As cheias que ciclicamente afectam Moçambique resultam menos de eventos naturais isolados e mais da forma como o território foi ocupado, organizado e utilizado ao longo das últimas décadas. A conclusão consta de uma análise de Yasser Arafat Dadá, investigador do Observatório do Meio Rural (OMR), que defende que a vulnerabilidade do País às inundações está profundamente ligada a factores estruturais de ordem geográfica, demográfica, económica e institucional.
Texto: Dossiers & Factos
No estudo, o autor argumenta que interpretar as cheias apenas como resultado de chuvas intensas ou ciclones tropicais conduz a diagnósticos incompletos e, consequentemente, a políticas públicas limitadas. Para Dadá, os desastres associados às inundações revelam sobretudo fragilidades históricas na gestão do território, no planeamento urbano e rural e na forma como as actividades económicas se distribuem no espaço.
Geografia coloca Moçambique entre os países mais expostos
Moçambique possui características geográficas que ampliam significativamente a exposição a cheias. Uma grande parte do território situa-se em zonas de baixa altitude, frequentemente abaixo dos 200 metros acima do nível do mar, o que favorece a acumulação e o escoamento lento das águas durante períodos de precipitação intensa.
A situação torna-se ainda mais complexa pelo facto de o País ocupar a parte terminal de várias bacias hidrográficas regionais. Mais da metade das bacias fluviais que atravessam o território nacional têm origem em países situados a montante, como África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Malawi. Isso significa que decisões de gestão de barragens, descargas de água ou precipitações registadas nesses países podem produzir impactos directos no território moçambicano.
Segundo o estudo, esta condição transforma o risco de cheias num fenómeno estrutural e transfronteiriço. Mesmo em situações em que as chuvas dentro do País não são particularmente intensas, o aumento do caudal proveniente de países vizinhos pode provocar transbordos significativos nos principais rios nacionais.
Crescimento populacional aumenta exposição ao risco
Outro factor destacado pelo investigador é a dinâmica demográfica do País. Projecções indicam que Moçambique poderá atingir cerca de 60 milhões de habitantes até 2050, num processo de crescimento populacional acelerado que tende a concentrar-se precisamente nas áreas mais vulneráveis às inundações.
Se é verdade que a proximidade a rios, lagos e zonas costeiras oferece vantagens económicas importantes como solos mais férteis, disponibilidade de água para a agricultura e maior acesso a rotas de transporte e comércio, não é menos factual que estas características tornam as áreas particularmente expostas a fenómenos de cheia.
Como resultado, o aumento da população e da actividade económica em zonas de risco eleva inevitavelmente o potencial de perdas humanas e materiais sempre que ocorrem eventos climáticos extremos. Para Dadá, esta tendência faz com que o impacto das cheias cresça ao longo do tempo, mesmo que a frequência dos fenómenos naturais permaneça relativamente estável.
Urbanização desorganizada piora o cenário
O estudo chama igualmente a atenção para o papel da urbanização na ampliação da vulnerabilidade às inundações. Nos últimos anos, várias cidades moçambicanas registaram um crescimento populacional acelerado, impulsionado pela migração interna e pela procura de oportunidades económicas.
No entanto, esse crescimento urbano tem ocorrido frequentemente sem o desenvolvimento correspondente de infra-estruturas de drenagem, saneamento e ordenamento do território. Em muitas cidades, bairros informais expandem-se sobre áreas naturalmente destinadas ao escoamento das águas pluviais, como zonas húmidas, vales e linhas de drenagem.
Além disso, a expansão urbana implica a impermeabilização progressiva do solo através da construção de estradas, habitações e outras infraestruturas. Essa transformação reduz a capacidade natural de absorção da água da chuva, aumentando o escoamento superficial e agravando o risco de inundações repentinas.
Cidades costeiras, como a Beira, enfrentam riscos adicionais. A baixa altitude, a proximidade do mar e a degradação de ecossistemas naturais de protecção, como mangais e dunas, tornam essas áreas particularmente vulneráveis à combinação de chuvas intensas, marés elevadas e ciclones tropicais.
Agricultura empurra comunidades para zonas vulneráveis
No meio rural, a ocupação de áreas propensas a cheias está frequentemente ligada às necessidades económicas das comunidades. Planícies aluviais (áreas planas de terra situadas ao longo do rio) e margens de rios oferecem solos férteis, boa disponibilidade de água e condições favoráveis para a agricultura, tornando-se locais privilegiados para a produção alimentar.
Assim, muitas famílias optam por viver e cultivar nessas zonas, mesmo estando conscientes do risco de inundações. Para grande parte das comunidades rurais, trata-se menos de uma escolha e mais de uma imposição económica, uma vez que terras situadas em áreas mais elevadas ou seguras podem ser menos produtivas ou mais distantes dos mercados.
De acordo com o pesquisador, esta realidade ajuda a explicar porque, mesmo após episódios graves de cheias, muitas famílias regressam às mesmas áreas. Como salienta Dadá, abandonar esses locais significaria perder acesso a terras agrícolas produtivas, redes sociais e meios de subsistência essenciais.
Cheias perpetuam ciclos de pobreza
A análise destaca ainda que os desastres naturais, incluindo cheias e secas, podem contribuir para a formação de armadilhas espaciais de pobreza. Trata-se de situações em que determinados territórios permanecem pobres porque estão sujeitos a choques climáticos frequentes que impedem a acumulação de riqueza e investimento.
Quando ocorrem cheias, as famílias perdem colheitas, habitações, animais e equipamentos agrícolas. A reconstrução consome recursos escassos e, muitas vezes, leva à contracção de dívidas ou à venda de activos produtivos. Este processo reduz a capacidade de recuperação económica e aumenta a vulnerabilidade a futuros desastres.
Estudos citados pelo investigador indicam que agregados familiares afectados por desastres naturais podem sofrer reduções no consumo entre 11% e 17%, sendo os impactos mais severos nas populações rurais pobres. Além disso, um choque climático significativo pode provocar um aumento de cerca de seis pontos percentuais na taxa de pobreza.
Impacto humano e económico das cheias recentes
Dados citados no estudo indicam que, entre 2025 e 2026, as inundações afectaram mais de 620 mil pessoas, provocando deslocações populacionais, perdas agrícolas e danos em infra-estruturas públicas e privadas.
Mais de 72 mil habitações foram inundadas, enquanto estradas, pontes, escolas e centros de saúde sofreram danos significativos. A destruição ou interrupção destas infra-estruturas tem efeitos prolongados sobre a economia local, dificultando o acesso a mercados, serviços de saúde e educação.
Na província de Gaza, por exemplo, as cheias terão provocado o deslocamento de mais de 300 mil pessoas, com grandes extensões do território submersas durante semanas. Para além do impacto imediato sobre as populações, situações deste tipo exigem mobilização significativa de recursos públicos para assistência humanitária e reconstrução.
Resposta exige integração entre clima e desenvolvimento
Para Dadá, enfrentar o problema das cheias exige uma abordagem mais integrada nas políticas públicas. Em vez de se concentrar exclusivamente na resposta de emergência após os desastres, o país deve incorporar a gestão do risco climático no próprio processo de planeamento do desenvolvimento. Isso implica integrar informação climática e hidrológica no ordenamento do território, reforçar sistemas de alerta precoce e investir em infra-estruturas resilientes, capazes de reduzir a exposição e minimizar os danos associados às inundações. Entre as medidas apontadas pelo investigador estão a construção de sistemas de drenagem adequados, infraestruturas de retenção de água, estradas resistentes a inundações e o reforço da cooperação regional na gestão das bacias hidrográficas partilhadas.
Infra-estruturas resilientes podem gerar ganhos económicos
O estudo sublinha que investimentos em infra-estruturas resilientes devem ser encarados não apenas como custos, mas como activos económicos estratégicos. Estradas bem projectadas, sistemas de drenagem eficientes e estruturas de protecção contra cheias podem reduzir perdas económicas, proteger meios de subsistência e garantir continuidade das actividades produtivas.
Ao reduzir interrupções no transporte, no comércio e nos serviços sociais, estas infra-estruturas contribuem para aumentar a produtividade económica e fortalecer a capacidade de recuperação das comunidades após eventos climáticos extremos.
Cheias como sinal de alerta para o modelo territorial
Na conclusão da análise, Dadá sustenta que as cheias em Moçambique funcionam como um sinal de alerta sobre a necessidade de repensar o modelo de organização territorial do país.
Segundo o investigador, a resiliência climática depende não apenas da capacidade de reagir a desastres, mas sobretudo da forma como se reorganizam as relações entre população, economia e espaço geográfico.
Para o especialista, tratar o território como elemento central das políticas económicas, sociais e ambientais poderá permitir reduzir a exposição ao risco, proteger os meios de subsistência das comunidades e criar bases mais sólidas para um desenvolvimento sustentável e resiliente em Moçambique.




