Sob ordens directas de Donald Trump, o exército norte-americano invadiu a Venezuela na madrugada de 3 de Janeiro, desencadeando uma série de ataques coordenados que culminaram no sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, Cília Flores.
Em vários círculos de análise política, acreditava-se que Trump estaria prestes a entregar o poder “de bandeja” à principal figura da oposição venezuelana, María Corina Machado, apontada há anos como o rosto mais visível do combate ao chavismo. Essa expectativa parecia ganhar força face ao apoio reiterado dos Estados Unidos à ala oposicionista e às alegações de fraude eleitoral nas últimas presidenciais.
Na verdade, esse cenário parecia corresponder ao sonho político de Corina Machado, vencedora do Prémio Nobel da Paz, pelo menos a avaliar pela sua primeira reacção pública à incursão militar norte-americana. Longe de apelar à contenção ou ao respeito pela soberania nacional, Machado defendeu a posse imediata de Edmundo González Urrutia, o candidato que a substituiu nas eleições presidenciais, uma vez que ela própria estava impedida de concorrer por decisão judicial. González, recorde-se, reclama ter vencido Maduro nas urnas.
“Este é o momento dos cidadãos. Para aqueles de nós que arriscaram tudo pela democracia em 28 de Julho. Para aqueles de nós que elegeram Edmundo González Urrutia como o legítimo Presidente da Venezuela, que deve assumir imediatamente o seu mandato constitucional e ser reconhecido como Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Nacionais por todos os oficiais e soldados que as compõem”, escreveu Machado numa nota publicada na sua conta oficial na rede social X.
O que se seguiu, porém, foi um verdadeiro banho de água fria. A conhecida imprevisibilidade de Donald Trump transformou rapidamente o sonho de Machado num pesadelo político. Alegadamente amargurado pelo facto de a mulher de 58 anos não ter abdicado do Prémio Nobel da Paz em seu favor, o Presidente norte-americano decidiu afastá-la do tabuleiro sucessório, descartando qualquer hipótese de a ver à frente dos destinos da Venezuela.
“Acho que seria muito difícil para ela ser a líder”, afirmou Trump, numa declaração que surpreendeu até aliados da oposição venezuelana. “Ela não tem o apoio ou o respeito do país. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito”, insistiu, num discurso no mínimo contraditório, tendo em conta que a ala liderada por Machado e González sustenta ter vencido as eleições com larga vantagem – tese que foi, durante meses, publicamente respaldada por Washington.
Outra incoerência que não passou despercebida prende-se com o facto de Trump ter aparentemente aceite, sem grandes reservas, que o poder seja exercido pela vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez. Se Maduro era considerado ilegítimo por alegadamente não ter vencido as eleições, como justificar a ascensão da sua número dois? Esta contradição, aliada ao facto de o Governo de Caracas se manter praticamente intacto, sugere que, pelo menos para já, o chavismo está longe de desaparecer.
Mais do que uma cruzada em defesa da democracia ou dos direitos humanos, cresce a percepção de que a intervenção norte-americana na Venezuela responde sobretudo a interesses estratégicos e económicos, nomeadamente o controlo de recursos naturais. De resto, Trump sempre o assumiu, tornando ainda mais hercúleo o contorcionismo dos analistas pró-ocidentais que procuram dar traços de nobreza a acção americana.
Perante este cenário adverso, María Corina Machado, que já entrou para a história como a primeira vencedora do Prémio Nobel da Paz a defender abertamente uma intervenção militar estrangeira contra o seu próprio país, decidiu lançar novos acenos a Trump. Numa entrevista concedida à Fox News, na noite de terça-feira, 6 de Janeiro, afirmou desejar partilhar o Prémio Nobel com o Presidente dos Estados Unidos.
“Eu certamente adoraria poder dizer-lhe pessoalmente que acreditamos, o povo venezuelano – porque este é um prémio do povo venezuelano – certamente quer dá-lo a ele e partilhá-lo com ele”, declarou Machado ao apresentador Sean Hannity, numa tentativa evidente de amolecer o coração de Trump, entretanto já “consolado” por Gianni Infantino, que decidiu distingui-lo com o Prémio de Paz da FIFA, durante o sorteio do Mundial das Américas.
Resta agora saber se este gesto simbólico – e politicamente controverso – será suficiente para promover um volte-face ou se María Corina Machado continuará a ser apenas mais uma peça usada e descartada no complexo xadrez geopolítico internacional. A ver vamos! Amad Canda




