Apesar de o clima de tensão que se vive na Renamo ter como denominador comum a contestação da liderança de Ossufo Momade, José Manteigas rejeita que o presidente da “perdiz” seja a origem dos conflitos internos. Pelo contrário, aponta o dedo aos próprios contestatários, que, na sua perspectiva, têm adoptado métodos “incendiários” e “vergonhosos”, entre eles o encerramento compulsivo de sedes e delegações.
Texto: Anastácio Chirrute, em Inhambane
Não obstante a recente realização, em Manica, da reunião de generais e outros oficiais superiores da Renamo, não há sinais de que as tensões que marcam o partido nos últimos anos possam cessar, pelo menos a curto prazo. Fundamentalmente, as rixas envolvem um grupo de membros do partido, entre eles António Muchanga, e a própria liderança, com os contestatários a defenderem a necessidade urgente de Ossufo Momade abandonar o poder, a fim de que o partido, que averbou uma derrota pesada no último ciclo eleitoral, possa se reerguer.
No entanto, ainda há quem defenda o sucessor de Afonso Dhlakama. É o caso do deputado José Manteigas, que, em declarações ao Dossiers & Factos, condenou os métodos utilizados pelos contestatários, classificando-os como “incendiários e vergonhosos”.
Segundo o deputado, o momento actual da Renamo reflecte a existência de diferentes pontos de vista sobre a gestão da organização, algo que considera natural num partido com cerca de meio século de existência e milhares de membros. “É normal haver pensamentos diferentes”, afirma, chamando, ainda assim, a atenção para como esses pensamentos são expostos.
“Mesmo nas nossas famílias nucleares, a minha esposa pode pensar de forma diferente de mim, tal como os meus filhos. Mas nenhum membro da família deve usar discursos incendiários contra o outro. Pensar diferente não significa ser inimigo ou adversário; pelo contrário, é isso que promove o desenvolvimento”, sustentou.
“Há colegas que colocam interesses pessoais acima dos comuns”
Segundo os próprios contestatários, o desastre eleitoral de 2024 constitui a principal razão dos protestos anti-Ossufo. Contudo, Manteigas tem uma percepção diferente. Para o antigo porta-voz, as verdadeiras razões resumem-se em dois factores: interesses pessoais e desrespeito pelos estatutos do partido.
“Seguramente há colegas que colocam interesses pessoais acima dos interesses colectivos. É isso que alimenta este barulho. Além disso, há quem não respeite os estatutos do partido”, disse lembrando que Ossufo Momade foi eleito democraticamente, inclusive com a participação dos que hoje o contestam, que, nas suas palavras, “perderam de forma vergonhosa”.
Posto isto, Manteigas defende que, para ultrapassar a crise, é necessário reforçar a coesão interna. “A solução é unirmo-nos e trabalharmos juntos. Só assim, lutando pela mesma causa, conseguiremos ultrapassar esta fase”, disse, sublinhando que quem encerra sedes e delegações não quer ver o partido a avançar.
Manteigas não pensa na liderança
Ainda que se recuse a deixar a presidência do partido antes do Congresso, Ossufo Momade admitiu recentemente que não se vai recandidatar, abrindo espaço para a intensificação de rumores sobre eventuais sucessores. Entre os nomes mencionados está o de José Manteigas, que refuta qualquer intenção de se candidatar.
“Quem me conhece sabe que nunca faria isso. Tenho amorpróprio e jamais prejudicaria o partido que me sustentou durante muitos anos. Essas afirmações são apenas especulações e palavras injuriosas.”
O político acrescentou que nunca manifestou intenção de concorrer à presidência da Renamo, vincando que cumpre apenas as missões que lhe são confiadas pela organização. “No Congresso é que se vai decidir qual é o membro com capacidade”, concluiu.



