhando também para as zonas mais vulneráveis, onde as comunidades faziam a gestão à sua maneira. Tivemos essa visão de capacitar a comunidade em matéria de aviso prévio. Criámos também os primeiros avisos de seca a nível dos distritos semiáridos da província de Inhambane e fomentámos culturas tolerantes à seca como método de prevenção, formando várias equipas comunitárias para mitigação dos efeitos da seca. 

D&F: Durante a sua gestão na província de Inhambane, os números de famílias em situação crítica eram bastante assustadores, falava-se de mais de 30 mil. Qual é o cenário que deixa? 

CM: Sim, eram números que haviam sido projectados nesses tempos, mas que gradualmente foram reduzindo. Agora temos abaixo de 5 mil famílias que necessitam de assistência alimentar a nível de toda a província de Inhambane. Mas não porque estas famílias estejam numa situação muito crítica, porque recordo-me que, aquando da minha entrada no distrito de Mabote, houve relatos de que algumas famílias viviam de tubérculos e frutas silvestres, e quando chegámos ao terreno constatámos que não era verdade.  

D&F: Que estratégia adoptou para conseguir baixar o número?

CM: Tivemos que introduzir uma nova abordagem, que consistia no fomento massivo de culturas tolerantes à seca e na diversificação de fontes de rendimento familiar. Incentivámos a criação de galinhas landim de alta capacidade na produção de ovos nos distritos de Mabote, Funhalouro e Panda. Introduzimos a criação de galinhas em capoeira para facilitar a vacinação, porque percebemos que as galinhas morriam de Newcastle porque se fazia uma criação aberta, numa situação em que muitos animais são assintomáticos à Newcastle. Quando chovia, aquele aglomerado de água levava consigo fezes contendo doenças e as galinhas bebiam aquela água e depois ficavam doentes. Chegou uma fase em que, nesses distritos, uma galinha custou entre 500 a 700 meticais. 

D&F: Como é que essas famílias tinham acesso às referidas galinhas? Era de forma gratuita ou pagava-se algum valor? 

CM: Nós é que fizemos o fomento. Adquirimos as galinhas e distribuímo-las pelas famílias, e cada família beneficiou-se de quatro galinhas – três fêmeas e um macho. Ensinámos as famílias a construir gaiolas e demos ainda os primeiros kits para o tratamento da Newcastle.  

D&F: Quantas galinhas foram adquiridas e distribuídas e quantas famílias foram beneficiadas por esta iniciativa? 

CM: Estamos a falar de cerca de 17 mil galinhas que distribuímos em parceria com o Programa Mundial de Alimentação, divididas por 4 galinhas por cada família. O que recomendámos aos beneficiários é que, assim que as galinhas se reproduzissem, pudessem dar as mesmas galinhas também ao seu vizinho, para poder beneficiar desta oportunidade. Eram galinhas de alta capacidade de produção de ovos. Isso se chama diversificação da fonte de rendimento das famílias. As famílias não podem olhar apenas para a produção agrícola, porque muitas delas dependem da queda de chuva nessas zonas e, com as mudanças climáticas, em alguns pontos desses distritos sabemos que a precipitação não chega a 400 milímetros por ano. 

D&F: Senhor director, já viajou por todas as províncias da região sul de Moçambique e certamente tem acompanhado a triste realidade que as populações, sobretudo as que vivem nos distritos do interior, enfrentam no seu dia-a-dia. Neste momento, qual é a província que mais gera preocupação?

CM: Alguns distritos da província de Gaza têm tido focos de fome, mas a introdução de acções antecipadas à seca nas províncias de Gaza e Inhambane veio também alavancar a segurança alimentar das famílias. Isto é, o INGD, em parceria com o Banco Africano de Desenvolvimento, introduziu a construção de sistemas de abastecimento de água multifuncionais, acompanhados de estufas para a produção de hortícolas com sistema de irrigação gota-a-gota e áreas adjacentes para produção de estacas de mandioca. Este projecto está a trazer resultados muito satisfatórios. Na província de Gaza, os sistemas foram construídos nos distritos de Mapai, Massangena e Chibuto, enquanto na província de Inhambane são os distritos de Panda, Funhalouro e Mabote.   

D&F: Disse que a situação da fome nas províncias de Inhambane e Gaza está a melhorar significativamente. Qual era o ponto de situação das famílias que viviam em situação crítica e como estão actualmente em termos de nível de assistência alimentar?   

CM: De princípio, tínhamos cerca de 17 mil pessoas na província de Gaza que estavam em situação crítica, mas com a introdução do sistema multifuncional de abastecimento de água, os números baixaram para pouco menos de quatro mil pessoas. O mesmo aconteceu com a província de Inhambane, onde tínhamos mais de 30 mil famílias que também precisavam de ajuda alimentar, mas actualmente o número baixou para 3 mil famílias. 

D&F: Podemos assumir que as mais de 7 mil pessoas que ainda estão a necessitar de assistência alimentar nos distritos do interior das províncias de Gaza e Inhambane, caso não sejam assistidas com maior urgência, podem perder a vida? 

CM: Não, até porque nós já começámos com o processo de assistência alimentar através de E-ticket em parceria com o PMA, mas também estão a ser assistidas pela Acção Social. 

D&F: Aquando das manifestações, o INGD terá sofrido a vandalização dos seus armazéns nas províncias de Maputo e Inhambane (em Mabote), deixando centenas de famílias no total desespero. Volvidos mais de 6 meses, em que estado se encontram os beneficiários? 

CM: De facto, sofremos a vandalização do nosso armazém no distrito de Mabote, mas, apesar desta situação, conseguimos mobilizar recursos e apoiamos 80% das famílias que necessitavam de assistência alimentar. Aos outros 20%, demos assistência em cimento, enxadas e pulverizadores para produção agrícola.

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