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AFECTADA DESDE 2004: Confiança empresarial em Moçambique continua a cair

 

Desde o início da série estatística em 2004, a confiança empresarial em Moçambique mantém-se abaixo do nível médio de referência e, no segundo trimestre de 2025, voltou a recuar para 90,2 pontos, o que prolonga uma trajectória em que o indicador permanece sistematicamente abaixo da média de 100 pontos, que indica neutralidade — não se confia, mas também não se desconfia. Isto ocorre num contexto em que os empresários reportam expectativas desfavoráveis quanto à procura e ao emprego, segundo o relatório “Indicadores de Confiança e de Clima Económico” do Instituto Nacional de Estatística (INE), que descreve uma conjuntura marcada por debilidade persistente nas percepções económicas.

Texto: Arton Macie

O documento mostra que o Indicador do Clima Económico (ICE) continuou com a tendência negativa pelo terceiro trimestre consecutivo, tendo o respectivo saldo continuado abaixo da média da respectiva série temporal.

Segundo o INE, “esta conjuntura ligeiramente desfavorável da economia deveu-se, ao nível agregado, às expectativas muito desfavoráveis de emprego e da procura que diminuíram no período de referência”. A instituição estabelece, assim, uma relação entre a queda recente e o comportamento das principais variáveis económicas consideradas no inquérito.

Os dados apresentados no resumo estatístico permitem situar o indicador dentro da série longa, iniciada em Janeiro de 2004, que evidencia que o valor actual, de 90,2 pontos, permanece abaixo da média de 100, num intervalo histórico que regista um máximo de 108,0 no primeiro trimestre de 2013 e um mínimo de 81,4 no terceiro trimestre de 2020, o que, segundo o próprio enquadramento metodológico do INE, traduz a posição relativa do indicador face ao comportamento médio da economia ao longo do tempo.

No plano da procura, o relatório descreve uma deterioração transversal ao indicar que “a procura agregada continuou com expectativa de queda”, e acrescenta, em formulação detalhada, que o indicador de expectativas da procura foi desfavorável se comparado com o trimestre anterior, tendo o respectivo saldo se situado abaixo da média da respectiva série cronológica.

Essa diminuição acentuada das previsões da procura foi influenciada, segundo redige a instituição, “pela queda do indicador em todos os ramos-alvo do inquérito, com maior destaque, em termos de amplitude, para os ramos de comércio e da produção industrial, que diminuíram substancialmente no período em análise”, o que aponta para uma redução generalizada das expectativas de mercado.

Também na esfera do emprego se observa uma evolução negativa contínua no período recente. O INE refere que o indicador da expectativa de emprego registou uma queda substancial no trimestre em análise, facto que acontece pelo terceiro trimestre consecutivo, tendo o respectivo saldo atingido o nível mais baixo desde o terceiro trimestre de 2021. “Essa expectativa muito desfavorável do emprego, no trimestre em análise, foi influenciada pela avaliação negativa do indicador nos ramos de comércio e da produção industrial, que diminuiu substancialmente, numa conjuntura de incremento ligeiro no ramo de serviços”, confirma o documento, reforçando o peso dos sectores mais tradicionais na deterioração do indicador.

No que respeita aos preços, o documento aponta uma redução do indicador agregado, ao indicar que o indicador de expectativa de preços registou uma diminuição se comparado com o trimestre anterior, tendo, mesmo assim, o seu saldo continuado acima da média da respectiva série cronológica. Essa diminuição é atribuída a factores como a queda das expectativas de preços, associada às opiniões deflacionistas veiculadas pelos agentes económicos do ramo de comércio, ao registar uma redução substancial nas expectativas de preços, facto contrário às opiniões inflacionistas dos empresários dos ramos da produção industrial e de serviços, no mesmo período em análise.

O relatório quantifica ainda a dimensão dos obstáculos enfrentados pelas empresas, ao indicar que “em média, 36,8% das empresas enfrentaram algum obstáculo no segundo trimestre”, o que representa um agravamento de 0,2 pontos percentuais face ao trimestre anterior, num contexto em que todos os ramos de actividade registam níveis de constrangimento acima dos 30%, com particular incidência na produção industrial (42,3%), que lidera em termos de aumento, e no comércio (35,2%), enquanto os serviços (32,9%) continuam a apresentar a menor proporção de empresas afectadas.

Na análise sectorial, o comércio surge como um dos principais factores da evolução negativa, com o INE a assinalar que o indicador de confiança “reduziu pelo terceiro trimestre consecutivo”, o que mostra o nível mais baixo dos últimos 13 trimestres, resultado de uma avaliação fortemente negativa das suas componentes, com destaque para a quebra significativa da procura actual e futura.

No sector da produção industrial, que inclui electricidade e água, o relatório descreve igualmente uma deterioração, ao referir que o indicador de confiança “voltou a registar uma queda”, depois de um sinal de recuperação no trimestre anterior, mantendo-se ainda assim abaixo da média histórica, com uma conjuntura influenciada pela redução das perspectivas de emprego e da procura, apesar de um ligeiro aumento da actividade corrente, ao mesmo tempo que as vendas revelam uma tendência de acumulação de stocks nos armazéns.

Por contraste, o sector dos serviços apresenta sinais de recuperação, ainda que insuficientes para alterar o posicionamento global do indicador, com o INE a indicar um “incremento ténue”, sustentado pelo aumento da actividade actual e das perspectivas do volume de negócios, que compensaram a ligeira queda nas expectativas de procura, mantendo-se, contudo, o nível geral abaixo da média da respectiva série temporal.

O relatório esclarece que estes indicadores resultam de inquéritos de conjuntura que recolhem opiniões de gestores de empresas acerca da evolução corrente da sua actividade e expectativas de curto prazo e abrangem variáveis como “emprego, procura, encomendas, preços, produção, vendas e limitações da actividade”, com o objectivo de fornecer instrumentos para a leitura antecipada da economia e apoio à gestão e monitoria da política económica.

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