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EM MAPUTO: Das águas das cheias nascem machambas de sobrevivência

Nas zonas onde a água costuma significar medo, destruição e perdas, alguns moradores da periferia da capital moçambicana descobriram uma inesperada fonte de sobrevivência. Com enxadas nas mãos e aproveitando as águas estagnadas deixadas pelas chuvas, transformam terrenos alagados em pequenas machambas urbanas onde cultivam arroz, batata-doce e, em alguns casos, amendoim.

Texto: Milton Zunguze

Em vários bairros vulneráveis a inundações na área metropolitana de Maputo e da vizinha Matola, pequenos campos agrícolas surgem entre muros, valas de drenagem e terrenos baixos que permanecem encharcados durante semanas após as chuvas.

Segundo apurou o Dossiers & Factos, o fenómeno tornou-se cada vez mais visível em bairros como Matola Gare, Matlemele, Nkobe e Machava. Nestes locais, áreas anteriormente vistas apenas como zonas de risco passaram a funcionar como pequenas machambas improvisadas, onde moradores cultivam sobretudo arroz e batata-doce.

Uma prática trazida por migrantes

De acordo com relatos recolhidos no terreno, a prática começou, em grande medida, com migrantes provenientes das províncias do centro e norte do país, regiões onde o cultivo do arroz faz parte da tradição agrícola.

Com o tempo, a actividade acabou por atrair também moradores locais, que viram nas águas estagnadas uma oportunidade para complementar a alimentação das suas famílias.

Em muitos destes campos improvisados, convivem agricultores vindos de várias partes do país, partilhando técnicas e dividindo pequenos espaços de terra.

Arroz entre muros e valas

Numa das visitas realizadas pelo Dossiers & Factos, no bairro municipal da Matola Gare, pequenas parcelas de arroz verde contrastam com zonas secas entre muros e terrenos baldios. É ali que trabalha Esmeralda, moradora do bairro há 24 anos e natural de Jangamo, na província de Inhambane. Esmeralda começou a plantar arroz apenas noano passado, depois de observar outros agricultores improvisados a trabalhar nos terrenos inundáveis.

“Sim, é arroz”, responde enquanto segura um tufo de capim, numa altura em que decorre a sacha. Responsável por sustentar sete pessoas em casa, admite que a colheita deste ano pode não ser boa.

“Este ano não teremos uma boa colheita porque a chuva não caiu muito”, diz, olhando para as plantas ainda baixas. “Choveu naquela última vez das inundações, mas foi antes de semear. Depois disso não voltou”.

Para ela, o problema não é apenas a escassez de chuva, mas também o calor intenso, que evapora rapidamente a pouca água que resta nos campos.

“Assim que vê o arroz já quer água. Isto devia ficar sempre na água, mas com este calor não esperamos muita coisa”, lamenta.

Pequenos campos, grande importância

O espaço onde Esmeralda trabalha não ultrapassa cerca de 20 metros quadrados e é partilhado com outros seis agricultores improvisados. “É muito difícil plantar aqui, custa semear”, conta. Apesar das dificuldades, não pensa em desistir. O arroz que colhe raramente vai para o mercado, destinando-se quase exclusivamente ao consumo da família.

“Tenho sete pessoas que dependem de mim, muitas crianças”, explica. “Quando tudo corre bem, neste espacinho saem dois sacos de arroz descascado, ou três com casca”.

Num contexto em que as despesas domésticas aumentam todos os meses, isso faz uma grande diferença.

“Os dias em que ficamos sem comprar arroz são poucos”, afirma.

Esmeralda acrescenta ainda que o arroz cultivado nestas zonas é, na sua opinião, melhor do que o vendido nas lojas.

“Esse arroz é diferente daquele da loja. Este aqui é bom arroz, dizem até que é arroz perfumado”.

Saberes vindos do Norte e do Centro

Grande parte dos agricultores urbanos nestas zonas tem origem em regiões onde o cultivo do arroz é uma prática tradicional.

“Somos muitos aqui, principalmente os que vêm da região norte”, explica Esmeralda. “Foram eles que começaram com este trabalho e ensinaram-nos”.

Entre os vizinhos de machamba encontram-se pessoas de várias províncias.

“Essa machamba ao meu lado é de um homem da Beira. Aquelas duas donas são de Quelimane, e outros também são família que veio de lá”, conta.

A cidade que obrigou a reinventar a vida

Noutra zona do mesmo bairro encontramos Amina Issufo, natural de Quelimane. Chegou a Maputo há cerca de dois anos em busca de melhores condições de vida, mas acabou por descobrir na agricultura improvisada uma forma de sustento.

“Quando cheguei pensei que ia conseguir outro tipo de trabalho, mas a vida na cidade não é fácil”, relata.

Durante algum tempo passou dias sem ocupação fixa, até reparar que outras mulheres utilizavam as águas acumuladas junto aos muros e valas ao longo da Estrada Circular de Maputo para plantar arroz.

“Vi oportunidade nessas águas que ficam muito tempo nos quintais”, explica.

Pediu às conterrâneas um pequeno espaço e começou a trabalhar. Hoje, a pequena machamba tornou-se essencial para a sobrevivência da família.

“Tenho cinco crianças. Quando conseguimos colher quase quatro sacos de arroz descascado já ajuda bastante, porque ficamos muito tempo sem comprar arroz na loja”.

Entre biscates e agricultura improvisada

Histórias semelhantes repetem-se noutras zonas da periferia da cidade da Matola. Em Matlemele, Armando Paulo trabalha numa pequena parcela de arroz rodeada por terrenos ainda húmidos. Natural da província de Nampula, chegou à capital há nove anos na esperança de encontrar emprego.

“Irmão, todos dizem que aqui em Maputo há trabalho”, recorda. Durante algum tempo viveu de biscates na construção civil, mas os trabalhos eram irregulares.

“Às vezes passava semanas sem trabalho”, conta.

Foi nesse período que começou a frequentar os terrenos inundáveis onde outros agricultores improvisados já plantavam arroz.

“No início vinha só ajudar os outros. Depois também arranjei um pequeno espaço para plantar”.

Hoje divide o tempo entre pequenos trabalhos ocasionais e a machamba.

“Vivo com a minha esposa e três filhos. Quando conseguimos colher dois sacos de arroz já é uma grande ajuda”.

Um ciclo agrícola adaptado às cheias

O cultivo nestas zonas segue um ciclo improvisado, adaptado às condições do terreno e ao comportamento das chuvas.

Depois das primeiras chuvas fortes, muitos agricultores lançam sementes de arroz nas áreas onde a água permanece acumulada. A colheita, segundo os próprios agricultores, costuma acontecer entre Abril e Maio.

Após a colheita, a terra é deixada a repousar durante algumas semanas antes de receber outras culturas, como amendoim ou batata-doce.

Assim, nos mesmos terrenos onde as cheias costumam causar perdas e destruição, alguns moradores da periferia de Maputo vão encontrando uma forma silenciosa de resistir às dificuldades da vida urbana.

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