Erguido em 1929 por um grupo de veterinários portugueses associados à então Associação do Jardim Zoológico de Moçambique (AJZM), o Jardim Zoológico de Maputo nasceu como um espaço turístico e de conservação da fauna e flora bravia. O terreno adquirido, com cerca de 99 hectares à época, estendia-se da estrada para Marracuene até ao pântano do Infulene, onde foi implantado um parque zoológico e botânico que acolhia uma colecção diversificada de espécies e vegetação nativa. O espaço foi criado para ser um reservatório vivo do património ambiental moçambicano, uma vocação que cumpre com deficiência nos últimos anos, dado o quase estado de abandono em que se encontra votado o local que já foi uma das maiores atracções da capital moçambicana.
Texto e Imagem: Clara Mulima
Sob gestão do Conselho Municipal da Cidade de Maputo desde 1978, o Jardim Zoológico foi, durante décadas, um dos espaços de lazer mais emblemáticos do País, marcando gerações antes e depois da independência. Era destino de turistas, famílias, crianças e jovens em busca de contacto com a natureza e convívio social. Aos fins-de-semana, era palco de visitas escolares, eventos culturais, aniversários e actividades recreativas. “Todos os caminhos levavam ao Jardim Zoológico”, recordam antigos frequentadores. O verde que preenchia o horizonte e o som dos animais e das árvores compunham a paisagem natural da capital.
Hoje, porém, o cenário é o oposto. O espaço encontra-se praticamente abandonado e reduzido a menos da metade da sua área original. O jardim chegou a albergar mais de 90 animais de diversas espécies, entre mamíferos, répteis e aves, mas actualmente restam apenas alguns macacos, crocodilos e cobras dispersos na vegetação descontrolada.
Os recintos onde os animais eram mantidos foram construídos há mais de 50 anos, com dimensões e condições já consideradas inadequadas e obsoletas. Ao longo do tempo, a Associação alterou sucessivamente a sua denominação, mas enfrentou dificuldades estruturais. Em 1956 foi construída a sede do Centro Hípico do Jardim Zoológico. Em 1975, a instituição obteve um empréstimo da Caixa Económica para obras de melhoria. Porém, após a independência, grande parte dos sócios e apoiantes abandonou o País, deixando o espaço entregue às autoridades nacionais, na perspectiva de preservar o que restava.
Com o avançar dos anos, o vandalismo e a falta de manutenção agravaram o estado do local. Em 2009, com apoio de um investidor, foi construída uma nova vedação de cerca de 1.500 metros, já numa área reduzida para pouco mais de 40 hectares. Contudo, parte significativa do muro foi destruída pela população circundante e volta e meia reconstruída. Animais foram roubados, estruturas destruídas e recintos desmantelados.
Tocuene na África do Sul
A escassez de meios levou à transferência do famoso chimpanzé “João Tocuene” para o Santuário Jane Goodall, na África do Sul. O santuário, fundado em 2006, é especializado em acolher chimpanzés vítimas do comércio ilegal de animais selvagens, maus-tratos, uso em entretenimento e situações de risco. Hoje, com mais de 70 anos, Tocuene permanece naquele país para garantir melhores condições de vida.
Em 2018, a Associação propôs transformar o Jardim Zoológico num parque verde sem animais de grande porte, mas o projecto não avançou por falta de fundos. Desde então, o abandono tornou-se ainda mais evidente. O espaço está tomado por lixo, mato, recintos deteriorados e estruturas destruídas pelo tempo. Ao entrar, o que domina não são animais ou visitantes, mas o silêncio interrompido pelo som de troncos secos e pássaros isolados.
Munícipes frustrados
A equipa do Dossiers & Factos entrevistou indivíduos que vivem ao redor do Jardim Zoológico, assim como funcionários, que relatam tristeza e frustração ao ver um sítio outrora emblemático transformar-se num espaço degradado, inseguro e sem vida.
Matilde, de 57 anos, contratada pela Associação para cuidar de uma pequena machamba no recinto, descreve um cenário desolador. “O jardim está totalmente diferente. Só tem macacos e crocodilos. Nós aqui só limpamos e semeamos para manter o espaço minimamente cuidado. O pagamento é o que conseguimos colher”, conta, antes de denunciar o uso do espaço para fins criminais.
“Há muita bandidagem, pessoas que se escondem por causa da mata. Ao final do dia é perigoso. Para além disso, há lixo por todo o lado e o cheiro é insuportável.”
Outro morador reforça o sentimento de insegurança e perda. “Antes, o jardim era bem cuidado. Hoje vivemos com medo por causa das cobras e da mata. O Município devia reerguer o lugar, porque assim não vale a pena.”
Um visitante ocasional revela que utiliza o espaço apenas para descanso, por falta de alternativas: “Só venho apanhar ar porque trabalho perto. Não há animais, não há brinquedos, não há nada para crianças. Os baloiços estão quebrados. Gostaria de trazer os meus filhos, mas não há condições. O Governo devia olhar para isto, porque este lugar podia criar memórias incríveis para as crianças.”
As reclamações dos moradores e visitantes são unânimes: o Jardim Zoológico transformou-se num símbolo de abandono urbano e perda patrimonial. Num país com vasto potencial ecológico e turístico, a população clama por uma intervenção urgente das autoridades para recuperar o espaço que um dia foi orgulho nacional e cenário de convivência social.
Enquanto isso, o jardim permanece entregue ao tempo, à vegetação e ao silêncio, resistindo apenas pela memória de um passado que ainda vive no imaginário colectivo.




