O ambiente de negócios em Moçambique continua marcado por profundas dificuldades estruturais, apesar das potencialidades económicas existentes em diversos sectores. A conclusão consta do novo relatório analítico e de interpretação dos resultados do Índice de Clima Empresarial de Moçambique (ICEM) para o período 2024– 2025, que traça um cenário de riscos críticos, mas também de oportunidades estratégicas que exigem respostas urgentes e coordenadas.
Texto: Dossier económico
Segundo o estudo elaborado pela Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC), o nível geral do ICEM mantém-se abaixo dos 30%, um indicador considerado preocupante por reflectir um ambiente económico com fortes limitações ao investimento e à actividade empresarial. O relatório sublinha que todos os sectores analisados apresentam fragilidades significativas, contribuindo para um quadro geral de baixa competitividade.
Entre os principais obstáculos identificados estão os elevados custos de produção, nomeadamente energia, logística e matérias-primas, aliados a um ambiente regulatório considerado pouco proactivo.
A estes factores somam-se infra-estruturas insuficientes e um mercado interno ainda reduzido, limitando a expansão das empresas e diminuindo a capacidade de atracção de investimento. No sector financeiro, os dados revelam uma contracção preocupante da profundidade do crédito, que registou uma redução de 6,11% em 2025.
Paralelamente, a participação do sector financeiro no crédito global caiu 25,95%, sinalizando uma perda de influência na dinamização da economia. O recuo torna-se ainda mais evidente na evolução do crédito destinado ao próprio sector financeiro, que passou de um crescimento positivo de 8,4% no segundo semestre de 2024 para uma queda de 14,5% no mesmo período de 2025. O relatório associa este desempenho aos efeitos prolongados da crise financeira de 2016 e à manutenção de taxas de juro elevadas, factores que continuam a restringir o acesso ao financiamento.
Apesar de o sistema financeiro moçambicano ser considerado robusto em termos de capitalização, o documento destaca que este ainda não consegue desempenhar plenamente o seu papel como motor da economia. Um dos factores apontados é o elevado risco percebido pelos bancos, associado aos níveis significativos de crédito malparado, que rondavam os 9% em 2023, segundo dados do Banco de Moçambique.
Outro elemento crítico é o peso do endividamento público, que continua a reduzir o espaço para o financiamento ao sector privado. Esta realidade, conjugada com exigências regulatórias rigorosas, tem contribuído para um ambiente de crédito particularmente restritivo, sobretudo para pequenas e médias empresas.
O acesso aos serviços bancários permanece igualmente um desafio estrutural. De acordo com o relatório, apenas cerca de 20% da população adulta está bancarizada, um dado que evidencia a necessidade de acelerar políticas de inclusão financeira, especialmente nas zonas rurais e periurbanas.
Perante este cenário, o documento apresenta um conjunto de recomendações consideradas essenciais para inverter a tendência negativa. Entre elas, destacase o reforço da inclusão financeira, através do incentivo ao uso de soluções digitais e do desenvolvimento de produtos de microcrédito orientados para pequenos negócios e cidadãos de baixo rendimento.
O relatório defende igualmente o fortalecimento dos mecanismos de avaliação de risco, mediante a melhoria dos sistemas de informação de crédito, de modo a reduzir a assimetria de informação entre credores e devedores, aumentar a confiança no sistema financeiro e facilitar o acesso ao crédito.
Outra recomendação passa pela criação de plataformas de gestão de activos problemáticos, com o objectivo de reduzir o peso do crédito malparado nos balanços bancários. Paralelamente, propõe-se a expansão de esquemas de garantias mútuas para apoiar o financiamento às pequenas e médias empresas, consideradas fundamentais para a diversificação da economia nacional.
O documento defende ainda a necessidade de dinamizar a Bolsa de Valores de Moçambique, através da introdução de novos instrumentos financeiros, incluindo títulos corporativos de longo prazo capazes de apoiar o financiamento de infra-estruturas e reduzir a dependência da dívida externa.
No plano macroeconómico, o relatório converge com análises recentes do Fundo Monetário Internacional, que têm alertado para a urgência de reformas estruturais inclusivas e ajustadas ao contexto moçambicano. O objectivo, segundo o estudo, passa por impulsionar a capacidade produtiva, aumentar o valor acrescentado local e criar um ambiente de investimento mais favorável.
A análise destaca ainda que cada investimento direccionado para o aumento da produtividade sectorial pode gerar impactos significativos no ICEM, contribuindo para a melhoria do clima empresarial e para o fortalecimento da economia no seu conjunto.
Apesar do quadro desafiante, o relatório mantém uma perspectiva moderadamente optimista, sublinhando as “enormes potencialidades empresariais” do País. Contudo, adverte que o aproveitamento dessas oportunidades dependerá da implementação efectiva das reformas propostas.
O ICEM 2024–2025 surge, assim, como um importante barómetro do estado da economia moçambicana, revelando simultaneamente as fragilidades persistentes e as possibilidades de transformação estrutural do ambiente de negócios no País.




