– Viaturas “desaparecem”, equipamentos são saqueados e esquemas internos prosperam na impunidade
Se na primeira parte desta investigação o Dossiers & Factos expôs os esquemas de compras fictícias e o desvio sistemático de receitas através do Laboratório de Solos, Plantas e Águas, a continuação revela um quadro ainda mais perturbador: o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) transformou-se, ao longo dos últimos anos, num verdadeiro campo de pilhagem interna, onde viaturas, equipamentos e até combustíveis “evaporam”, sem que haja responsabilização efectiva.
Texto: Amad Canda
A lista de ocorrências é extensa, recorrente e atravessa mandatos directivos (os factos aqui narrados ocorreram pelo menos desde 2019, quando a instituição era dirigida por Olga Fafetine), confirmando que não se trata de episódios isolados, mas de um padrão cíclico de delapidação do património público, num ambiente onde a responsabilização configura sempre uma excepção.
Ainda na semana passada, Dossiers & Factos apurou o roubo de dois aparelhos de ar-condicionado no próprio Laboratório de Solos, o mesmo que tem sido apontado como epicentro das práticas ilícitas. O furto ocorreu sem sinais de arrombamento, reforçando a convicção de que se tratou de uma operação interna, facilitada por quem conhece a rotina da instituição. A esta altura, no IIAM, já não se pergunta como as coisas desaparecem, apenas qual será a próxima.
Viaturas fantasmas: somem, reaparecem e… somem de novo
Entre os casos mais graves registados está o roubo de uma viatura Nissan Hardbody branca, pertencente ao projecto CTIA, que acabou por ser localizada na província de Inhambane. O esquema terá envolvido um funcionário cuja identidade não foi possível apurar. Sabe-se, no entanto, que apesar da gravidade do acto, nada lhe aconteceu.
Outro episódio envolve uma Land Cruiser outrora usada por um antigo director provincial do IIAM em Manica, entretanto já falecido. A viatura foi dada como desaparecida, mais tarde recuperada, mas, como se tivesse vida própria, voltou a “sumir”, sem que se saiba, até hoje, onde se encontra.
Há ainda o caso de uma Land Cruiser sob responsabilidade de um funcionário identificado como PM, que, embora oficialmente desaparecida, tem sido vista a circular na Zona Verde e no bairro T3, no município da Matola. É uma espécie de “fantasma com matrícula”.
A engrossar a lista está uma outra viatura pertencente a um projecto sedeado no IIAM-Nampula, que foi igualmente dada como desaparecida, mas, segundo testemunhos, circula regularmente em Gurué, na província da Zambézia. Afinal, no IIAM, perder um carro não significa exactamente deixá-lo de ver.
Motobombas, peças e viaturas reduzidas a carcaças
No IIAM, o apetite pelo roubo não conhece fronteiras nem sectores. Em 2022, sete motobombas foram subtraídas, uma a uma, por um indivíduo estranho à instituição, mas em conluio com funcionários que operavam as máquinas. Curiosamente – ou talvez não -, logo após a transferência desses funcionários, os roubos cessaram. O mistério resolveu-se sozinho.
No parque automóvel, o cenário é ainda mais desolador. Dezenas de viaturas foram transformadas em verdadeiras carcaças, após o roubo sistemático de peças para revenda no mercado negro, mormente o famigerado Estrela Vermelha. O local, ironicamente, é conhecido como “abrigo” dos carros da “família da agricultura”, mas mais se assemelha a um cemitério de ferro.
Num dos episódios mais simbólicos, um motorista identificado como MU levou uma viatura institucional atribuída a uma directora e trocou os quatro pneus novos por usados, vendendo os originais. Confrontado, confessou. Acabou expulso (coisa rara), mas só depois de sofrer descontos salariais até pagar os pneus.
Outro motorista, identificado como PC, foi igualmente expulso após ser encontrado, na sua residência, um motor roubado do parque automóvel da instituição.
Combustível e viagens fantasma
O combustível também segue a rota do desaparecimento. Funcionários recorrem a “parcerias” com trabalhadores de postos de abastecimento, trocando combustível por dinheiro vivo. Segundo apuramos, entre os implicados neste esquema fraudulento estão os funcionários VC e JM.
Em paralelo, proliferam as chamadas “viagens fantasmas”: deslocações oficialmente autorizadas e carimbadas, mas que nunca acontecem. Ainda assim, as ajudas de custo são recebidas, como se a imaginação tivesse passado a contar como deslocação.
Funcionários pagos sem trabalhar
Se há histórias que resumem o grau de desorganização – ou conivência – que reina no IIAM, o caso de AS é uma das mais reveladoras. Colocado no Laboratório de Biotecnologia, AS exerceu funções por apenas cerca de seis meses, mas continuou, como se nada tivesse acontecido, a constar da folha salarial por mais de dois anos, já depois de ter abandonado definitivamente o posto.
Mais grave ainda: durante todo esse período, alguém assinava por ele no livro de presenças, mantendo a ilusão administrativa de que estava em serviço. Segundo várias fontes, o ordenado que recebia era depois repartido com um funcionário identificado como PM.
Silenciar quem não compactua
No IIAM, os funcionários que se assenhoraram da instituição são alérgicos à honestidade. Por isso, quem se recusa a participar em esquemas passa a ser tratado como “leproso”. Estes funcionários são afastados de tarefas, excluídos de viagens e deixados na ociosidade forçada, numa estratégia clara de isolamento.
No Laboratório de Solos, a situação atingiu o extremo: as chaves passaram a ser escondidas. Durante décadas, ficaram num local acessível a todos; hoje, apenas um grupo restrito – entre eles CL, SM e ID – tem acesso, por integrar a rede das análises clandestinas.
Há ainda quem faça análises ilegais fora do horário normal, registando-as como horas-extra, pagas no fim do mês. Num só gesto, roubam duas vezes. Génios!
Estagiários extorquidos e coagidos
As práticas ilícitas atingem também os mais vulneráveis. Estagiários são coagidos a pagar valores ilegais para verem as suas amostras analisadas. Quem se recusa corre o risco de ver o estágio cancelado.
Foi o caso de Atália, estudante da Universidade Eduardo Mondlane, cujo curso quase foi comprometido por não ter cedido aos apetites vorazes dos funcionários corruptos. Com o estágio interrompido de forma abrupta, Atália só conseguiu concluir o curso graças à intervenção de um profissional de boa-fé, que a encaminhou para o laboratório da própria universidade.
A sucessão de episódios – muitos deles recorrentes ao longo de vários anos – revela que o IIAM se encontra capturado por redes internas que operam à margem da lei, protegidas por um sistema de impunidade institucionalizada. Tal como referimos na primeira parte, a directora-geral do IIAM, Zélia Menete, ignorou o nosso pedido de entrevista para o esclarecimento destes factos.




