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O calvário dos acompanhantes no Hospital Rural de Chicuque

Ser acompanhante de um doente internado no Hospital Rural de Chicuque (HRC), na cidade da Maxixe, província de Inhambane, é, para além do desespero de não saber se o familiar vai sair com vida, um exercício diário de paciência para suportar a falta de respeito, a humilhação, os insultos e a arrogância protagonizados por certos profissionais que um dia juraram salvar vidas humanas. Mesmo com a direcção do hospital consciente das dificuldades da unidade, especialmente na acomodação dos acompanhantes, estes são tratados de forma desumana, obrigados a passar noites inteiras sentados ao relento. Há quem seja visto a dormir sobre bancos de cimento e quem, por atrasar um minuto na entrega da comida, seja imediatamente expulso do local, acompanhado de palavrões e ameaças.

Texto: Anastácio Chirrute, em Inhambane

Trata-se de uma situação já denunciada pela nossa equipa de reportagem, mas que continua longe de chegar ao fim. O cenário repete-se sob o olhar aparentemente indiferente das autoridades governamentais, que pouco ou nada fazem para ultrapassar este velho problema. Pessoas de quase todas as idades – crianças, jovens e adultos – não escapam aos gritos, insultos e humilhações protagonizados por aqueles que juraram dar valor à vida humana.

Um hospital transformado em inferno

O Hospital Rural de Chicuque transformou-se, nos últimos dias, num verdadeiro local de terror. Internar um familiar sem pelo menos um conhecido dentro da unidade é, para muitos, o mesmo que assinar uma certidão de morte. Seja na maternidade, no bloco operatório ou noutros sectores, o atendimento parece seguir a mesma lógica: é preciso ter contactos; caso contrário, só um milagre de Deus pode salvar a vida do pobre doente.

A unidade sanitária, que no passado recente foi reconhecida como de referência ao nível da província de Inhambane, tornou-se quase “propriedade privada” de certos profissionais, que fazem e desfazem a seu belo prazer, agindo como se ninguém os pudesse tocar ou substituir.

Não obstante a falta de medicamentos, os acompanhantes são tratados como animais selvagens. Muitos enfermeiros chegam ao trabalho mal-humorados e descarregam os seus problemas sobre qualquer um que ouse cruzar o seu caminho, sobretudo no período nocturno. A vontade de os enfrentar existe, mas o medo de represálias é maior, agravando ainda mais o estado de saúde dos pacientes, que, deitados nas camas, escutam os seus familiares a serem insultados.

A nossa equipa de reportagem presenciou, por várias vezes, situações em que enfermeiros, trajados de bata branca, abandonaram pacientes em estado grave para discutir com acompanhantes, alegadamente porque estes haviam estendido os seus pertences nos bancos do lado de fora para poderem dormir enquanto aguardavam notícias dos seus familiares. As vítimas são, na sua maioria, mulheres de idade avançada.

“O enfermeiro expulsou-nos de onde tínhamos estendido para dormir. Disse que ninguém podia ficar ali e que quem quisesse dormir fosse para debaixo de uma árvore. Com esta chuva, como é possível? Será que esses enfermeiros sabem que também somos pessoas? Não estamos aqui por vontade própria, estamos aqui por causa da doença dos nossos familiares”, desabafou uma acompanhante, sob anonimato.

Entre o medo, a negligência e a morte

Ricardo Nhassavel, de 50 anos, quase vive há três dias no HRC, não por vontade própria, mas porque a esposa foi diagnosticada com uma doença grave e ficou internada. Conta que vive um drama diário, mas nada pode fazer por temer pela vida da companheira.

“Este hospital já não é o mesmo. Sou berrado por jovens com idade para serem meus filhos, só porque demorei a sair da sala da minha esposa. Quando tentamos sentar nos bancos para dormir, insultam-nos e mandam-nos para debaixo das árvores. Com esta chuva? Nós não pedimos quarto, só um canto para descansar”, lamenta.

O drama cresce a cada anoitecer, mas muitos encontram forças nas orações. Nem sempre, porém, a sorte é a mesma para todos. Há quem regresse a casa com o rosto carregado de tristeza e lágrimas por ter perdido o seu familiar, muitas vezes por negligência dos próprios enfermeiros, que deixam os doentes nas mãos de estagiários recém-formados.

Marta Samuel (nome fictício) acompanhava a mãe, que padecia de complicações respiratórias. A idosa ficou internada apenas um dia e meio e, na madrugada seguinte, foi informada de que não resistiu.

“O que mais dói é chegar aqui, ser insultada e, no fim, ouvir que o seu familiar morreu. Este hospital está a ser assaltado por funcionários sem escrúpulos”, lamenta.

Outra mãe acrescenta:“Se não me tivessem impedido de entrar para ver o meu filho, talvez ele não tivesse morrido. Aqui basta atrasar um minuto para nos fecharem a porta. Ninguém nos ouve.”

Para agravar o cenário, o Centro de Saúde da cidade da Maxixe enfrenta falta de credelec e combustível para o gerador. À noite, a unidade funciona às escuras, obrigando os pacientes a levarem lanternas ou velas para poderem ser atendidos.

Trata-se de um problema antigo e do conhecimento das autoridades governamentais a vários níveis, que pouco ou nada fazem para o reverter. Ir a esta unidade sanitária durante a noite exige coragem. À entrada, parece um local abandonado; por dentro, há doentes a lutar pela vida

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