Moçambique enfrenta um dos momentos mais desafiantes da presente época chuvosa e ciclónica, com registo de chuvas intensas em vários pontos do País. Estranhamente, o Conselho de Ministros reuniu-se hoje em sessão extraordinária, tendo discutido única e exclusivamente o 13.º salário, pelo menos segundo o comunicado oficial do Governo.
Essa atitude é, no mínimo, censurável, tendo em conta que as chuvas têm estado a provocar vítimas mortais e danos materiais significativos, que incluem a destruição de infra-estruturas, entre as quais vias de acesso.
No que às infra-estruturas diz respeito, é também de destacar a situação da Estrada Nacional Número Um (N1), a única que conecta as três regiões do País por via terrestre. A chamada “espinha dorsal” vem sofrendo danos severos em vários troços, sendo um dos mais alarmantes a cratera que se abriu na ponte sobre o rio Muar, no distrito de Machanga, em Sofala.
Em virtude disso, a circulação alterna entre interrupções e reatamentos, situação que implica prejuízos avultados para os utentes, assim como para a economia no seu todo. Dito de outro modo, a logística encontra-se literalmente amputada, podendo agravar o já difícil ambiente económica interno.
Coincidentemente, enquanto a principal estrada do País sucumbe perante a forte pressão das águas, o titular do pelouro dos Transportes e Logística, João Matlombe, encontra-se em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, como membro activo da comitiva que acompanha o Presidente da República na visita de dois dias que efectua àquele país.
Se é verdade que esta deslocação lhe foi confiada pelo Chefe de Estado, não é menos factual que se exigia a João Matlombe que delegasse alguma figura de peso a nível central – entenda-se ministerial – para que, na sua ausência, monitorasse de perto os danos causados pelas chuvas e comunicasse com o público, especialmente com os directamente afectados.
No entanto, o que se vê no terreno são delegados provinciais da Administração Nacional de Estradas (ANE), com poderes limitados do ponto de vista geográfico, a abordarem um assunto que extrapola as fronteiras provinciais, uma vez que afecta todo o País.
Tal situação gera ainda algum espanto na sociedade, pois a ocorrência destas enxurradas foi devidamente anunciada, e com antecedência, pelas entidades estatais competentes, nomeadamente o Instituto Nacional de Meteorologia e a Direcção Nacional de Recursos Hídricos. Seguramente, o ministro tomou conhecimento dos alertas, pelo que não se pode queixar de ter sido apanhado de surpresa.
Será que, para o Governo, o assunto ainda é irrelevante?
Serôdio Towo




