Maputo acolheu, há dias, a segunda edição do workshop subordinado ao tema “Comércio Internacional e Acesso ao Financiamento para as Exportações”, uma iniciativa que visa reforçar a capacidade das pequenas e médias empresas (PMEs) moçambicanas para participarem de forma mais competitiva nos mercados internacionais. O evento reuniu representantes do sector público, banca, seguradoras, empresas exportadoras e diversos parceiros do ecossistema do comércio internacional, criando um espaço de diálogo orientado para soluções práticas de financiamento e expansão de negócios.
Texto: Clara Mulima
Na abertura do evento, o chefe do Departamento de Promoção de Exportações, Octávio Zefanias, afirmou que a actividade exportadora exige mais do que produção, destacando a necessidade de estrutura empresarial sólida, conhecimento técnico e acesso ao financiamento. Segundo explicou, embora a balança comercial nacional seja maioritariamente impulsionada pelos grandes projectos, tornase urgente diversificar a base exportadora do País, incluindo as pequenas e médias empresas como actores centrais na dinamização da economia e na geração de emprego.
O responsável sublinhou que o Governo, em coordenação com a ExportaMoz, está empenhado em criar condições para que as PME aproveitem os instrumentos de facilitação do comércio internacional já subscritos por Moçambique, como o Acordo de Parceria Económica entre a SADC e a União Europeia. No entanto, reconheceu que persistem desafios significativos, desde a interpretação de documentação comercial, padronização de processos, domínio dos termos do comércio internacional, até constrangimentos logísticos e limitações no acesso ao financiamento.
Zefanias destacou ainda que exportar, embora seja um processo simplificado do ponto de vista aduaneiro, continua a ser exigente, uma vez que obriga as empresas a compreenderem profundamente os mercados internacionais, os seus riscos e oportunidades, bem como a adaptarem-se aos padrões de qualidade exigidos globalmente. Acrescentou que iniciativas como o workshop em alusão deverão ser replicadas em todo o País, com o objectivo de mitigar os desafios enfrentados pelas PMEs e promover uma cultura de exportação consistente e sustentável.
Estratégia assente em três pilares
Miguel Jóia Santos, CEO da Exportamoz, apresentou a estratégia da ExportaMoz, assente em três pilares fundamentais: disseminação do conhecimento, promoção do potencial exportável e capacitação institucional. No domínio da literacia empresarial, a organização tem vindo a promover formações e acções de capacitação com vista a preparar os empresários moçambicanos para competir no mercado internacional.
Paralelamente, está em desenvolvimento o portal Exporta, uma plataforma digital que pretende conectar a oferta de produtos nacionais à procura internacional, facilitando a ligação entre produtores locais e compradores externos.
Segundo Jóia, a ExportaMoz dispõe ainda de uma incubadora empresarial composta por mais de 30 especialistas em áreas como financiamento, seguros, logística, tecnologia, qualidade e agronegócio, permitindo identificar com maior precisão os desafios enfrentados pelas empresas e indicar soluções práticas. No âmbito do seu trabalho de base, a organização já recolheu dados sobre o potencial produtivo exportável em mais de 100 distritos do País, informação considerada essencial para apoiar decisões de investimento e expansão empresarial.
De mãos dadas com Banco MAIS e CCIMOSA
Um dos momentos de maior destaque do workshop foi a assinatura de memorandos de entendimento entre a ExportaMoz, o Banco MAIS e a Câmara de Comércio Moçambique – África do Sul (CCIMOSA), com vista ao fortalecimento do acesso ao financiamento e à promoção de parcerias estratégicas para a internacionalização das empresas moçambicanas.
O director comercial do Banco MAIS, Eduardo Domingos, explicou que a instituição pretende posicionar-se como um parceiro financeiro estratégico das PME, oferecendo soluções adaptadas às necessidades de tesouraria, investimento e expansão.
Segundo referiu, as PMEs enfrentam fortes constrangimentos de liquidez, agravados por prazos de pagamento prolongados e dificuldades de acesso ao crédito, o que limita a sua capacidade de crescimento e internacionalização.
A parceria com a ExportaMoz surge, assim, como uma resposta concreta a estes desafios, permitindo estruturar operações financeiras mais adequadas ao ciclo de exportação e garantir maior sustentabilidade às empresas.
Por sua vez, o vice-presidente da CCIMOSA, Isaías Chembeze, destacou que a cooperação com a ExportaMoz permitirá reforçar as ligações empresariais entre Moçambique e a África do Sul, promovendo a criação de plataformas mais estruturadas de acesso ao mercado e facilitando o investimento bilateral. O responsável apontou que, apesar do interesse crescente de investidores sul-africanos, ainda persistem barreiras institucionais e operacionais que dificultam a concretização de negócios, situação que esta parceria pretende ajudar a ultrapassar.
No quadro das soluções apresentadas, a ExportaMoz introduziu também um modelo inovador de financiamento orientado para a geração de divisas, que procura responder ao desafio estrutural enfrentado pelo País no acesso à moeda estrangeira. O modelo propõe a criação de um ecossistema colaborativo que liga exportadores, importadores, banca e seguradoras, permitindo que grandes importadores invistam directamente na capacidade produtiva de exportadores locais, garantindo simultaneamente o retorno em divisas.
Este mecanismo, segundo os promotores, poderá contribuir para acelerar as exportações reais, aumentar a disponibilidade de divisas no mercado nacional e criar maior previsibilidade para as empresas que dependem de importações. Trata-se de uma solução que aposta na colaboração entre os diferentes actores económicos como forma de resolver problemas estruturais e impulsionar o crescimento económico.
Zambézia projecta-se
A nível provincial, foi destacado o papel crescente das regiões na dinamização das exportações. A directora provincial da Indústria e Comércio da Zambézia, Regina Ngondo, afirmou que a província se posiciona como um polo estratégico de desenvolvimento económico, com elevado potencial nos sectores agrícola, turístico e industrial. Neste contexto, anunciou a realização do Fórum Económico e Industrial da Zambézia (FEIZA), previsto para a primeira quinzena de Junho, na cidade de Quelimane, com o objectivo de promover investimento, exportações e parcerias empresariais.
A responsável destacou que a Zambézia dispõe de condições favoráveis para o desenvolvimento de actividades económicas sustentáveis, assentes numa base produtiva diversificada e na disponibilidade de recursos naturais, factores que podem impulsionar o crescimento das PMEs e fortalecer o tecido empresarial local, com especial enfoque no empoderamento económico das mulheres.



