– No total, foram 380 pessoas em todo o ano
– Enquanto isso, o CNDH defende o combate a desinformação
O desaparecimento de pessoas, sobretudo menores e jovens, está a assumir contornos alarmantes em Moçambique, tendo atingido, em 2025, a média de um caso por dia. Nos últimos meses, multiplicaramse nas redes sociais publicações com mensagens como “desaparecido, quem tiver informações contacte a família” ou “partilhe para ajudar a encontrar”, revelando não apenas a dimensão do fenómeno, mas também a crescente dependência das plataformas digitais para localizar pessoas. Enquanto jovens entrevistados apontam para a incapacidade do Estado em responder de forma rápida e coordenada, a Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e a Fundação de Apoio e Monitoria (FAM) defendem que o combate ao desaparecimento de pessoas deve envolver toda a sociedade.
Texto: Milton Zunguze
Dados do anuário de 2025 da Fundação de Apoio e Monitoria (FAM), aos quais Dossiers & Factos teve acesso, traçam um quadro preocupante sobre o fenómeno dos desaparecimentos em Moçambique. Entre 2024 e 2025, o número de casos passou de 243 para 386, representando um aumento de 58,85%, equivalente a mais 143 desaparecimentos num único ano.
Para o presidente da FAM, Apolinário Munguambe, a situação é grave, porque os números traduzem uma média de um desaparecimento por dia. Um dos aspectos destacados pela organização é a mudança no perfil das vítimas. Em 2024, os homens representavam a maioria dos casos. Já em 2025, as mulheres passaram a constituir cerca de 55% do total de desaparecimentos.
Segundo o relatório, os casos envolvendo mulheres cresceram mais de 105%, o que pode apontar para vulnerabilidades específicas associadas à violência doméstica, exploração sexual, casamentos prematuros e dependência económica.
A análise territorial revela igualmente fortes desigualdades regionais, na região Sul surge como o principal epicentro do fenómeno, com a província de Maputo a registar um aumento de 180 para 317 casos, equivalente a uma subida de 76,11%. Uma vez mais, o crescimento do número de desaparecimento afectou mais as mulheres, passando de 81 em 2024 para 178 em 2025.
O relatório refere ainda que a crise económica e a procura de oportunidades de trabalho informal aumentam a exposição de jovens e mulheres a esquemas fraudulentos e redes criminosas.
No plano etário, a faixa dos 18 aos 29 anos continua a ser a mais afectada. Entre as mulheres desta faixa, a variação dos casos ultrapassou os 200% em relação ao ano anterior. Outro dado preocupante é o crescimento entre adultos dos 30 aos 49 anos, com aumentos de 650% entre mulheres e 470% entre homens.
Apesar do agravamento dos números, o relatório indica que, das 386 pessoas dadas como desaparecidas em 2025, 361 foram encontradas, o que representa uma taxa de resolução de 93,5%.
Ainda assim, sete pessoas foram encontradas sem vida, evidenciando que alguns casos terminam de forma trágica.
Segundo a FAM, Moçambique conta com cerca de 6,97 milhões de utilizadores de internet numa população estimada em 34 milhões de habitantes, o que dificulta a disseminação de alertas e a localização de desaparecidos, sobretudo em zonas rurais.
Indicadores por província
As províncias de Inhambane e Gaza também registaram aumentos significativos, reforçando a tendência de expansão do fenómeno no Sul do País. Na região Centro, Tete destacou-se pelo crescimento abrupto dos casos, sobretudo entre mulheres, enquanto Sofala e Manica apresentaram reduções e a Zambézia manteve relativa estabilidade.
Já no Norte, províncias como Nampula, Cabo Delgado e Niassa registaram redução ou estabilização dos casos, situação que poderá reflectir diferenças nos mecanismos de denúncia ou uma redistribuição geográfica do fenómeno.
No âmbito da tentativa de melhorar o rastreio e a resposta aos casos, a FAM desenvolveu a plataforma “Djula” – termo changana que significa “procurar” – destinada ao registo de desaparecimentos e centralização de dados.
A plataforma está a ser aprimorada com funcionalidades de inteligência artificial, incluindo reconhecimento facial.
“O nosso trabalho é contínuo. Todos os dias registamos novos casos. A tecnologia pode ser uma aliada importante, mas não substitui a necessidade de acção coordenada”, afirmou Munguambe.
O responsável defende ainda a assinatura de memorandos de entendimento entre instituições, com metas claras e mecanismos de avaliação periódica, como forma de fortalecer a resposta ao fenómeno.
CNDH pede coordenação institucional
Em declarações ao Dossiers & Factos, o presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, Albachir Macassar, defendeu uma abordagem mais rigorosa ao fenómeno.
Segundo explicou, o conceito de “desaparecimento” abrange diferentes realidades, desde crianças que se perdem por descuido e pessoas com distúrbios mentais que abandonam o convívio familiar, até casos de rapto ou sequestro.
“Nem todo desaparecimento configura imediatamente um caso criminal. É preciso apurar, classificar e agir de acordo com o contexto”, explicou.
Macassar reconhece, contudo, que a repetição dos casos está a criar um ambiente de alarme social.
“A sociedade está em alerta porque estas situações têm ocorrido com frequência e, infelizmente, também existem casos criminais, raptos e sequestros.”
Para o responsável da CNDH, um dos principais problemas está na fraca articulação entre as instituições do Estado.
“O que apelamos é que não haja actuação isolada. A PRM não deve trabalhar sozinha, nem a PGR separadamente. É necessário um mecanismo de coordenação e articulação forte e eficaz.”
Segundo explicou, uma circulação mais eficiente da informação entre a polícia, o Ministério Público e outras entidades pode acelerar investigações e evitar desfechos trágicos. Macassar apelou ainda ao uso responsável das redes sociais, alertando para os riscos da disseminação de informações falsas ou não confirmadas.
“Se eu souber efectivamente de um desaparecimento, devo partilhar com responsabilidade e com certeza da informação. Caso contrário, cria-se uma bola de neve de desinformação que acaba por dificultar o trabalho das autoridades.”
O presidente da CNDH defende igualmente o envolvimento de todas as forças vivas da sociedade no combate ao fenómeno.
“Precisamos de um mecanismo articulado de monitoria e acompanhamento, para que os dados sejam únicos, fiáveis e permitam respostas mais eficazes à população.”
A CNDH actua sobretudo na monitoria de possíveis violações de direitos humanos e acompanha situações em que existam indícios de falhas institucionais. Quando há matéria criminal, os casos são encaminhados para a Procuradoria-Geral da República e para o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC).
Macassar acrescenta que, em muitos países, existe um período mínimo para que uma pessoa seja formalmente considerada desaparecida, o que pode influenciar o tempo de resposta das autoridades.
Contudo, ressalva que, havendo testemunhos ou provas de que alguém foi levado à força, a intervenção deve ser imediata.
Aumenta o pânico entre os jovens
A frequência dos casos está a levantar inquietação no seio da sociedade moçambicana. Entre as perguntas mais recorrentes estão: “O que está a acontecer?”, “Quem está por detrás destes desaparecimentos?”, “Em que circunstâncias ocorrem?” e “Qual é a finalidade?”. As dúvidas acabam por alimentar a desconfiança em relação à capacidade do Estado para prevenir, investigar e esclarecer os casos.
Entre estudantes universitários, o fenómeno já deixou de ser encarado como algo distante. Um jovem de 22 anos, que falou sob anonimato, descreveu um ambiente marcado pelo medo e pela incerteza.
“Não é normal vermos tantos casos de desaparecimento todas as semanas. Parece uma capoeira: hoje desaparece um, amanhã desaparece outro. E as autoridades só aparecem quando o caso ganha força nas redes sociais”, afirmou.
Segundo o estudante, existe uma percepção generalizada de lentidão nas investigações e de falta de transparência na actuação das autoridades. Para muitas famílias, recorrer às redes sociais tornou-se uma necessidade.
“Muitas famílias já nem esperam pela resposta institucional. Publicam logo nas redes porque sabem que ali alguém pode ver, partilhar e ajudar”, acrescentou. Numa outra universidade da cidade de Maputo, uma estudante de 19 anos relatou o impacto psicológico que os desaparecimentos têm provocado entre os jovens.
“Temos medo. Sair de casa para ir à escola já não é a mesma coisa”, confessou, acrescentando que os encarregados de educação vivem em constante sobressalto, “Os nossos pais ligam constantemente.”
A jovem explica que muitos estudantes passaram a adoptar medidas de autoprotecção, como evitar circular sozinhos ou optar por vias mais movimentadas. Ainda assim, considera que a ausência de informação oficial agrava o pânico colectivo.
“Quando alguém desaparece, nunca sabemos exactamente o que aconteceu. Não há esclarecimentos e isso aumenta ainda mais a ansiedade.”
Nas avenidas da capital, o jovem Hilário Mabjaia, de 33 anos, defende que o problema deve ser enfrentado de forma estrutural e não apenas reactiva.
“O Estado precisa de melhorar a coordenação entre a polícia e as comunidades e comunicar melhor com a população”, afirmou, reconhecendo o papel das redes sociais, mas advertindo que estas, por si só, não resolvem o problema.
A fonte alerta ainda que a ausência de respostas concretas abre espaço para rumores, especulações e desinformação.
“Há muitos casos que ficam sem resposta. Isso cria suspeitas e aumenta a desconfiança. É preciso mais clareza e mais responsabilização.”




