Por Amad Canda
Calma, calma e mais calma foi o que o seleccionador de Cabo Verde pediu aos seus pupilos nas vésperas do confronto com a Espanha, no jogo de estreia dos insulares na mais alta roda do futebol de selecções. Embora tubarões, os azuis sabiam que a contenção da Fúria da Roja exigiria elevados índices de concentração e, acima de tudo, humildade.
Foi com essa receita “budista” que o técnico Bubista conseguiu um empate histórico diante de uma das principais candidatas a conquistar o Mundial das Américas.
Logo no início, ficou claro que o conjunto dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) subiu ao Estádio de Atlanta sobretudo para não perder, tendo no horizonte uma eventual vitória como bacela. Estruturada num 4-4-2 que, em largos momentos, se metamorfoseava em 5-4-1, a selecção africana abdicou de fazer pressão na primeira fase de construção espanhola, optando por defender em bloco baixo.
As preocupações defensivas foram tais que, no primeiro quarto de hora, não há registo de qualquer acção dos cabo-verdianos no meio-campo ofensivo, facto que também tem de ser atribuído à eficácia da pressão dos ibéricos, muitas vezes com recurso à marcação homem a homem.
Todavia, se a organização defensiva espanhola serviu para neutralizar o adversário, a organização ofensiva mostrou-se incapaz de gerar ocasiões de golo em quantidade e qualidade a que habituou o mundo do futebol.
Sem Lamine Yamal e Nico Williams, por sinal as suas maiores fontes de desequilíbrio, Luis de la Fuente optou por colocar Ferran Torres à direita e Gavi à esquerda. Este último, cuja inclusão no onze constituiu uma surpresa — haja vista a notória falta de ritmo após lesão — actuou no designado half-space, deixando a linha de fundo para o cabeludo Cucurella que, por duas vezes, já para lá da meia hora, colocou a bola na pequena área para duas finalizações perdulárias de Ferran Torres, que pode invocar como atenuante a circunstância de, no primeiro lance, ter havido fora-de-jogo.
Quem não tem culpa nenhuma é Vozinha — o homem do jogo — que, aos 40 anos, recusou-se a fazer jus ao seu nome, com uma actuação consistente.
Na segunda parte, os campeões europeus voltaram com indicações claras para acelerar a circulação da bola e resolver a partida o quanto antes, mas essa intenção esbarrou na solidariedade defensiva dos Tubarões Azuis. Bastas vezes alguém deu o corpo ao manifesto e, quando tal não era possível, as mãozinhas de Vozinha mostraram-se manifestamente suficientes para evitar estragos.
Já em modo de desespero, De la Fuente lançou Yamal — de quem se diz não estar a 100 por cento — que, logo nas primeiras intervenções, injectou criatividade e imaginação, mas sem ser capaz de alterar o destino do jogo.
O Bu(d)dismo deu mesmo Cabo à Espanha, gerando uma Fúria que a Roja procurará, decerto, descarregar sobre o Uruguai e a Arábia Saudita. Para Cabo Verde, o céu passa a ser o limite.




