– Queda nas exportações pressiona défice externo
As exportações de bens do País voltaram a evidenciar o seu peso estratégico na economia, apesar de uma queda significativa registada no terceiro trimestre de 2025, num contexto marcado pelo agravamento do défice externo e por maior pressão sobre a conta corrente. Dados do relatório do Banco de Moçambique indicam que, embora o País continue fortemente dependente dos grandes projectos e da indústria extractiva, persistem vulnerabilidades estruturais que limitam a robustez do sector externo.
Texto: Milton Zunguze
No período em análise, as exportações de bens totalizaram 5 709 milhões de dólares, o que representa uma redução de 470 milhões de dólares, equivalente a uma queda de 7,6% em relação ao mesmo período de 2024. Este recuo ocorre numa altura em que o País enfrenta maiores necessidades de financiamento externo, evidenciando a fragilidade de um modelo de crescimento fortemente assente em commodities.
Queda nas exportações agrava défice externo
A deterioração das exportações teve impacto directo na conta corrente, cujo défice atingiu 2 269 milhões de dólares, um agravamento de 20% face ao período homólogo. Segundo o estudo, este desempenho foi impulsionado sobretudo pela deterioração da conta de bens, que registou um agravamento de 390 milhões de dólares (41%), reflectindo a redução das receitas de exportação.
O saldo conjunto das contas corrente e de capital atingiu 2 132 milhões de dólares, traduzindo um aumento de 29,2% nas necessidades de financiamento externo. O resultado confirma que a economia moçambicana continua altamente dependente do sector externo, em particular das exportações de recursos naturais.
Grandes projectos continuam a dominar exportações
A estrutura das exportações mantém-se fortemente concentrada nos chamados Grandes Projectos (GP), que representaram 4 355 milhões de dólares do total exportado, apesar de uma redução de 6,4% face ao ano anterior.
A indústria extractiva continua a ser o principal motor das exportações, com destaque para o carvão mineral, gás natural e areias pesadas. As exportações de carvão mineral, por exemplo, caíram 335 milhões de dólares, fixando-se em cerca de 1 206 milhões de dólares, afectadas por paralisações na produção e pela redução de 13,1% no preço internacional.
Por sua vez, as exportações de energia eléctrica registaram uma queda ainda mais acentuada, diminuindo 217 milhões de dólares (40,6%), para 318 milhões de dólares, devido a condições hidrológicas adversas e limitações técnicas. Em contrapartida, alguns produtos mostraram maior resiliência. O alumínio e o gás natural registaram crescimentos de 260 milhões de dólares e 29 milhões de dólares, respectivamente, impulsionados pelo aumento dos preços e dos volumes exportados.
Exportações tradicionais também recuam
Para além dos grandes projectos, o sector tradicional também registou um desempenho negativo. As exportações destes produtos totalizaram 1 354 milhões de dólares, menos 174 milhões de dólares em relação ao período homólogo.
Entre os produtos mais afectados destacam-se os rubis, cuja receita caiu 41 milhões de dólares, em resultado de uma redução de cerca de 60% no volume exportado. Seguem-se o amendoim, com menos 29 milhões de dólares, o tabaco, cuja receita diminuiu 16 milhões de dólares, reflectindo uma queda de 24% no volume exportado, e o açúcar, que registou uma redução de 22 milhões de dólares, influenciada por eventos climáticos adversos e paralisações industriais.
Por outro lado, a castanha de caju apresentou um crescimento de 18 milhões de dólares, evidenciando algum dinamismo no sector agrícola, embora insuficiente para compensar as perdas registadas noutras rubricas.
Índia lidera destinos das exportações
Em termos geográficos, a Índia manteve-se como o principal destino das exportações moçambicanas, absorvendo 20,4% do total, com destaque para carvão, gás natural e produtos agrícolas. A vizinha África do Sul surge na segunda posição, com 12,9%, sendo um mercado relevante produtos industriais.
Seguem-se a China, com cerca de 482 milhões de dólares em importações de produtos moçambicanos, e o Reino Unido, que absorveu cerca de 8% do total exportado.
Outros mercados relevantes incluem Singapura e a Coreia do Sul, o que evidencia a crescente inserção de Moçambique nos mercados asiáticos.
Importações recuam, mas pressão externa mantém-se
Do lado das importações, o País registou uma ligeira redução de 5,5%, totalizando 6 099 milhões de dólares, menos 356 milhões de dólares em comparação com o mesmo período do ano anterior. Ainda assim, o défice comercial manteve-se elevado, reflectindo a persistente dependência de bens importados, sobretudo combustíveis, maquinaria e bens de consumo.
Importa destacar que as importações associadas aos grandes projectos aumentaram significativamente, enquanto as do resto da economia diminuíram, evidenciando a dualidade estrutural da economia moçambicana.
Serviços e rendimentos pressionam conta corrente
Para além das exportações, outros factores contribuíram para o agravamento do défice externo. A conta de serviços registou um défice de 885 milhões de dólares, um aumento de 45,4%, impulsionado pela maior procura de serviços especializados ligados à exploração de gás natural.
Já a conta de rendimentos primários, embora tenha apresentado alguma melhoria, continuou deficitária em 1 709 milhões de dólares, reflectindo sobretudo a saída de lucros e dividendos para o exterior associados ao investimento estrangeiro.
Investimento estrangeiro reforça financiamento externo
Apesar do agravamento do défice externo, a conta financeira registou uma entrada líquida de 2 514 milhões de dólares, sustentada pelo aumento de 69,7% no Investimento Directo Estrangeiro (IDE), impulsionado principalmente pelos grandes projectos.
Os sectores de petróleo, gás e carvão continuam a concentrar a maior parte do capital estrangeiro que entra no País.
Como resultado, as reservas internacionais atingiram 3 943 milhões de dólares, nível suficiente para cobrir cerca de 3,4 meses de importações, o que oferece algum alívio à posição externa de Moçambique.




