– Alerta é da Standard and Research
A intervenção do Estado na estratégia corporativa das empresas públicas pode reduzir o interesse de pequenos investidores em adquirir acções de entidades do sector empresarial do Estado, alerta uma análise da Standard and Research, liderada pelo economista Vasco José.
Texto: Amad Canda
A análise surge num momento em que o Conselho de Ministros aprovou uma medida que obriga empresas públicas e grandes operadores económicos a disponibilizarem entre 5% e 20% do seu capital social ao público, com o objectivo de estimular a participação de investidores privados nacionais nos principais empreendimentos públicos e projectos de grande escala.
Contudo, a análise sustenta que factores estratégicos do Estado moçambicano, aliados a dividendos considerados abaixo das expectativas dos pequenos investidores em anos recentes, podem reduzir parcialmente o impacto desta iniciativa governamental.
De acordo com os dados citados na análise, as acções representam actualmente 11,6% dos instrumentos transaccionados na Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), ocupando a segunda posição entre os títulos mais negociados. A liderança pertence às obrigações do Tesouro, que concentram cerca de 82,1% do total de quatro instrumentos disponíveis no mercado bolsista nacional. As obrigações corporativas e o papel comercial completam a carteira, com 4,3% e 2,0%, respectivamente.
A análise relaciona este peso das obrigações do Tesouro com a estrutura das finanças públicas. Segundo o documento, a despesa de funcionamento representa cerca de 70% da despesa pública total, o que explica a crescente necessidade do Estado recorrer à emissão de dívida pública para financiar investimentos. O relatório recorda ainda que, em 2025, o Governo autorizou a Emose, os CFM e a HCB a adquirirem 91% das acções da LAM, no âmbito do processo de reestruturação da companhia aérea nacional. A operação tinha como objectivo mobilizar cerca de 130 milhões de dólares.
Para os analistas da Standard and Research, decisões desta natureza demonstram que o principal accionista das empresas públicas – o Estado – pode adoptar orientações de natureza económica ou estratégica que nem sempre coincidem com os interesses estritamente financeiros dos pequenos investidores, que não possuem capacidade para influenciar as decisões corporativas.
A consultora sublinha ainda que empresas públicas que actuam em sectores estratégicos, como energia, combustíveis e transportes, podem ser utilizadas como instrumentos de política económica, nomeadamente para estabilizar preços ou expandir a produção nacional em determinados contextos económicos.
A análise refere também que alguns pequenos investidores manifestaram insatisfação com os dividendos pagos pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) em 2024, considerados abaixo do retorno esperado.
No total, a Bolsa de Valores de Moçambique conta com 16 empresas cotadas, mas apenas algumas têm distribuído dividendos de forma consistente. Esta situação, segundo o documento a que temos vindo a fazer referência, limita a capacidade do mercado bolsista de gerar sinais claros sobre a evolução dos retornos.
Além disso, aponta que o mercado secundário de capitais em Moçambique permanece pouco dinâmico, com reduzidas oportunidades para a revenda de acções. Numa lógica de investimento, o retorno esperado de uma acção resulta da soma entre os dividendos distribuídos e os ganhos de capital obtidos através da venda dos títulos no mercado. Na ausência de um mercado secundário activo, os investidores acabam por depender sobretudo das decisões de gestão das empresas relativamente à distribuição de dividendos, o que aumenta a incerteza sobre o desempenho dos investimentos.
A análise conclui que, de forma geral, o investimento no mercado de capitais assenta numa estratégia de gestão de carteira de activos, em que o foco principal recai sobre a rentabilidade global do portefólio e não necessariamente sobre o desempenho isolado de um único título.




