– “Este conflito não começa a 7 de Outubro de 2023, mas em 1917, com a promessa que Grã-Bretanha fez aos sionistas”
A paz no Médio Oriente só será possível quando a comunidade internacional assumir, de forma inequívoca, a solução de dois Estados – um palestiniano e outro israelita – como o único caminho para pôr fim a mais de um século de ocupação sionista e sofrimento humano. Quem o afirma é Fayez Abdul Jawad, embaixador da Palestina em Moçambique, para quem “a chave da paz e da guerra está na Palestina”. Numa entrevista marcada por emoção e memória histórica, o diplomata descreve a brutalidade israelita após o célebre ataque de 7 de Outubro de 2023 – que, sublinha, foi também “uma resposta às atrocidades que Israel comete diariamente nos territórios ocupados” – e denuncia a tentativa de Benjamin Netanyahu de prolongar o conflito para escapar à justiça. Sem esconder a desconfiança em relação ao primeiro-ministro israelita, Fayez Abdul Jawad deposita fé nos mediadores – Egipto, Qatar e Turquia – e agradece o apoio firme de Moçambique, País que, segundo recorda, “sempre esteve do lado da paz e da justiça”. Com palavras duras para a antiga potência colonial, o embaixador afirma que os palestinianos continuam a “pagar um preço altíssimo pelo erro histórico da Grã-Bretanha”, que em 1917 prometeu um Estado judeu em solo palestiniano, acendendo a chama de um conflito que “nunca mais cessou”.
Texto: Amad Canda
Dossiers & Factos (D&F): Senhor embaixador, gostava que começasse por dissertar sobre as origens do conflito Israelo-Palestiniano. Há quem diga que começou com aquele ataque do Hamas, a 7 de Outubro, mas parece que não é bem assim…
Fayez Abdul Jawad (FAJ): O que aconteceu no dia 7 de Outubro foi a continuação de um conflito que começou em 1917, quando a Grã-Bretanha emitiu aquela promessa a grupos do sionismo de lhes dar um Estado judeu. Naquela altura, nós começámos a nossa luta contra o colonialismo, porque este grupo de sionistas, quando chegou ao nosso território, lançou uma guerra de genocídio contra o nosso povo. Matou e ocupou o nosso território. Desde esse momento, a guerra nunca terminou. Continua a assassinar as nossas crianças, mulheres e a confiscar diariamente o nosso território. Se recuar para o período anterior ao dia 7 de Outubro, vê que Israel estava a cometer muitos crimes, diariamente, contra crentes palestinianos em Jerusalém, tanto muçulmanos como cristãos. Diariamente, eles invadiam a Mesquita de Al-Aqsa e a Igreja da Ressurreição. Igualmente, invadiam casas do povo palestiniano na Cisjordânia, assassinando mulheres, crianças, jovens. E fazem bloqueio à Faixa de Gaza há quase 30 anos, para que não entre comida, comprimidos, etc. A Faixa de Gaza tornou-se uma grande prisão a céu aberto.
D&F: Portanto, os episódios de 7 de Outubro foram, digamos, uma resposta a todas estas situações?
FAJ: Foi uma resposta. E a resposta de Israel não foi equilibrada. Foi uma grande calamidade, uma grande brutalidade contra o nosso povo. Repare que esta guerra já causou 67 mil mártires palestinianos e a maioria são crianças, mulheres e idosos. Também temos contabilizados 167 mil feridos, a maioria deles também mulheres, crianças, idosos. Há pessoas que perderam mãos, algumas perderam as duas pernas, outras perderam olhos.
Israel estava a atacar, deliberadamente, crianças, para eliminar o nosso futuro, porque a criança é o futuro de qualquer povo, de qualquer nação. Também já destruíram 90% das casas de palestinianos, levando dois milhões de pessoas a viverem na estrada. Eles atacaram a maioria dos hospitais na Faixa de Gaza. Atacaram as nossas escolas, pondo em causa a educação das nossas crianças, e também atacaram todo o nosso património na Faixa de Gaza. Numa flagrante violação dos direitos humanos, lançaram uma guerra de fome contra o nosso povo. Cerca de 300 palestinianos já morreram à fome, entre os quais 224 são crianças. Alguns eram mesmo bebés. Então, realmente, este é um conflito muito duro, por isso nós sempre buscámos o cessar-fogo. Logo no primeiro momento, a Autoridade Palestiniana, a nossa liderança, pediu o cessar-fogo. A prioridade da nossa agenda era o cessar-fogo, a entrada de ajuda humanitária e a retirada do exército israelita da Faixa de Gaza. No entanto, com o apoio dos Estados Unidos da América (EUA), Benjamin Netanyahu insistiu com a guerra para fugir a julgamento por causa de corrupção. Ultimamente, quando países da Europa começaram a reconhecer o Estado Palestiniano, Israel sentiu-se isolado e, com a pressão de Donald Trump sobre Netanyahu, aceitou a iniciativa americana do cessar-fogo.
“Cessar-fogo deve ser seguido pela implementação da solução dos dois Estados”
D&F: Acredita, senhor embaixador, que esse acordo será respeitado por Israel?
FAJ: Esperamos. Acreditamos que isso depende também dos esforços dos mediadores – Egipto e Qatar – e também da vontade dos EUA. No momento em que nasceu esta iniciativa, a liderança palestiniana apoiou-a sem reservas, porque a nossa prioridade, como disse antes, é o cessar-fogo, a entrada de alimentação, de medicamentos, para salvar o nosso povo, que sofre de muitas coisas. Então, esperamos que com esta iniciativa chegue ao fim essa calamidade a que o nosso povo está sujeito. E este acordo deve ser seguido por uma iniciativa tendente à implementação da solução de dois Estados – um Palestiniano e outro Israelita. Queria, aliás, aproveitar este momento para agradecer os esforços do Governo moçambicano, que assumiu um papel importante quando estava como membro não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foram feitos grandes esforços no sentido de apoiar a causa palestiniana e conquistar a paz para o nosso povo. E nós testemunhámos o discurso de Sua Excelência Daniel Francisco Chapo, recentemente na Assembleia Geral, que confirma que Moçambique vai ficar sempre em apoio à paz e justiça, e que anunciou claramente que Moçambique apoia a solução de dois Estados.
D&F: A defesa de dois estados é quase um consenso a nível mundial. Avançando esta ideia, qual é a perspectiva da Palestina em relação aos territórios? Conforma-se com Gaza e Cisjordânia? Por outro lado, como fica a situação de Jerusalém?
FAJ: Nós vamos aceitar a criação do nosso Estado neste território, embora a Lei Internacional seja clara sobre estas matérias: este território, que Israel ocupou em 1967, é território do Estado da Palestina, incluindo Jerusalém Oriental. Jerusalém Oriental é onde está a mesquita e a Igreja da Ressurreição. Então, a nossa posição é clara: um Estado independente considerando as fronteiras de 1967, com Jerusalém Oriental como capital do Estado da Palestina. O reconhecimento de alguns países da Europa ao direito de existência de um Estado Palestiniano é também sinal de que reconhecem Jerusalém como parte do território palestiniano.
D&F: Como é que a Palestina recebeu a notícia de reconhecimento de 15 países europeus?
FAJ: Com muito agrado, e aqui expresso os nossos agradecimentos. Isso também é resultado do nosso esforço junto da Comunidade Internacional. Estes países já entendem a realidade do conflito e já entendem que a paz nunca vai acontecer sem o reconhecimento do Estado da Palestina e a solução de dois Estados. Então, este reconhecimento é muito importante e nós apelamos a outros países que ainda não reconheceram para reconhecerem que a Palestina tem o direito de ser um membro permanente nas Nações Unidas em todas as condições inerentes a este pedido.
D&F: Senhor embaixador, voltemos à questão do cessar-fogo. Qual é o nível de confiança da Autoridade Palestiniana em Donald Trump, considerando que os EUA são o principal apoiante de Israel, por um lado, e, por outro, que o presidente americano expressou publicamente seu desejo de tomar a Faixa de Gaza e transformá-la na “Riviera do Médio Oriente”?
FAJ: Olhe, este acordo, ou esta iniciativa, tem cláusulas positivas, mas é preciso mais esforço para a melhorar. A nossa confiança está nos mediadores – o Egipto, o Qatar e a Turquia. As cláusulas positivas são o cessar-fogo, a entrada urgente da ajuda humanitária e prevenir a anexação da Faixa de Gaza por Israel. Então, nós saudamos a iniciativa de Trump. Agora temos que esperar para ver o que vai acontecer. O certo é que a liderança palestiniana tem um programa completo, preparado e coordenado com países árabes, como Egipto e Jordânia, visando a reconstrução da Faixa de Gaza. E, o mais importante, prevenir a expulsão do nosso povo da Faixa de Gaza, que era um dos objectivos de Netanyahu. Com os esforços de países árabes, já cancelou este plano. Mas agora nós temos um programa, trabalhar com força para reabilitar e reconstruir a Faixa de Gaza, e oferecer abrigos para o nosso povo que vive agora na estrada, sem abrigos, sem nada.
D&F: A Palestina tem garantias de apoios financeiros para a reconstrução da Faixa de Gaza? FAJ: Vamos ver. Temos muitos amigos dispostos a ajudar neste assunto.
“Não confiamos em Israel”
D&F: A dado passo disse que o desejo de Benjamin Netanyahu era a continuidade da guerra, de forma a escudar-se dos processos judiciais. Não teme que, para se proteger a si próprio, Netanyahu sabote o cessar-fogo?
FAJ: Isto depende da vontade da América e dos esforços dos países árabes. Nós não temos confiança em Netanyahu. Não confiamos em Israel. Aliás, recentemente, Netanyahu disse num canal de televisão israelita que Deus lhe mandou criar um grande estado de Judeus. O que significa isto? Significa que ele quer confiscar todo o território palestiniano, e ocupar o Sinai do Egipto, ocupar todo o Líbano, a Síria, uma parte da Arábia Saudita, uma parte do Iraque.
D&F: A propalada ideia do “Grande Israel”…
FAJ: Sim, este é um grande problema, e isto nunca vai trazer a paz para eles. Ele deve entender bem que, sem paz para o povo palestiniano, sem solução de dois Estados, sem um Estado independente, com Jerusalém Oriental como capital deste Estado, nunca haverá segurança, estabilidade ou paz para eles, assim como na região. A chave da paz e da guerra sai da Palestina. Mas nós insistimos com os esforços em busca de paz. A nossa liderança, Mahmoud Abbas, fala desta nossa vontade de conquistar a paz.
D&F: A Palestina está satisfeita com o nível de apoio internacional que tem?
FAJ: Nós estamos satisfeitos com o nível do apoio que a Palestina tem agora. E este reconhecimento, este apoio da comunidade internacional, foi importante para o avanço do plano de Trump. Porque Israel ficou isolado a nível mundial e Trump quer salvá-lo.
D&F: Uma parte da sociedade israelita, por sinal bastante influente, alega que os judeus são o “povo escolhido por Deus”, e em função disso, está acima de todos os outros. Como é que a Palestina olha para esta visão?
FAJ: Israel sempre diz que é o povo escolhido por Deus, mas isso não é verdade. Aliás, todos os países árabes são semitas. Então, eles não têm o direito de dizer que devem estar acima dos outros. Mas eles usam isso para atacar os outros e retirar-lhes os direitos.

D&F: Os judeus não estarão a reproduzir a perseguição de que foram alvo, movida por Adolf Hitler?
FAJ: Eles estão a fazer a mesma coisa contra nós. Israel é um estado doente como o seu inimigo outrora. Estão “unidos” em comportamento. Eles fazem muitos holocaustos contra nós, como acontece agora na Faixa de Gaza. Qual é a diferença entre quem mata pessoas dentro de um forno e quem queima pessoas com uma tonelada de material explosivo? Para além disso têm colonatos, raptam crianças em Jerusalém. Houve o caso de uma criança que foi obrigada a beber gasolina para depois ser queimada viva até morrer. Qual é a diferença? Nenhuma.
“Pagamos caro pelo erro da Grã-Bretanha”
D&F: Qual devia ser a responsabilidade da Grã Bretanha, tendo em conta que foi sua a promessa de criar um Estado judeu, acabando por desencadear este conflito?
FAJ: Um erro histórico e nós pagámos um preço muito elevado por causa disso. Então alguém sem direito dá o nosso terreno a outro que não tem direito, quando nós existimos há mais de sete mil anos no território. É um erro e esperamos que a Grã-Bretanha corrija o seu erro, o que começa, naturalmente, pelo reconhecimento do Estado da Palestina.




