– Painelistas convergem na necessidade de reinvenção
A queda das receitas publicitárias, a pressão das plataformas digitais e a fragilidade económica dos órgãos de comunicação social dominaram o primeiro dia dos debates da Conferência Nacional sobre Sustentabilidade dos Media, evento promovido pelo semanário Evidências, em parceria com o Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD) e o MISA-Moçambique, no âmbito das comemorações dos cinco anos de existência do jornal.
Texto: Dossier económico
Realizada em Maputo, a conferência reuniu gestores de órgãos de comunicação social, académicos, especialistas em comunicação e representantes do Governo para discutir os desafios económicos que ameaçam a sustentabilidade e independência da imprensa moçambicana.
Entre os principais consensos esteve a necessidade urgente de reinventar os modelos de financiamento dos media, fortalecer a qualidade dos conteúdos e encontrar mecanismos que permitam preservar a independência editorial num contexto de crescente crise financeira do sector.
Receitas da publicidade caem e televisões multiplicam-se
Um dos debates mais marcantes da conferência centrou-se na crise do mercado publicitário, agravada pela expansão acelerada do número de órgãos de comunicação social e pela concorrência das plataformas digitais.
Durante o painel “Crise da Publicidade na Era do Algoritmo”, o CEO da Rede Miramar, Leandro Pinheiro, revelou que as receitas publicitárias do sector caíram de cerca de dois mil milhões de meticais, em 2019, para aproximadamente 1,2 mil milhões em 2025.
Segundo explicou, a proliferação dos órgãos de comunicação social está entre as principais causas da redução das receitas disponíveis no mercado. Como exemplo, referiu que Moçambique possuía apenas cinco canais televisivos em 2017, enquanto actualmente o número ultrapassa 30 estações.
Leandro Pinheiro criticou igualmente a prática de comercialização de publicidade a preços demasiado baixos, defendendo maior união entre os órgãos de comunicação social para valorizarem os seus serviços e protegerem o mercado.
No mesmo painel, a especialista em comunicação Deolinda Fernando sustentou que os media, sobretudo as televisões, precisam de investir na sua própria imagem institucional e apostar em conteúdos de qualidade para se tornarem mais competitivos e atractivos para os anunciantes.
Segundo afirmou, a valorização da comunicação social depende também da formação dos profissionais e de uma melhor integração entre os media tradicionais e as plataformas digitais.
Sustentabilidade dos media vista como questão democrática
Outro dos principais temas debatidos foi a relação entre sustentabilidade financeira e independência editorial dos órgãos de comunicação social.
O director-geral da ST Projectos & Comunicação, Serôdio Towo, defendeu que o Estado deve criar mecanismos concretos de apoio à comunicação social, considerando que fortalecer os media significa proteger a própria democracia.
Segundo o jornalista, empresas públicas e instituições estatais desempenharam, no passado, um papel importante na sustentabilidade dos órgãos de comunicação social através da publicidade institucional, situação que actualmente praticamente desapareceu.
Para o director do Dossiers & Factos e Dossier Económico, a crise financeira atingiu níveis tão elevados que o debate já não deve centrar-se apenas na sustentabilidade, mas na própria sobrevivência dos media privados.
Na mesma linha, o director executivo do MISA-Moçambique, Ernesto Nhanale, considerou que a independência editorial depende directamente da existência de bases económicas sólidas.
Segundo explicou, a fraca competitividade da economia nacional concentra o investimento publicitário em poucas empresas, enquanto as grandes plataformas digitais internacionais absorvem receitas sem produzirem conteúdos jornalísticos locais.
“Para além de serem úteis, os media devem ser independentes e, para terem independência, precisam de bases económicas sólidas”, afirmou.
Governo promete reformas legais para modernizar o sector
Na abertura da conferência, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defendeu que a comunicação social deve ser encarada como um parceiro estratégico do desenvolvimento económico e da consolidação democrática.
O governante destacou os esforços do Executivo para actualizar o quadro jurídico do sector, com destaque para o Pacote Legislativo da Comunicação Social, que inclui a nova Lei da Comunicação Social e a Lei da Radiodifusão.
Segundo explicou, as reformas pretendem reforçar a profissionalização do jornalismo, melhorar a credibilidade dos órgãos de comunicação social e adaptar o sector às transformações tecnológicas e à economia digital.
Salim Valá referiu ainda que o Governo está igualmente a desenvolver instrumentos ligados à segurança cibernética e protecção de dados, considerados essenciais para o funcionamento das empresas de media na actual era digital.




