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PARA SABER MEDIR A POBREZA: Governo ensina “pobremetria” ao Banco Mundial

– Um compilado das principais reacções à avaliação do Banco Mundial

O relatório do Banco Mundial, que coloca Moçambique como o segundo País mais pobre do mundo, continua a suscitar debates acesos. Trata-se de uma avaliação que atraiu atenções de economistas, sociedade civil e, como não podia deixar de ser, o próprio Governo, cujos membros não têm poupado esforços na tentativa de desvalorizar o relatório. Atento a cada intervenção, Dossier Económico compilou as principais linhas de contestação levantadas até ao momento, desde os “cálculos diferentes” que o Executivo moçambicano utiliza para avaliação, passando pela acusação de “delírio” por parte do Banco Mundial, até a alegação de que, afinal, os dados utilizados são de 2019.

Texto: Dossier económico

Alguns dias depois da divulgação do relatório, o Governo veio comentar brevemente o relatório, em sede do habitual briefing após as sessões do Conselho de Ministros. Sem confrontálo, o porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, começou por afirmar não reconhecer as métricas utilizadas e levantou dúvidas sobre o próprio processo que conduziu à estimativa apresentada pelo Banco Mundial. “Até aqui, estamos apenas a observar e a respeitar um posicionamento […] e nós vamos apresentar o nosso quando chegar a vez”, declarou.

Alguns segundos depois, na mesma intervenção, o dirigente decidiu alongarse um pouco mais, acrescentando que “os dados internacionais não coincidem com os levantamentos internos”, mormente o Inquérito ao Orçamento Familiar, sugerindo que a leitura externa não reflecte a realidade captada pelas instituições do próprio Estado. Mesmo sem negar frontalmente, este discurso deu início a uma sequência de pronunciamentos que esvaziam a autoridade internacional.

“81% é fake news”, diz Salimo Valá Por sua vez, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, abordou o assunto em entrevista à MBC TV. Sem a diplomacia de Impissa, Valá desmentiu directamente a avaliação que aponta para uma taxa de pobreza de 81% no País, classificando os dados como “desajustados à realidade nacional”.

Segundo apontou o ministro, os indicadores utilizados pelo Banco Mundial não captam devidamente o contexto moçambicano, sustentando que os dados produzidos internamente apontam para uma incidência dapobreza significativamente inferior. Nessa linha, avançou que, de acordo com as métricas nacionais, a pobreza no País situa-se “um pouco acima dos 50%”, um valor que contrasta de forma evidente com os 81,4% apresentados no relatório internacional, divulgado no final de Março de 2026.

A intervenção de Valá introduziu assim um elemento novo no discurso oficial. Enquanto outras vozes optaram por colocar reservas ou adiar conclusões (como o porta-voz do Governo), o antigo PCA da Bolsa de Valores de Moçambique (BVM) optou por uma rejeição directa do relatório.

Seu discurso terminou com uma promessa, de num futuro próximo trazer uma avaliação completa e mais ajustada à realidade.

A linha de defesa da ministra das Finanças

Quem também não se quis foi a ministra das Finanças, Carla Louveira, que respondeu ao relatório do Banco Mundial deslocando o centro da discussão dos resultados para as condições em que estes foram produzidos e para a natureza dos instrumentos que os sustentam. Em declarações proferidas a 7 de Abril de 2026, à margem das celebrações do Dia da Mulher Moçambicana, a governante sublinhou que “as estatísticas utilizadas são informações colhidas em período de COVID-19, publicadas em 2022, num contexto em que, para além da pandemia, decorriam fenómenos associados aos conflitos em Cabo Delgado e aos impactos climáticos”, declarou. Estes factores, na sua leitura, moldam inevitavelmente o retracto apresentado.

A referência não é menosprezável. O relatório do Banco Mundial assenta, com efeito, em dados provenientes de 2019-2022. É a partir dessa base que se constrói a estimativa segundo a qual 81,4% da população vive abaixo da linha internacional de pobreza, um indicador definido em função da capacidade de consumo dos agregados familiares.

É também neste plano que a ministra Louveira introduz uma inflexão conceptual, ao observar que a análise “concentra-se na perspectiva da pobreza de consumo”; isto é, na aferição da capacidade das famílias para assegurar um cabaz mínimo de bens essenciais. A observação coincide com o critério adoptado. A medição da pobreza de consumo constitui o padrão utilizado pelo Banco Mundial em exercícios de comparação internacional, permitindo situar países distintos numa mesma escala analítica.

É aqui, entretanto, que encontramos as primeiras contradições nos seus discursos. O próprio relatório não se esgota na métrica que a ministra cita; integra também referências à desigualdade, vulnerabilidade e aos efeitos cumulativos de choques recentes, elementos que ampliam o enquadramento sem, todavia, interferirem directamente no cálculo da taxa apresentada. A segunda contradição é que torna-se estranho que só hoje as métricas do Banco Mundial, que foram sempre aceites, comecem a ser publicamente questionadas, pelo menos com este nível de virulência.

 Egídio Vaz acusa o Banco Mundial de delírio

Fora da esfera do Executivo, a intervenção mais contundente foi do deputado Egídio Vaz, que afastou não apenas o número, mas a própria legitimidade da conclusão. “Moçambique não é o segundo País mais pobre do mundo”, declarou sem ressalvas, para de seguida qualificar a avaliação como “um delírio”, num registo que rompe com a prudência institucional observada noutras intervenções.

A crítica, porém, não se esgota na desqualificação. O deputado da Bancada Parlamentar da Frelimo dirige-se ao critério central utilizado pelo Banco, em particular à linha internacional de 3 dólares por dia, que considera incapaz de captar a realidade socioeconómica do País. Na sua leitura, a estrutura de subsistência predominante em vastas zonas rurais, onde a produção para consumo próprio desempenha um papel determinante, escapa à lógica monetária que sustenta esse indicador, tornando-o inadequado para traduzir as condições concretas de vida da população.

O argumento não é novo, mas ganha aqui um uso particular. Ao deslocar o foco da medição para a natureza da economia rural, a intervenção sugere que uma parte significativa da pobreza, tal como definida pelos padrões internacionais, não se manifesta da mesma forma no contexto moçambicano — ou, pelo menos, não pode ser apreendida pelos mesmos instrumentos.

Colocadas em sequência, as diferentes intervenções do Executivo e do parlamentar revelam uma linha de resposta que, embora diversa na forma, se mantém consistente no conteúdo. O porta-voz do Governo suspende a validação do relatório e remete a uma posição definitiva para análise posterior; o ministro da Planificação e Desenvolvimento rejeita o número e substitui-o por uma estimativa alternativa; a ministra das Finanças contesta a base temporal e o conceito utilizado; no Parlamento, a conclusão é rotulada como “delírio”. Não há uniformidade no discurso, mas há convergência no desfecho – o número não é reconhecido.

Os dados, entretanto, não somem

O relatório do Banco Mundial mantém, contudo, a sua base inalterada. A estimativa de 81,4% refere-se a 2022 e resulta de dados provenientes de inquéritos aos agregados familiares, incluindo informação fornecida pelas próprias instituições moçambicanas e integrada em plataformas internacionais de medição de pobreza e desigualdade. Apesar das contestações sucessivas, o número não foi revisto nem retirado, e ele ainda apresenta uma realidade não inventada.

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