O número de assaltos e roubos contra mototaxistas na província de Maputo está a aumentar de forma preocupante, marcado por episódios de violência extrema que colocam em risco a vida dos operadores e comprometem o seu único meio de sustento. Em localidades como Bobole, no distrito de Marracuene, Matola Rio e vila municipal de Boane, os profissionais afirmam viver sob medo constante, sobretudo no período nocturno, quando os ataques se tornam mais frequentes.
Texto: Clara Mulima
Em Bobole, vários mototaxistas relataram à equipa do Dossier & Factos que os crimes se tornaram recorrentes e, em alguns casos, resultaram em agressões graves e até mortes. Um dos operadores contou que muitos colegas já foram vítimas de assaltos, alguns brutalmente espancados, sendo que a recuperação das motorizadas raramente acontece.
Perante a escalada da violência, os mototaxistas passaram a adoptar medidas próprias de protecção. Durante a noite, optam por transportar apenas clientes conhecidos e evitam levar desconhecidos. A associação local estabeleceu um limite de circulação até às 19 horas, mas nem todos cumprem a orientação, sobretudo por necessidade financeira.
Armando, jovem mototaxista que foi vítima de assalto, descreveu como tudo aconteceu. Foi solicitado por um casal para uma corrida até à zona da fábrica da Heineken. Ao chegar ao destino, foi convencido a entrar numa área mais isolada. Nesse momento, foi puxado da mota e caiu no chão. O assaltante exibiu uma faca, mas Armando conseguiu fugir e esconderse. No dia seguinte, com a ajuda de colegas, localizou a motorizada escondida numa machamba.
Segundo o próprio, a Polícia pouco tem contribuído para a recuperação dos bens roubados. “Somos nós que organizamos buscas e, muitas vezes, conseguimos encontrar as motorizadas sem apoio policial”, afirmou.
Outro operador, que preferiu não se identificar, relatou que um colega foi esfaqueado em Dezembro de 2025 durante um assalto. Apesar de ter sobrevivido, não conseguiu recuperar a motorizada. Ainda assim, muitos continuam a realizar corridas nocturnas por necessidade, mesmo conscientes dos riscos.
O responsável da Associação dos Mototaxistas (Assotrapo) em Bobole, Samito Muadula, reconhece a gravidade do problema, mas admite que parte dos casos ocorre porque alguns operadores desobedecem ao horário estabelecido pela organização, que autoriza a circulação entre as 4h e as 22h. Segundo ele, o último caso registado ocorreu no início de Janeiro, quando dois suspeitos foram capturados pela população, espancados e amarrados durante a noite.
No mesmo mês, um grupo de jovens que teria assaltado uma residência na zona foi igualmente capturado por populares e acabou linchado. A Polícia foi chamada apenas para recolher a motorizada roubada, evidenciando um cenário de justiça pelas próprias mãos.
Situação semelhante vive-se na Matola Rio, onde, só esta semana, um mototaxista foi assaltado e ficou sem a sua motorizada, elevando para cinco o número de casos recentes. Há ainda registo de dois colegas encontrados mortos nas matas, em circunstâncias associadas a assaltos.
Na vila municipal de Boane, os operadores descrevem um quadro igualmente alarmante. Mbambaza, mototaxista há oito meses, contou que um colega foi assaltado por quatro homens armados com catanas quando transportava um cliente para a zona do cemitério, por volta do meio-dia. Há suspeitas, segundo os operadores, da existência de informantes locais que facilitam as emboscadas.
Zito Mugabe relatou que, em alguns casos, os assaltantes seguem os mototaxistas e, ao perceberem que a mota é antiga, limitam-se a agredir o operador para lhe retirar dinheiro. Quando não encontram valores, recorrem à tortura e, por vezes, ao homicídio.
O representante dos mototaxistas em Boane, Benito Estevão Chiziane, apontou a falta de organização da classe como um dos factores que agravam a situação. Segundo ele, não existe uma associação formal que represente os operadores junto das autoridades municipais, o que dificulta a articulação de medidas preventivas.
Os mototaxistas apelam às autoridades municipais e à Polícia da República de Moçambique para o reforço da segurança nas zonas consideradas críticas e a criação urgente de mecanismos de protecção à classe. Para além de garantir o sustento de centenas de famílias, o serviço de mototáxi constitui um meio de transporte rápido e acessível para muitos habitantes. Enquanto não surgem soluções estruturadas, os operadores continuam a trabalhar movidos pela necessidade de assegurar o rendimento diário, mas com o receio constante de que cada corrida possa transformar-se num risco de vida.




