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MACAMO CRITICA LIVRO DO PR: “Quem procura pensamento político fica frustrado”

O sociólogo e professor universitário Elísio Macamo fez uma análise crítica ao recémlançado livro autobiográfico do Presidente da República, Daniel Chapo, intitulado Do Cativeiro à Presidência da República, considerando que a obra frustra quem nela procura uma visão política, uma ética de governação ou uma reflexão sobre o poder.

Texto: Dossiers & Factos

Numa publicação divulgada na sua página do Facebook, Macamo afirma que o livro é “desconcertante”, não por ser mal escrito, mas porque responde a uma pergunta diferente daquela que o leitor formula. “O leitor pergunta como alguém se torna presidente. O livro responde por que razão alguém merece sê-lo”, observa, sublinhando que a obra constrói uma narrativa de legitimidade moral, mas evita sistematicamente o pensamento político.

Segundo o académico, o episódio do cativeiro vivido por Daniel Chapo na infância ocupa um lugar simbólico central na obra, funcionando como momento fundador. Contudo, esse sofrimento, em vez de gerar uma reflexão sobre o Estado, a autoridade ou a violência, surge apenas como prova moral, que consagra o protagonista sem o comprometer com uma leitura crítica do poder.

Para Macamo, a forma como o autor se refere aos seus captores como “bandidos armados” – referência aos guerrilheiros da Renamo na guerra civil -, sem qualquer distanciamento histórico, revela a permanência da gramática moral da guerra, em contradição com o discurso nacional de reconciliação. “A linguagem não é neutra. Ela fixa o passado, congela os papéis e impede a tradução simbólica que a paz exige”, escreve.

O sociólogo aponta ainda uma contradição entre essa linguagem e a forte presença da fé cristã no livro. A religião surge como consolo pessoal, mas nunca como ética pública. “O sofrimento não se converte em ponte moral. Permanece como capital simbólico individual. A reconciliação, enquanto problema político e ético, simplesmente não entra no texto”, sustenta.

Sucesso sem contexto

Ao abordar a trajectória de Daniel Chapo como dirigente local e provincial, Macamo considera que o livro sugere êxito e resultados, mas sem qualquer contextualização institucional ou política. “Em Moçambique, a fragilidade do nível local não é uma falha de vontade, mas o efeito directo de uma arquitectura administrativa e política que bloqueia a iniciativa”, lembra, questionando como foi possível alcançar os sucessos descritos.

Para o académico, a ausência de explicação transforma o êxito numa virtude pessoal, não numa lição institucional transferível para a Presidência da República. “O sucesso aparece como excepção, e a excepção é apresentada como prova de mérito individual. É um êxito que não ensina”, escreve.

Ausência de referências e silêncio partidário

Outro aspecto que Macamo considera intrigante é a quase total ausência de referências intelectuais, políticas ou ideológicas. Apesar de o autor afirmar gostar de ler e ter sido docente de Direito Constitucional e Ciência Política, não menciona autores, debates ou tradições de pensamento. “A política é transformada numa prática moral. Pensar não é mostrado como condição de governar. Governar é mostrado como extensão do carácter”, critica.

O silêncio estende-se também ao partido. Nomes como Mondlane, Samora, Chissano, Guebuza e Nyusi não são mencionados, e a Frelimo surge completamente ausente da narrativa. Para Macamo, este apagamento cumpre a função de despolitizar a chegada ao poder, apresentando-a como um desfecho natural de uma trajectória moral.

Sem teoria do poder

Na leitura do sociólogo, a consequência mais profunda do livro é a ausência de uma teoria do poder. A governação surge como auscultação, proximidade e boa intenção, mas raramente como decisão trágica, isto é, como escolha entre alternativas imperfeitas sob escassez e conflito.

“Sem uma teoria do poder, não há projecto político, há apenas gestão do presente”, escreve, alertando que, nessas condições, a Presidência corre o risco de se tornar reactiva e dependente das circunstâncias.

Macamo considera, por isso, que a obra não é um livro sobre a presidência, mas sobre a legitimidade pessoal para a presidência. “Não explica o poder. Suspende a pergunta sobre o poder. Não oferece uma visão, oferece uma garantia moral”, conclui.

Segundo o académico, quem procura pensamento político fica frustrado, mas quem procura uma figura confiável encontra o que precisa. “No lugar da política, temos o carácter. No lugar da responsabilidade, a dignidade. No lugar do pensamento, a fé”, escreve, sublinhando que se trata de uma autobiografia que “não forma cidadãos, mas tranquiliza consciências”.

No final da sua publicação, Elísio Macamo afirma que, apesar de tudo, ficou a conhecer melhor o Presidente da República e recorda que adquiriu o livro por 2.000 meticais, valor que reverteu para o apoio às vítimas das cheias.

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