– Enoque Massingue faz diagnóstico do País e aponta possíveis soluções
Moçambique entra em 2026 colocado diante de uma verdadeira encruzilhada económica. Por um lado, surgem sinais de esperança com a retoma de grandes projectos estratégicos, como a TotalEnergies, e com o avanço do Coral Norte. Por outro, persistem fragilidades estruturais, elevada dependência externa, vulnerabilidade cambial e recorrentes choques climáticos, que expõem o País a riscos permanentes de instabilidade. Para analisar este contexto e projectar cenários para o ano em curso, Dossier Económico ouviu o economista Enoque Massingue, que avaliou o primeiro ano de governação do Presidente Daniel Chapo e identificou os principais factores que moldam o desempenho macroeconómico nacional. “O País não está a acelerar o crescimento de forma robusta e inclusiva. O crescimento, quando ocorre, é concentrado e extremamente vulnerável a choques internos e externos, seja pela saída de grandes projectos, pelas cheias ou pela escassez de divisas”, afirma.
Texto: Milton Zunguze
Ao analisar o desempenho económico do último ano, Massingue sublinha que é impossível dissociar política e economia. Segundo explica, o primeiro ano do Presidente Daniel Chapo revela desafios tributário estruturais significativos, tanto no campo político como no económico.
No plano político, os primeiros 12 meses do Chefe do Estado ficaram marcados por uma forte aposta na diplomacia internacional. De acordo com Massingue, Daniel Chapo realizou cerca de 30 viagens ao exterior, procurando projectar uma imagem de estabilidade e credibilidade do País, num contexto interno ainda marcado por manifestações violentas e contestação dos resultados eleitorais por parte do líder da oposição, Venâncio Mondlane.
Na avaliação do economista, a estratégia de priorizar a diplomacia internacional sobre a consolidação política interna teve ganhos externos, como a retirada de Moçambique da lista cinzenta, mas também expôs a economia a choques exógenos e comprometeu a capacidade do Estado de conduzir políticas de desenvolvimento soberanas.
Dependência externa e fragilidade fiscal
No domínio económico, a situação é classificada como preocupante. Mais de 75% do investimento público previsto depende de financiamento externo, o que torna o País altamente vulnerável à suspensão de apoios estratégicos. Para Massingue, os recentes constrangimentos em programas como os da USAID e da Millennium Challenge Corporation (MCC) evidenciaram os riscos desta dependência.
O economista sublinha ainda que não foram implementadas reformas fiscais estruturais, mantendo-se um sistema tributário estreito e uma integração mínima do sector informal, que emprega cerca de 80% da população activa e representa aproximadamente 40% do Produto Interno Bruto.
As finanças públicas permanecem frágeis. Cerca de 68,5% do Orçamento do Estado é consumido com salários, manutenção e serviços correntes, enquanto 6,84% do financiamento interno provém de empréstimos domésticos, pressionando o crédito disponível para empresas e micro, pequenas e médias empresas.
Perspectivas de crescimento económico para 2026
Olhando para 2026, Massingue descreve um cenário moderado, mas fortemente condicionado por riscos internos e externos. O País inicia o ano afectado por cheias recentes, que comprometeram a produção agrícola, as infra-estruturas e o acesso a serviços básicos, reduzindo a oferta de bens e pressionando os custos.
Para além das cheias, a instabilidade em Cabo Delgado e a anunciada saída da Mozal representam ameaças directas ao investimento privado, ao emprego e à arrecadação fiscal. A economia, segundo o economista, permanece vulnerável devido à elevada proporção do orçamento consumida pelo funcionamento do Estado e à dependência de recursos externos.
Quanto à inflação, Massingue destaca projecções da Oxford Economics, que apontam para 4,8% em 2026, acelerando para 8,4% em 2027. Entre os factores de pressão estão o reinício dos projectos de Gás Natural Liquefeito, que eleva a procura por mão-de-obra, serviços e materiais, bem como a sobrevalorização do metical e as reservas cambiais limitadas, factores que dificultam a estabilidade de preços.
Financiamentos estratégicos e grandes projectos
Um dos factores críticos para o desempenho económico continua a ser o financiamento de 500 milhões de dólares do Compacto II da Millennium Challenge Corporation. A manutenção destes fundos, alerta Massingue, depende do cumprimento de metas de governação, transparência fiscal e execução eficiente de projectos.
O economista avalia também a retoma das actividades da TotalEnergies e o avanço do projecto Coral Norte como sinais positivos para a economia, embora reconheça que o impacto directo nas receitas do Estado é ainda limitado. Segundo o Plano Económico e Social 2026, a contribuição directa do sector de petróleo e gás para o orçamento é inferior a um metical por cada 100 do total previsto.
Apesar disso, existem efeitos indirectos relevantes, como a geração de empregos especializados, a dinamização da cadeia de fornecimento e o aumento da confiança dos investidores estrangeiros, com potencial para reforçar gradualmente as receitas futuras.
Riscos estruturais e climáticos
A anunciada saída da Mozal, que representa cerca de 3% do Produto Interno Bruto e sustenta milhares de empregos directos e indirectos, constitui um risco significativo. A sua paralisação teria impactos imediatos sobre a produção, as exportações, o emprego e o consumo interno, agravando a pressão sobre as finanças públicas.
Paralelamente, as cheias e os ciclones continuam a provocar destruição de infraestruturas, redução da produção agrícola e aumento das despesas emergenciais, desviando recursos de investimentos estratégicos. Para Massingue, o efeito combinado destes choques cria um cenário perigoso de menor produção, menos emprego e maior pressão fiscal.
Uma encruzilhada decisiva
Face a este conjunto de factores, o economista conclui que Moçambique se encontra numa verdadeira encruzilhada económica. Existe potencial de crescimento, mas ele permanece frágil, concentrado em grandes projectos e vulnerável a choques internos e externos. A escassez de divisas e a volatilidade cambial continuam a restringir o crédito e a penalizar a economia real.
Para inverter este quadro, Massingue defende a necessidade de reformas estruturais profundas, maior diversificação da base produtiva, combate efectivo à corrupção, fortalecimento institucional e uma estratégia séria de resiliência climática, aliada à aposta na ciência e na inovação.
“Sem estas reformas, os choques continuarão a perpetuar o ciclo de vulnerabilidade económica que o País procura superar.”




