Por Amad Canda
Imbuído de confiança, Senegal subiu ao relvado do MetLife disposto a dar a vida para reviver as reminiscências de 24 anos atrás, quando os africanos, na altura liderados por Hadji Diouf, derrotaram o então campeão do mundo em Seul.
Os comandados de Pape Thiaw transformaram, ao longo dos primeiros 45 minutos, a constelação francesa numa equipa banal, tal foi a incapacidade de ter bola e, acima de tudo, de criar ocasiões flagrantes. O máximo que se viu foram dois ataques à profundidade, ambos neutralizados por recepções técnicas deficitárias por parte de Mbappé.
Mais do que à desinspiração, a improdutividade gaulesa deve, em abono da verdade, ser atribuída à excelente organização dos senegaleses em todos os momentos do jogo. Defensivamente, recuou os extremos – Sarr e Mané (este mais médio-ala do que propriamente extremo) – em apoio aos laterais, reduzindo drasticamente as hipóteses de Olise e Désiré Doué surgirem em situações de 1×1.
Já no plano ofensivo, beneficiou sobremaneira das conduções de Diatta, quase sempre de fora para dentro, e, sobretudo, da clarividência de Pape Gueye, o herói da final da CAN 2026. Digno de registo foi também a actuação de Malick Diouf, dono do lançamento que, aos 24 minutos, só não resultou em golo porque Mike Maignan fez uma defesa cuja explicação só pode ser encontrada no domínio da metafísica.
O intervalo de publicidade, convenientemente apelidado de “pausa para hidratação”, ainda serviu para dar alguma iniciativa aos franceses, mas esta não apenas foi efémera como, sobretudo, se revelou estéril, num contexto de absoluta incapacidade de geração de vantagens numéricas e situacionais pelas alas, o que em parte se deveu ao conservadorismo de Jules Koundé e Theo Hernández.
Em bom rigor, quem visse os primeiros 45 minutos sem estar familiarizado com os jogadores facilmente se poderia convencer de que a selecção vice-campeã do mundo estava vestida de branco, dado o ascendente senegalês que só não se converteu em vantagem no marcador porque Ismaila Sarr decidiu, já nos instantes finais, imitar Ferran Torres e desperdiçar uma oportunidade soberana de golo.
Com o jogo empatado, os franceses foram para os balneários com o orgulho ferido e, no regresso para a segunda parte, mostraram que um simples galo pode ferir um leão. Não se puseram em bicos dos pés. Pelo contrário, puseram os bicos do galo a caçar os pés dos senegaleses, somando, grão a grão, confiança a cada bola recuperada no sector nevrálgico.
A agressividade de Rabiot era imediatamente adornada pela subtileza e visão de Michel Olise, que finalmente começava a flutuar em campo. Numa primeira fase, encarregou-se ele próprio de procurar o golo, sendo travado por Mendy. Entretanto, acabaria por ser mais feliz como garçom, servindo Mbappé, em diagonal, para abrir o marcador, aos 66 minutos. Quase 20 minutos depois, era a vez de Rabiot, também em diagonal, oferecer o golo ao recém-entrado Barcola.
Se Deus escreve certo em linhas tortas, Didier Deschamps fê-lo em linhas diagonais, não tivesse o bis de Mbappé sido precedido por um passe no mesmo registo – embora curto – com a assinatura de Olise.
Com o segundo golo – um remate do meio da rua que serviu para decapitar a esperança que Mbaye tentou manter viva aos 90+5 –, o capitão tornou-se o maior goleador da história da selecção francesa, com 58 golos, quebrando o recorde de Olivier Giroud (57).



