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ACUSA MIA COUTO: “Moçambique é refém de “gangues no poder”

A aula inaugural do escritor Mia Couto, realizada na segunda-feira, 23 de Março, no campus de Lhanguene da Universidade Pedagógica de Maputo (UP), revelou um diagnóstico severo sobre o estado do País, cruzando memórias pessoais do orador com uma leitura crítica da realidade nacional. Sob o tema “O saber não tem CV”, o autor questionou a incapacidade de Moçambique, 50 anos após a independência, de resolver problemas básicos como a produção alimentar, apontando responsabilidades que extravasam o campo académico e interpelam directamente a ética pública, corrupção social e o papel das instituições de ensino neste quadro.

Texto: Arton Macie

Ao longo da sua intervenção, foi-se desenhando uma leitura crítica de um País que continua incapaz de resolver questões básicas. Como causa, Mia Couto trouxe para o centro do debate aquilo que descreveu como interesses instalados que bloqueiam o desenvolvimento.  

“Há interesse em que se produza, mas há interesses maiores em que se importe, porque existe uma pequena gangue que o Presidente da República chamou de cartel que lucra mais com a importação de comida do que com a produção suficiente para o nosso País” apontou.

A crítica directa de Couto aponta para a captura de sectores estratégicos por redes de influência que condicionam decisões políticas e económicas, numa altura em que se vê, da parte do Estado, esforços para centralização da importação de alguns alimentos – acção combatida por alguns sectores.

Este posicionamento surge no momento em que o escritor questiona também o estado da produção no País, recusando a ideia de que o problema resida na ausência de conhecimento técnico. “A maior parte dos problemas deste País não surgem pela falta do saber académico”, afirmou, ao mesmo tempo que colocou em causa um dado estrutural: a incapacidade de, em 50 anos de independência, o País garantir a produção de alimentos para o seu próprio consumo.

“Universidade deve formar cidadãos que enfrentem a realidade do País”

É neste quadro de aparente incapacidade que o escritor introduz o papel da universidade, ligando-o directamente ao contexto em que os estudantes irão actuar e recusando uma formação desligada da realidade concreta do País. “Uma universidade que tenha preocupação com a ética tem que ensinar aos seus alunos que esse é o contexto em que eles vão trabalhar”, afirmou, para depois fixar esse contexto em termos concretos.

“Num hospital, o cirurgião não será só um cirurgião, ele vai ter que lidar com situações em que não tem luvas para fazer operação, vai lidar com situações em que medicamentos são roubados dentro do hospital por redes que já estão instaladas lá dentro e tem que saber como vai se posicionar neste cenário”, advertiu.  

A crítica estende-se à proliferação de instituições de ensino superior no País, fenómeno que o escritor associa a uma lógica que ultrapassa o campo académico e convoca outras leituras sobre o sector.

“Em cada nove meses nasce uma universidade neste País, é extraordinário, devíamos ser um dos países mais desenvolvidos do mundo. Estas universidades servem para quê? São uma fonte de negócio”, afirmou, deixando em aberto uma interrogação sobre a utilidade real de muitas dessas instituições e o papel que efectivamente desempenham no desenvolvimento do País.

“Couto defende alternativas mais dinâmicas nos centros de acolhimento”

Num outro momento, evocando episódios de cheias, Mia Couto apontou para o papel paradoxal das escolas, frequentemente transformadas em centros de acolhimento. Se, por um lado, reconhece o valor simbólico da escola como espaço de refúgio, por outro considera trágico que essa função se imponha por falta de alternativas.  

Alertando para a recorrência de desastres naturais, defendeu a construção urgente de infra-estruturas específicas, capazes de servir às comunidades sem comprometer o funcionamento do sistema educativo, e apelou a que o sofrimento das populações não seja instrumentalizado politicamente.  

Segundo o escritor, já é de conhecimento público que desastres naturais como as cheias vão continuar a acontecer mais vezes, e não é ideal que a escola continue a ser sacrificada para este propósito.

“Nós vamos ter mais cheias e, portanto, se não começarmos agora a construir centros de acolhimento pelo menos nas zonas que são mais propícias às cheias, nós estamos a sacrificar duas vezes o nosso País” declarou, apelando maior dinamismo dos centros a construir.

“Nossos centros de acolhimentos podem ser polivalentes, ou seja, que não fiquem à espera das cheias. Faz-se uma construção que seja rentável, siva à arte, sirva à cultura, sirva aos jovens. Portanto, durante todo ano aquele centro estará vivo” concluiu.  

A encerrar, o consagrado escritor afirmou que nenhuma universidade tem o direito de viver para si própria. Num País marcado por práticas “como nepotismo, clientelismo e corrupção” – males que, recordou, já foram assumidos ao mais alto nível -, Mia Couto defende que as instituições de ensino devem romper o isolamento e assumir um papel activo na transformação da sociedade. Porque, como sugeriu ao longo da intervenção, o problema não está na ausência de saber, mas na forma como ele é ignorado, contornado ou capturado.

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