– “Sem dados fiáveis é difícil tomar decisões correctas”
Numa altura em que a economia moçambicana continua a enfrentar desafios estruturais, incertezas de mercado e impactos provocados por fenómenos extremos, cresce a necessidade de mais visões com vista a reforçar a capacidade de análise e previsão económica, etapas fundamentais para orientar decisões empresariais. Foi nesse espírito que nasceu, em 2025, a Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC), que, segundo o respectivo economista-chefe, Clésio Foia, pretende preencher um vazio no que tange à falta de instrumentos de medição sistemática da actividade empresarial e do ambiente económico. “Complementamos a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), não a fragmentamos”, garante.
Texto: Milton Zunguze
Numa entrevista exclusiva, concedida ao Dossier Económico, Clésio Foia apresentou a visão estratégica da FUNDEC, que se propõe a produzir inteligência económica baseada em dados e métricas capazes de apoiar empresários, investidores e decisores públicos.
“Nós pegamos em números e os transformamos num acto de decisão. A partir de indicadores e rácios, conseguimos apoiar empresários a tomar decisões mais informadas, com maior visão sobre o comportamento do mercado e da própria economia”, explicou.
A iniciativa, segundo Foia, surge num contexto em que muitos empresários continuam a operar em mercados fragmentados e altamente imprevisíveis, sem acesso a dados estruturados que permitam prever tendências de consumo, evolução de preços ou comportamento da procura.
Para o economista-chefe da FUNDEC, a ausência de métricas económicas fiáveis tem limitado a capacidade de planeamento das empresas. “Podemos ter uma empresa e produzir um determinado produto, mas muitas vezes não sabemos qual será a procura real. Não sabemos quantas pessoas irão consumir esse produto ou qual será a dimensão do mercado. Falta-nos essa previsão”, assinala.
Uma fundação de “inteligência económica”
Em termos simples, Clésio Foia define a FUNDEC como uma verdadeira “fundação de inteligência económica”, cujo papel é recolher, organizar e interpretar dados económicos que possam orientar decisões empresariais e políticas públicas.
A instituição aposta na análise quantitativa e em estudos empíricos para produzir informação fiável sobre o funcionamento da economia.
“Queremos que as decisões económicas sejam tomadas com base em dados concretos e não apenas em percepções ou suposições”, aponta, fazendo notar que essa abordagem poderá ajudar a reduzir incertezas num ambiente económico frequentemente marcado por choques externos, volatilidade de mercados e escassez de informação.
“Os nossos mercados são constantemente abalados por diferentes choques. Sem dados estruturados, torna-se difícil fazer previsões e planear investimentos”, sublinha.
Diferente da CTA, mas complementar
Em alguns sectores da opinião pública nacional, o surgimento desta agremiação visa fragmentar a CTA. Foia desmistifica essa percepção, argumentando que a FUNDEC não surge para competir com a CTA, mas que pretende desempenhar um papel complementar.
“A FUNDEC não tem nada a ver com fragmentação do movimento empresarial, pelo contrário, complementa o trabalho da CTA, da FDEM (Federação de Desenvolvimento Empresarial de Moçambique), das Câmaras de Comércio e de outras associações empresariais”, afirma.
Enquanto a CTA se posiciona sobretudo como uma organização de representação e advocacia dos interesses do sector privado junto do Governo, a FUNDEC pretende concentrar-se na produção de conhecimento económico e de ferramentas de análise.
“Nossa missão é produzir métricas, indicadores e análises que possam apoiar não apenas a CTA, mas também outras instituições empresariais e os próprios empresários”.
Quatro indicadores para medir a economia
No centro da estratégia da FUNDEC está a criação de um conjunto de indicadores económicos destinados a monitorar o desempenho da economia e do ambiente empresarial. O primeiro é o Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique (ICEM), que pretende medir o dinamismo das actividades empresariais no País.
Este índice tem, de acordo com o nosso entrevistado, sub-indicadores que permitirão analisar a actividade económica por província, incluindo dados sobre emprego, sectores predominantes e acesso ao crédito.
“Queremos saber quantas pessoas estão empregadas em cada província, quais são os sectores mais activos e qual é a dinâmica do crédito. Isso permite compreender o nível real de competitividade empresarial”, explica.
Paralelamente, a agremiação tem no horizonte o Ranking Financeiro e Empresarial (REF), que pretende avaliar o desempenho financeiro das empresas, e o Índice de Emprego e Produtividade (IEP), que irá medir a capacidade das empresas de gerar emprego e melhorar a produtividade.
Já o quarto instrumento é o Índice de Melhoria do Ambiente de Negócio, cuja divulgação será feita anualmente, ao contrário dos outros três indicadores, que serão publicados numa base trimestral.
Refira-se que o Índice de Melhoria do Ambiente de Negócio surge como uma tentativa de preencher o vazio deixado pelo relatório Doing Businnes, do Banco Mundial, que durante anos avaliou o ambiente de negócios em diversos países.
“O Doing Businnes foi extinto e deixou um conjunto de variáveis importantes sem acompanhamento. O que vamos fazer é medir essas variáveis com dados produzidos internamente, adaptados à nossa realidade”, assegura.
Avaliação dos danos pós-cheias
Paralelamente à análise dos indicadores económicos, a FUNDEC está a realizar um estudo de avaliação dos prejuízos provocados pelas recentes enxurradas que afectaram regiões do Sul e Centro do País.
Equipas da fundação, compostas por especialistas de diferentes áreas, incluindo agricultura, agro-negócio, comércio, indústria e transportes, encontram-se actualmente no terreno para quantificar os impactos na actividade económica.
Na província de Gaza, uma das mais afectadas, as missões estão a decorrer nos distritos de Chókwè, Bilene, Chibuto, Chongoene e Xai-Xai. Já em Maputo, os trabalhos concentram-se em Boane, Macaneta (distrito de Marracuene) e Moamba.
“O objectivo é quantificar os danos provocados pelas cheias e, ao mesmo tempo, propor soluções de recuperação económica, tanto a curto como a longo prazo”, revela Foia.
Empresários psicologicamente afectados
Para além das perdas materiais, a missão de avaliação tem revelado um outro desafio: o impacto psicológico sofrido pelos empresários afectados pelas cheias. É que, segundo Foia, muitos empresários perderam praticamente tudo e encontram-se desmotivados para recomeçar.
“Houve um empresário que disse à nossa equipa que já não queria saber de nada. O estado de espírito de muitos empresários é de devastação”, relata.
Outro obstáculo identificado pela fundação é a dificuldade de acesso à informação fiável e em tempo real, o que dificulta a tomada de decisões concretas.
Certo, para já, é que, após a conclusão do estudo de avaliação, a FUNDEC pretende apresentar um relatório detalhado com estimativas de prejuízos e propostas de recuperação económica, num documento que deverá servir de base para mobilizar financiamento junto de parceiros nacionais e internacionais.
Entre as opções em análise está a combinação de capitais próprios dos empresários, financiamento bancário e apoio de instituições internacionais.
Ademais, a fundação pretende promover investimentos em projectos existentes (brownfields) e em novas oportunidades de negócio (greenfields).
Parcerias para reforçar credibilidade
Para reforçar a credibilidade dos seus indicadores e estudos, a FUNDEC estabeleceu parcerias com instituições internacionais de referência no sector financeiro, entre elas está a agência de notação de rating Standard & Poor’s e a plataforma Bloomberg, especializada em informação financeira e empresarial.
Segundo Foia, estas parcerias poderão contribuir para projectar Moçambique nos mercados internacionais e fortalecer a chamada diplomacia económica do País.
“O nosso objectivo é também projectar Moçambique para o mundo através de informação económica estruturada e credível”, aponta.
A FUNDEC pretende ainda integrar nas suas plataformas dados de instituições nacionais como a Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Banco de Moçambique (BdM).
Para Clésio Foia, o País precisa urgentemente de ferramentas capazes de reduzir incertezas e apoiar decisões económicas mais racionais. “Não queremos trazer promessas. Queremos trazer resultados concretos baseados em dados e evidências”, concluiu.




