Indigna-me a situação do nosso País, que é ciclicamente assolado por intempéries climáticas, entre elas as cheias, e que, até ao presente momento, não possui meios aéreos próprios para o resgate de pessoas, nem orçamento para alugar tais meios a quem os possui.
Sem pretensão de acusar quem quer que seja, mas mesmo apenas para efeitos de reflexão, como é que se justifica que uma instituição do nível do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) não tenha em seu poder um helicóptero capaz de salvar comunidades em tempo útil (!?)?
A situação das 68 pessoas sitiadas em Mapai veio, de forma inequívoca, colocar a nu a vergonha institucional do nosso Estado, deixando também claro e transparente que nem as nossas Forças de Defesa e Segurança possuem meios aéreos, pois, se os tivessem, certamente já teria havido alguma intervenção.
Este barulho na minha mente cresce ainda mais quando recuo no tempo para lembrar que o antigo Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, foi, em 2022, distinguido como campeão africano da gestão dos desastres naturais – um título amplamente propagandeado – quando, na verdade, estamos “despidos” em praça pública.
Também me faz espécie recordar que todos os Presidentes, desde Armando Guebuza até Daniel Chapo, a quem chamo à colação neste tema vergonhoso, sempre dispuseram de helicópteros para facilitar a sua mobilidade aquando das deslocações às províncias e distritos. Não pretendo, com este exemplo, comparar Vossas Excelências com aquele pobre cidadão de Massangena ou Mapai que hoje se encontra sitiado, mas apenas provocar reflexão.
Perdoai-me caso ofenda, mas, como cidadão e jornalista, é-me profundamente doloroso estar no terreno e presenciar esta etapa da pobreza que bem podia e devia ser evitada. Longe de desejar que o pior aconteça, mas apenas para cutucar agora Sua Excelência o Presidente da República, Daniel Chapo – homem que, conforme se diz, é enviado por Deus – imagine-se, a bordo do avião que o transporta de regresso à Pátria, vindo de Abu Dhabi, receber a informação de que 68 pessoas sitiadas desde a manhã de domingo acabaram por morrer, quer por fome, por frio, ou mesmo arrastadas pela corrente das águas… como é que se sentiria?
Aliás, por entender que este problema não começou a 15 de Janeiro de 2025, data em que tomou posse, permita-me que pergunte também, da mesma forma, ao campeão da gestão dos desastres: como é que se sentiria na mesma circunstância?
Enfim, é a dor de um cidadão jornalista que acompanha, impotente, o sofrimento que nos é imposto.
Serôdio Towo, Director Editorial




