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POR CONTA DAS CHUVAS: Preços sofrem agravamento nos mercados da capital

Nos últimos tempos, o país tem enfrentado uma crise climática severa, marcada por cheias que devastaram campos agrícolas, danificaram vias de acesso e comprometeram infra-estruturas essenciais para o escoamento de produtos provenientes de outras províncias. Como consequência, o abastecimento regular de bens foi afectado, originando escassez de produtos alimentares e uma subida significativa de preços, sobretudo na província de Maputo. A situação é agravada pelo impacto das mesmas condições climáticas na vizinha África do Sul, particularmente na província de Limpopo, onde as chuvas também destruíram infra-estruturas rodoviárias, dificultando o fluxo de mercadorias para Moçambique.

Texto: Clara Mulima

Este cenário levou ao encerramento temporário de postos fronteiriços estratégicos, como Pafuri e Giriyondo, reduzindo ainda mais a entrada de produtos importados. Com o abastecimento comprometido, mercados como o grossista do Zimpeto e o mercado do Fajardo registam aumentos acentuados de preços.

Refira-se que Pafuri é um posto fronteiriço entre Moçambique e a África do Sul, situado na região norte do Parque Nacional Kruger, enquanto Giriyondo se localiza no distrito de Massingir, na província de Gaza.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que os preços em Moçambique aumentaram 0,68% em Fevereiro, impulsionados pelas cheias, fazendo com que a inflação anual acelerasse para 3,20%.

No mercado grossista do Zimpeto, produtos básicos como batata, cebola, repolho, couve, tomate, pepino e até carvão vegetal registaram aumentos consideráveis. A cebola, por exemplo, passou de 220 meticais para valores entre 340 e 400 meticais, enquanto a batata subiu de 180 para cerca de 230 meticais. Já o tomate varia entre 750 e 1.500 meticais, dependendo dos dias.

Vendedoras ouvidas pelo Dossier Económico descrevem um cenário de incerteza. Isabel Meque, comerciante há mais de cinco anos naquele mercado, afirma que a oscilação de preços não é nova, mas agravou-se desde o início do ano.

“As coisas aqui no mercado não estão boas. Há escassez de produtos e dizem que a Estrada Nacional Número 1 está danificada por causa das chuvas. Como este é o principal mercado, todos compram aqui para revender, então quando o preço sobe aqui, sobe também nos bairros”, explicou.

A comerciante acrescenta que as margens de lucro são cada vez mais reduzidas e que, em muitos casos, os produtos acabam por se deteriorar devido à fraca procura. “O tomate está muito caro e quase não há. O lucro é pouco e ainda temos de tirar o dinheiro do transporte. Muitos produtos acabam por apodrecer nos camiões”, lamentou.

Outro factor apontado é a valorização do rand sul-africano, que encarece os produtos importados. “Os produtos da África do Sul já eram caros, agora estão piores. O rand subiu e isso reflecte-se directamente nos preços aqui”, referiu.

No mesmo mercado, Linda Macuácua, vendedora de repolho e couve, confirma o agravamento dos preços e a redução do poder de compra. “As chuvas destruíram muitos campos. Um repolho custa entre 70 e 100 meticais, e os mais baratos são pequenos e de baixa qualidade. A couve também está cara. Só o feijão e o coco ainda têm preços razoáveis”, disse.

Situação semelhante vive-se no mercado do Fajardo, na cidade de Maputo, onde os comerciantes relatam dificuldades tanto na aquisição como na venda de produtos. Zainabo Dzaka, comerciante desde 2009, recorda que o custo de vida já foi mais estável. “Antes, com 200 meticais conseguíamos comprar comida para o dia todo. Hoje isso já não existe. Antigamente vendia meia dúzia de ovos a 30 meticais, hoje os preços são muito mais altos”, contou.

A comerciante critica ainda o facto de os produtos nacionais, como ovos, serem por vezes mais caros do que os importados. “Às vezes é mais barato importar da África do Sul do que comprar aos produtores locais, o que mostra que ainda estamos longe de nos auto-sustentar”, afirmou.

Já Leontina Nhamussua, vendedora de batata e cebola, relata prejuízos devido às dificuldades no transporte. “Pagámos um camião de mercadoria, mas grande parte apodreceu ainda durante o transporte por causa das estradas intransitáveis. Para recuperar o prejuízo, somos obrigados a subir os preços, mas nem sempre conseguimos vender”, explicou.

A comerciante aponta também o impacto do câmbio, referindo que o rand chega a custar cerca de 4,7 meticais no mercado informal. “Compramos batata entre 80 e 150 randes por saco, pagamos transporte… então a que preço vamos vender aqui?”, questionou.

Os vendedores do mercado do Fajardo apontam como principais causas do agravamento do custo de vida as mudanças climáticas, o elevado custo de transporte, a dependência de importações e a volatilidade cambial. Perante este cenário, as famílias de baixa renda são as mais afectadas, enfrentando crescentes dificuldades para garantir a alimentação diária.

Economista defende aumento da produção interna O economista financeiro moçambicano Dereck Mulatinho considera que o actual cenário era previsível, tendo em conta os impactos das chuvas no sul do país e também em regiões da África do Sul, de onde Moçambique importa grande parte dos produtos alimentares. “O que estamos a observar é o resultado das inundações que atingiram zonas de produção agrícola e devastaram culturas, traduzindose na escassez de alimentos e no consequente aumento de preços”, explicou. Segundo o economista, a situação poderá agravar-se nos próximos meses, dependendo de factores externos como o preço dos combustíveis e a evolução dos mercados internacionais.

“Se os preços aumentarem na África do Sul ou na Europa, isso terá impacto directo em Moçambique. Não controlamos esses mercados. Da mesma forma, a subida dos combustíveis pode agravar ainda mais o custo de vida”, alertou.

Mulatinho reconhece que, apesar da pressão inflacionária, os níveis ainda se mantêm dentro das metas do Banco de Moçambique, que procura manter a inflação em um dígito, mas sublinha que o controlo depende de variáveis externas. Como solução, defende o reforço da produção interna, embora admita que não se trata de uma resposta imediata.

“Grande parte da produção foi afectada pelas chuvas, o que implica reiniciar o ciclo agrícola. Isso leva tempo. No curto prazo, não há muito a fazer para aumentar a oferta nos mercados”, explicou. Para o médio e longo prazo, recomenda o aumento da produção agrícola nacional e o controlo de indicadores macroeconómicos, incluindo a taxa de câmbio.

“É fundamental aumentar a disponibilidade de produtos alimentares no país e reduzir a dependência externa. Ao mesmo tempo, é necessário monitorar factores como o rand e o dólar, porque qualquer variação pode anular os esforços internos”, concluiu.

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