– África do Sul, de que Moçambique é dependente, também está fortemente assolada
Moçambique atravessa um período crítico na sequência das chuvas intensas e persistentes que se fizeram sentir nas últimas semanas, provocando a destruição de culturas agrícolas, infra-estruturas de escoamento e meios de produção em várias regiões do País. A situação é agravada pelo impacto das mesmas chuvas na República da África do Sul (RSA), principal parceiro comercial de Moçambique no fornecimento de diversos produtos, sobretudo alimentares, criando um cenário de risco elevado de escassez, ruptura de abastecimento e pressão inflacionária nos mercados nacionais.
Texto: Hélio de Carlos e Clara Mulima
Na África do Sul, os efeitos mais severos registaram-se nas províncias de Limpopo, Mpumalanga (Parque Nacional do Kruger), KwaZulu-Natal, Cabo Oriental e Noroeste, onde as inundações forçaram a interrupção das actividades agrícolas, comprometendo a produção e a cadeia regional de abastecimento. Este cenário surge numa altura em que Moçambique depende significativamente daquele país para o fornecimento de alimentos, situação que já começa a reflectir-se no mercado nacional, tanto ao nível da disponibilidade como dos preços.
Na província de Maputo, observase já escassez de alguns produtos alimentares, associada às dificuldades de abastecimento enfrentadas pelos comerciantes e à paralisação das actividades produtivas dos agricultores afectados pelas cheias. Dados provisórios indicam que o sector agrário se encontra em estado de alerta devido às inundações resultantes da queda de chuvas intensas, que afectaram cerca de 38 mil hectares de culturas diversas, dos quais aproximadamente 10 mil hectares são considerados perdidos. Em distritos como a Manhiça e Boane, mais de 10 mil hectares de plantações terão sido completamente destruídos, comprometendo seriamente a produção de cereais e hortícolas e a subsistência de milhares de famílias camponesas.
Colapso logístico e pressão sobre os mercados
A crise não se limita aos campos. A rede viária moçambicana, verdadeiro sistema circulatório do comércio nacional, sofreu golpes profundos. Troços da Estrada Nacional Número Um (EN1) encontram-se condicionados, enquanto várias pontes secundárias foram destruídas, interrompendo o fluxo de mercadorias entre as zonas produtoras do centro e do norte e os principais centros de consumo do sul do País.
A destruição de estradas e pontes está a isolar centros de produção, impedindo o escoamento do que restou das colheitas e dificultando a chegada de ajuda humanitária a zonas remotas. Como consequência, produtos básicos começam a escassear nas prateleiras da capital e de outras cidades, provocando uma subida acentuada dos preços e uma perda acelerada do poder de compra das famílias mais vulneráveis, que dependem fortemente do mercado para garantir a sua alimentação diária.
Gaza: o epicentro da devastação agrícola
Na província de Gaza, o sector da Agricultura e Pescas registou perdas particularmente elevadas em consequência das inundações dos últimos dias, que afectaram mais de 71.437 hectares de culturas, além de impactarem a produção pecuária e pesqueira. As informações foram avançadas ao Dossier & Factos pela directora provincial de Agricultura e Pescas de Gaza, Ercília Xavier Cau, que descreveu o sector agrário como o mais afectado pelas cheias.
Segundo a dirigente, a situação é especialmente grave nos distritos de Chicualacuala, Mapai, Mabalane, Massingir, Xigubo, Massangena, Chókwè, Xai-Xai, Chónguene, Chibuto, Limpopo, Manjacaze e Bilene, onde grande parte das culturas se encontra submersa. De acordo com os dados preliminares, cerca de 71.437 hectares estão inundados, sendo que aproximadamente 48.556 hectares já são considerados áreas de perda total, números que continuam a ser actualizados à medida que a água permanece nos campos há vários dias.
Pecuária e pescas igualmente afectadas
No subsector pecuário, a situação é alarmante. Foram deslocadas cerca de 52.945 cabeças de gado bovino para zonas mais seguras, além de 1.324 bovinos de pequena espécie e cerca de 8.281 cabeças de gado caprino. As pastagens encontram-se igualmente afectadas, com cerca de 254.309 hectares inundados, comprometendo seriamente a alimentação do gado e a sustentabilidade da produção pecuária.
A directora referiu ainda que cerca de quatro mil hectares de arroz foram nundados, bem como infra-estruturas hidráulicas e feiras de comercialização de gado, que permanecem submersas. O sector das pescas também não escapou aos impactos das cheias, com tanques piscícolas inundados e a perda de alvinos arrastados pelas águas. Muitas famílias produtoras perderam não apenas as culturas em crescimento, mas também as sementes que lhes restavam, agravando a sua vulnerabilidade num contexto de enorme incerteza.
Inhambane: mais de três mil produtores em risco
Na província de Inhambane, as chuvas intensas provocaram a destruição de mais de 1.500 hectares de culturas diversas, colocando em risco a segurança alimentar de mais de três mil agricultores que dependiam desta produção para a sua subsistência. A informação foi avançada pelo governador da província, Manuel Francisco Pagula, durante uma visita de monitoria e levantamento dos danos.
“Estamos a fazer a avaliação da produção ao nível da nossa província e, de facto, a situação é preocupante. Temos mais de 1.500 hectares perdidos, o que abrange cerca de três mil agricultores. Isto deixa-nos muito apreensivos, porque boa parte destes produtores depende desta actividade para a sua sobrevivência”, afirmou, acrescentando que os distritos de Govuro, Mabote, Funhalouro, Homoíne, Jangamo e a cidade da Maxixe são os mais severamente afectados.
O Governo provincial prevê mobilizar apoio em insumos agrícolas assim que a época chuvosa terminar e apelou às populações que ainda se encontram em zonas de risco para abandonarem esses locais e se reassentarem em áreas consideradas seguras.
Centro e sul submersos
No centro do País, um quadro igualmente preocupante começa a desenhar-se. Na província da Zambézia, o transbordo do rio Licungo isolou distritos inteiros e submergiu plantações de arroz e milho que estavam a poucas semanas da colheita. No sul, as bacias dos rios Limpopo e Incomáti atingiram níveis de alerta, inundando o cinturão hortícola que abastece a região metropolitana de Maputo.
De acordo com dados preliminares do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, estima-se que mais de 200 mil hectares de culturas diversas tenham sido perdidos ou severamente danificados em todo o País.
Inflação alimentar e risco de crise nutricional
Para o camponês moçambicano, que depende da agricultura de subsistência para sobreviver, a perda da machamba não representa apenas um prejuízo económico, mas o desaparecimento da sua única reserva alimentar para boa parte do ano.
Nos mercados urbanos, o impacto já é visível. No Mercado Grossista do Zimpeto, em Maputo, o preço do saco de cebola e do tomate duplicou em menos de dez dias. “O camião não chega, e o que chega está muito caro por causa dos desvios que tem de fazer”, explica um retalhista local, ilustrando como a crise logística se transforma rapidamente em inflação alimentar.
Especialistas alertam ainda para um perigo secundário, mas igualmente grave: o risco de uma crise nutricional. Com a perda das culturas de ciclo curto, como hortícolas e leguminosas, a dieta das populações rurais tende a reduzirse a hidratos de carbono básicos, quando disponíveis, ficando carente de vitaminas e minerais essenciais. Num contexto de escassez, subida de preços e ruptura logística, o espectro da fome e da inflação passa, assim, a pairar de forma inquietante sobre vastas camadas da população moçambicana.




