– Ao contrário do que pensa Trump, nem americanos escaparão
O economista e antigo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, advertiu para as consequências económicas profundas e duradouras da guerra em curso no Médio Oriente, que opõe os Estados Unidos e Israel ao Irão, defendendo que o conflito está a empurrar a economia global para uma crise de grande escala, cujos custos recairão sobretudo sobre as classes trabalhadoras
Texto: Amad Canda
Numa entrevista concedida ao jornalista Chris Hedges, ainda antes da escalada militar registada na noite de 18 de Março – marcada pelo ataque israelita ao campo de gás South Pars, no Irão, e pela resposta iraniana contra o complexo industrial de Ras Laffan, no Qatar – Varoufakis já antecipava uma deterioração acelerada dos mercados energéticos. Na sequência destes acontecimentos, os preços do gás na Europa dispararam cerca de 35%, agravando um cenário que o economista descreve como “um vórtice de problemas”.
No centro da crise está o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do fornecimento energético mundial. O impacto tem sido imediato: o preço do petróleo ultrapassou os 100 dólares por barril, registando um aumento de 45%, enquanto combustíveis como o diesel e o querosene sofreram subidas significativas. Em várias regiões da Ásia, já se regista escassez e racionamento, com efeitos em cadeia sobre a produção industrial e o abastecimento energético.
Varoufakis sublinha que esta crise difere de choques anteriores, como o impacto das tarifas comerciais impostas pela administração de Donald Trump, por não apresentar mecanismos de compensação suficientes. Ao contrário do que sucedeu então, quando o investimento em tecnologia e inteligência artificial ajudou a amortecer os efeitos económicos, o actual contexto combina inflação com desaceleração económica, abrindo caminho para um cenário de estagflação -combinação de inflação com estagnação no desenvolvimento económico e aumento do desemprego.
O economista rejeita, de forma contundente, o argumento defendido por Trump de que a subida dos preços da energia poderá beneficiar os Estados Unidos enquanto exportador líquido de petróleo. “Não existe algo como ‘os Estados Unidos’ enquanto entidade homogénea”, afirma, explicando que os ganhos ficarão concentrados nas grandes petrolíferas, enquanto os trabalhadores enfrentarão custos crescentes de transporte e perda de poder de compra.
Segundo Varoufakis, “se fosse um país em que todos fossem accionistas, o argumento poderia fazer sentido, mas não é esse o caso”. Na prática sustenta, os lucros extraordinários – estimados em dezenas de milhares de milhões de dólares – beneficiarão sobretudo grandes empresas, deixando a maioria da população exposta ao aumento do custo de vida.
A análise estende-se ao impacto global, com particular incidência no Sul Global e nas economias fortemente dependentes de importações energéticas. Países asiáticos, como Bangladesh ou Paquistão, enfrentam já perturbações severas, enquanto o Japão, altamente dependente do petróleo do Golfo Pérsico, recorre às suas reservas estratégicas. Na Europa, os preços da electricidade apresentam níveis historicamente elevados, reflectindo assimetrias internas e fragilidades estruturais agravadas por anos de austeridade.
Varoufakis alerta ainda para efeitos em cadeia que poderão persistir mesmo que o conflito abrande, devido à disrupção prolongada das cadeias de abastecimento – um fenómeno comparável ao observado durante a pandemia, mas potencialmente mais duradouro.
Para o antigo governante grego, a actual conjuntura evidencia uma realidade mais profunda: “estas guerras, sejam comerciais ou militares, são guerras de classe”. Nesse sentido, conclui, “as classes trabalhadoras perdem em todos os lugares”, desde os Estados Unidos à Europa, passando pelas economias mais vulneráveis.
Num cenário de inflação persistente combinada com aumento do desemprego, Varoufakis antevê o agravamento das tensões sociais e políticas, com risco de deriva autoritária em várias regiões. A guerra, defende, não só está a redesenhar o equilíbrio geopolítico, como também a expor as fragilidades de um sistema económico global cada vez mais desigual e instável.




