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DEPOIS DE SAMORA, CHISSANO, GUEBUZA E NYUSI: Cheias testam também a Chapo

– Passará o PR no exame em que todos “reprovaram”?

Depois de, no seu primeiro ano de governação, ter enfrentado os efeitos das manifestações póseleitorais, marcadas também pela sabotagem à economia, Daniel Chapo inicia o seu segundo ano no poder sob o peso de uma nova contrariedade que inevitavelmente puxará o País para trás: as cheias e inundações que destruíram infra-estruturas estratégicas, paralisaram parcialmente a actividade produtiva e exigem a mobilização de fundos para a garantia de assistência imediata aos afectados. Esta situação coloca o actual Presidente da República diante de um teste que é histórico – as cheias cíclicas – que também se impuseram aos seus antecessores, os quais parecem ter sido incapazes de aprender com a experiência. Conseguirá Chapo, num contexto de dificuldades económicas e sociais agravadas, fazer o que os outros não fizeram?

Texto: Dossiers & Factos

O drama que hoje se vive no País não é novo; atravessa todos os ciclos políticos de governação desde a Independência Nacional. Basta recordar que, durante a presidência de Samora Machel, que decorreu de 1975 a 1986, houve registos de cheias severas que atingiram Moçambique. Em 1977, o País foi sacudido pelo imponente ciclone Emilie. No ano seguinte, em 1978, pelas cheias no Vale do Zambeze. Em 1981 voltou a ser abalado por outro ciclone, designado Benedette, antes de, três anos depois, em 1984, sofrer intensamente com a Tempestade Tropical Domoina, seguida, logo a posteriori, em 1985, pelas cheias que afectaram os vales do Zambeze e do Limpopo, causando centenas de mortes e deslocados.

Desta forma terminava o ciclo de intempéries antes da morte de Samora Machel.

Mesmo sofrimento com Joaquim Chissano

Com Joaquim Chissano como Presidente da República, entre 1986 e 2004, também ocorreram vários fenómenos, incluindo as famigeradas cheias de 2000, associadas ao ciclone Eline, que, segundo registos, causaram mais de 700 mortes. Antes disso, porém, tiveram lugar as cheias de 1988, provocadas pelo ciclone tropical Filao, seguidas, em 1989, pela precipitação intensa nas regiões Sul e Centro, causando cheias. Mais tarde, em 1996, o País foi abalado pelo ciclone tropical Bonita, antes da ocorrência, em 1997, do ciclone Josie e da tempestade tropical Lisette.

Fazem ainda parte das tristes recordações causadas por intempéries, já depois das cheias do ano 2000, o ciclone tropical Dera, ao qual se seguiu o ciclone tropical Gafilo, em 2004. Este ciclone – Gafilo – carimbava a “triste dança” das intempéries no ciclo de Joaquim Chissano como PR.

Guebuza não teve sorte diferente

Durante o consulado de Armando Guebuza, que foi Presidente da República de 2005 a 2014, o ciclo de destruição e luto causados por intempéries repetiuse. O levantamento do Dossiers & Factos mostra que, em 2006, ocorreram chuvas intensas nas regiões Norte e Centro, que afectaram as bacias dos rios Chire e Lugenda, causando cheias que não deixaram de matar e destruir.

No ano seguinte, 2007, houve registo de cheias graves no Vale do Zambeze, provocadas por chuvas torrenciais a montante e pela passagem do ciclone Favio, que afectou cerca de 500 000 pessoas. A catástrofe seguinte chegaria em 2012, associada ao ciclone Jokwe, que arrasou a província de Nampula.

Até ao fim do ciclo de governação de Guebuza, ocorreram ainda três episódios de cheias, nomeadamente em 2012 (inundações significativas causadas pela tempestade tropical Funso, que afectou principalmente as províncias da Zambézia e Inhambane) e em 2013 (transbordo catastrófico do rio Limpopo, inundando a cidade de Chókwè e afectando centenas de milhares de pessoas).

Para fechar, como os seus antecessores, Guebuza assistiu ainda à ocorrência, em 2014, de cheias no Centro e Norte, concretamente nas províncias da Zambézia, Nampula e Cabo Delgado, seguidas do ciclone Hellen, um dos mais intensos registados no Canal de Moçambique.

2015-2024: a década da catástrofe permanente e do “campeão dos desastres”

O período de governação de Filipe Nyusi, entre 2015 e 2024, ficará inscrito na história de Moçambique como a década em que os choques climáticos deixaram de ser episódios esporádicos, passando a atingir o País de forma sucessiva e cada vez mais agressiva.

 O ciclo iniciou-se com o ciclone Dineo, em Fevereiro de 2017, que atingiu a província de Inhambane, provocando mortes, destruição de habitações, perdas agrícolas e danos em infra-estruturas básicas. Dois anos depois, em 2019, Moçambique enfrentaria a pior sucessão de choques climáticos da sua história moderna. Em Janeiro, a tempestade tropical Desmond provocou cheias severas na cidade da Beira e em Chinde, na Zambézia. Em Março do mesmo ano, o ciclone Idai devastou, sem piedade, as quatro províncias da região Centro – Sofala, Manica, Zambézia e Tete – destruindo a cidade da Beira, causando mais de 600 mortos no País e afectando cerca de 1,8 milhão de pessoas.

No mês seguinte, o ciclone Kenneth, de categoria 4, atingiu a província de Cabo Delgado, tornando-se o ciclone mais forte alguma vez registado no Norte de Moçambique, com destruição maciça em distritos costeiros.

Longe de representar um pico isolado, 2019 inaugurou uma sequência quase ininterrupta de calamidades. Em Dezembro de 2020, a tempestade tropical Chalane voltou a atingir Sofala, sobretudo o distrito de Muanza. Em 2021, o ciclone Eloise, de categoria 2, abateu-se sobre a mesma província, com epicentro na Beira, afectando mais de 250 mil pessoas, seguido pela tempestade Guambe, que castigou o Sul do País.

O ano de 2022 aprofundou o padrão de instabilidade. A tempestade tropical Ana provocou cheias e destruição em Nampula, Zambézia e Tete. Poucas semanas depois, a tempestade Dumako voltou a trazer chuvas intensas ao Norte do País. Já em Março, o ciclone Gombe atingiu a província de Nampula com grande violência, causando 63 mortes e danos generalizados em habitações, escolas, hospitais e estradas.

Em 2023, Moçambique enfrentou um fenómeno sem precedentes globais: o ciclone Freddy, tido como o mais duradouro alguma vez registado à escala mundial. Freddy atingiu o País duas vezes, devastando a Zambézia, sobretudo Quelimane, e Inhambane, provocando centenas de mortes, destruição de bairros inteiros, colapso de infra-estruturas e perdas agrícolas massivas. No mesmo ano, o Sul do País voltou a registar cheias graves, sobretudo nas bacias do Limpopo e do Incomáti.

 O fim do consulado de Nyusi foi marcado por novos choques extremos. Em Março de 2024, a tempestade tropical severa Filipo atingiu a província de Inhambane, voltando a destruir habitações, estradas e campos agrícolas. Em Dezembro de 2024, o ciclone Chido, de categoria 4, devastou Cabo Delgado, causando 120 mortos e afectando quase 700 mil pessoas, numa região já fragilizada pelo conflito armado e pela pobreza extrema.

Chapo tem o desafio de fazer o que os outros não fizeram

Num País situado na rota dos ciclones do Índico, receptor das águas de nove grandes bacias hidrográficas da África Austral e com mais de 2 500 quilómetros de costa vulnerável, a adaptação climática é apontada por ambientalistas como obrigatória. Isso implica redes de estradas elevadas, pontes dimensionadas para cheias extremas, corredores de evacuação, zonas de expansão natural dos rios e um Estado capaz de planear para décadas, não apenas para ciclos curtos.

É neste contexto que Daniel Chapo, no seu segundo ano de governação, enfrenta o teste que os seus antecessores nunca conseguiram vencer: romper com a lógica da reconstrução cíclica da vulnerabilidade. O novo timoneiro da Nação é desafiado a pôr em prática um dos seus lemas – fazer diferente para obter resultados diferentes – para travar o ciclo vicioso de desgraças.

Resta saber se, a despeito dos desafios financeiros e económicos que esta catástrofe impõe, nomeadamente com a assistência às vítimas (há um défice de 6,6 mil milhões de meticais) e a reconstrução (ainda não se tem a noção exacta da extensão dos danos), Chapo será capaz de ser um divisor de águas no que à questão da adaptação climática diz respeito.

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