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ALGY AMAD E NATION BRANDING: “Temos de sair da diplomacia de pedintes para uma abordagem win-win”

O Seminário sobre Nation Branding no Contexto Diplomático, realizado, há dias, em Maputo, transformou-se num espaço de reflexão sobre a urgência de redefinir a forma como Moçambique projecta a sua imagem no mundo. O evento, organizado pela Universidade Joaquim Chissano (UJC) através da sua Escola Diplomática, reuniu académicos, diplomatas e decisores públicos para discutir os caminhos de uma diplomacia moderna e estratégica, num contexto de desafios internos e externos à afirmação do País.

Texto: Milton Zunguze

No painel dedicado ao tema “O Governo como agente catalisador do Nation Branding: Perspectivas para uma abordagem económica estratégica da identidade cultural”, Algy Amad, representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação (MINEC), defendeu uma mudança profunda no pensamento e na acção diplomática nacional.

“Desde 1975 que seguimos a mesma filosofia de cooperação, com a mesma abordagem diplomática e os mesmos actores”, afirmou Amad. “Na diplomacia, não existem parceiros tradicionais, mas sim parceiros funcionais, aqueles que compreendem as metamorfoses do crescimento e estão dispostos a ajudar-nos a crescer.”

 Amad considerou que Moçambique continua refém de modelos herdados das antigas potências centrais da política internacional, os quais perpetuam o subdesenvolvimento e limitam a autonomia estratégica do País. “Estamos presos a paradigmas antigos. A nossa diplomacia precisa de sair da zona de conforto e transformar-se num instrumento de negociação, não de dependência”, frisou.

Segundo o diplomata, a “secundarização do Estado moçambicano” no campo da cooperação internacional é visível na imposição de políticas e prioridades de desenvolvimento como condição para a ajuda externa. “É o que temos feito desde a independência e esperamos resultados diferentes”, lamentou.

Amad utilizou uma metáfora para ilustrar o papel do diplomata moderno, comparando-o a um agricultor: “Ao agricultor dá-se a terra e os insumos; ele sabe quando desbravar, quando lançar a semente e quando colher. O embaixador deve ter essa mesma capacidade: penetrar nos círculos de decisão e vender a marca Moçambique. Não é o embaixador que deve esperar instruções; é ele quem deve orientar o Estado sobre como se posicionar estrategicamente lá fora.”

Para o representante do MINEC, o Nation Branding deve ser encarado como um instrumento de soft power que reposicione Moçambique no cenário internacional, substituindo a imagem de um País pobre e dependente pela de uma nação criativa, produtiva e competitiva. “Temos de sair da diplomacia de pedintes para uma diplomacia negocial baseada em ganhos mútuos, uma abordagem win-win”, defendeu.

A cultura como motor económico e marca de diferenciação

 A secretária de Estado das Artes e Cultura, Matilde Muocha, apresentou uma visão complementar, defendendo que a construção da marca Moçambique não se deve limitar à comunicação institucional, mas ancorar-se no capital simbólico e económico da identidade cultural nacional.

“Temos de olhar para a cultura nas suas duas dimensões: a simbólica e a económica. Hoje, prevalece a simbólica, aquela que enaltece a identidade nacional, mas precisamos também de a transformar em recurso económico”, explicou.

Muocha salientou que o património cultural, o design, o cinema e as artes performativas devem ser integrados como activos estratégicos da economia nacional. “Ao fazermos uma gestão estratégica da identidade cultural, transformamos comunidades em destinos de turismo cultural. São activos que mobilizam pessoas, geram rendimento e valorizam territórios”, observou.

Segundo a governante, a Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025– 2044 já reconhece o papel central da cultura como pilar da transformação social e económica, ao consagrar o património cultural e natural como factores de atracção turística e de dinamização das economias locais.

Apesar disso, Muocha apontou fragilidades persistentes: falta de financiamento para a internacionalização das artes moçambicanas, fragmentação das acções culturais e ausência de mecanismos de monitoria e avaliação da presença do País em eventos internacionais. “Participamos em muitos eventos, mas a maioria dessas presenças não é documentada nem avaliada. Falta-nos uma política clara que permita medir o impacto da presença cultural de Moçambique no exterior”, criticou.

A secretária de Estado mencionou ainda o Festival Nacional de Cultura como exemplo de um activo nacional subaproveitado. “Ainda não é reconhecido como uma marca internacional do País. É urgente darlhe esse estatuto e projectá-lo como vitrina da diversidade moçambicana”, sublinhou.

Juventude como rosto da nova diplomacia

Na abertura do seminário, a ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, destacou o papel estratégico da juventude moçambicana na projecção da imagem internacional do País.

“São os jovens artistas, investigadores, empreendedores e diplomatas de amanhã que carregarão o estandarte da nação. Cabe-nos, enquanto Governo, criar as condições para que possam expressar livremente o seu talento e transformar conhecimento em desenvolvimento”, afirmou.

A ministra reforçou que o investimento na juventude não é apenas uma decisão política, mas uma estratégia de afirmação nacional, sustentada na educação e na cultura como motores de transformação social e projecção internacional.

“O sucesso do Nation Branding depende da nossa capacidade de comunicar quem somos, de forma autêntica, estratégica e coerente”, concluiu Tovela, encerrando o encontro com um apelo à união de esforços entre Estado, academia e sociedade civil na construção da marca Moçambique.

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