Centenas de estudantes moçambicanos bolseiros na Argélia dizem estar a viver situações extremas devido à falta de assistência financeira do Estado moçambicano, acusando o Governo de ter abandonado os estudantes no estrangeiro após o corte do subsídio estudantil, em 2024.
Texto: Maximiano da Luz
As preocupações foram apresentadas, no sábado (17), à presidente da Assembleia da República (AR), Margarida Talapa, durante um encontro mantido em Argel, no âmbito da visita oficial que efectua àquele país do norte de África.
Num discurso carregado de emoção, o presidente da Associação dos Estudantes Moçambicanos na Argélia, Valdemiro Jorge, descreveu um cenário de privações, humilhação e perda de dignidade entre os bolseiros nacionais.
“Excelentíssima Senhora Presidente, permitam-nos partilhar um exemplo doloroso que sinceramente não gostaríamos de trazer aqui, mas sentimos que devemos fazê-lo. Tivemos conhecimento de dois estudantes moçambicanos que, devido às dificuldades financeiras extremas, têm lavado pratos para colegas de outras nacionalidades apenas para conseguirem garantir as suas refeições diárias”, revelou.
Segundo Jorge, a ausência do subsídio estudantil agravou drasticamente as condições de vida dos bolseiros, muitos dos quais enfrentam dificuldades para alimentação, assistência médica e regularização documental.
O responsável denunciou igualmente a fraca qualidade da alimentação disponibilizada aos estudantes moçambicanos nas residências universitárias.
“É normal passarmos o dia inteiro a comer pão. Pequeno almoço, pão; almoço, pão; jantar, pão. Temos medo de perder a nossa dignidade como moçambicanos”, lamentou.
Perante o cenário, os estudantes apelaram à reposição do subsídio estudantil, ainda que simbólico.
“Mesmo que seja um valor reduzido, ajudaria muito a aliviar a vergonha e as dificuldades que enfrentamos diariamente”, afirmou Jorge.
Actualmente, a Argélia é o país com o maior número de estudantes moçambicanos bolseiros no estrangeiro. Só este ano, aquele país concedeu mais 130 bolsas de estudo a cidadãos moçambicanos.
Segundo os estudantes, as mesmas preocupações já haviam sido apresentadas ao Presidente da República, Daniel Chapo, durante a sua visita de trabalho à Argélia, em Setembro de 2025.
Na ocasião, de acordo com Valdemiro Jorge, Chapo reconheceu a necessidade do subsídio estudantil, cuja suspensão, em 2024, continua sem explicações claras por parte do Governo.
Os estudantes afirmam que o corte do apoio financeiro compromete até questões burocráticas básicas, como a obtenção da carta de residência, documento indispensável para permanência e circulação legal em território argelino.
Actualmente, os custos para obtenção do Cartão de Residência podem atingir cerca de 24 mil meticais, equivalentes a aproximadamente 50 mil dinares argelinos, valor considerado incompatível para muitos bolseiros.
Outra preocupação apresentada prende-se com a impossibilidade de mudança de curso nas universidades argelinas.
“Uma percentagem significativa dos estudantes está matriculada em cursos que não correspondem às suas vocações ou áreas de interesse. O mais frustrante é verificarmos que estudantes de outras nacionalidades conseguem mudar normalmente de curso, enquanto os moçambicanos continuam impedidos de fazê-lo”, denunciou Jorge.
Em resposta, Margarida Talapa reconheceu as preocupações apresentadas pelos estudantes, mas recordou que Moçambique enfrenta actualmente vários desafios económicos e sociais.
“Nós ouvimos todas as preocupações aqui apresentadas e vamos encaminhá-las às entidades competentes. Algumas matérias não dependem directamente da Assembleia da República, cuja função é fiscalizar, legislar e representar o povo”, afirmou.
A presidente da AR apelou ainda aos estudantes para que transformem as dificuldades em oportunidades e mantenham uma postura patriótica.
“Queremos encorajar-vos a serem patriotas e verdadeiros embaixadores de Moçambique aqui na Argélia”, declarou. Talapa sublinhou que o comportamento dos estudantes no estrangeiro influencia a imagem do país junto dos argelinos e de outras comunidades internacionais.
“Quando um moçambicano sabe ser e estar, isso dignifica o nosso país. Por isso, devem elevar bem alto o nome de Moçambique”, acrescentou.
A dirigente felicitou igualmente a “resistência e resiliência” dos estudantes, apelando para que os mais antigos transmitam experiência e apoio aos novos bolseiros recentemente acolhidos naquele país.
Durante a visita oficial à Argélia, Margarida Talapa faz-se acompanhar pelos chefes das três bancadas parlamentares da Assembleia da República, nomeadamente Feliz Sílvia, da Frelimo, Sebastião Mussanhane, do Podemos, e Fernando Bismarque, do MDM.
A visita oficial de quatro dias termina este domingo (18).



