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EM INHAMBANE: CITTAs de Mapinhane e Chichocane continuam abandonados

Construídos para impulsionar a produção de gergelim e milho em grande escala, os Centros Integrados de Transferência de Tecnologia Agrária de Mapinhane e Chichocane, no Distrito de Vilankulo, Província de Inhambane, são hoje monumentos ao abandono. As infra-estruturas, inauguradas com pompa em Junho de 2024 pelo então Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, apodrecem sob o silêncio cúmplice das autoridades governamentais que pouco ou nada fazem para aproveitá-las.

Texto: Anstácio Chirrute, em Inhambane

Volvidos pouco mais de dois anos após a inauguração, os Centros Integrados de Transferência de Tecnologias Agrárias (CITTA) ainda não cumpriram o propósito para o qual foram criados. Erguidos para modernizar a agricultura, introduzir mecanização e reduzir as perdas póscolheita, os centros transformaramse em elefantes brancos. Portões fechados, máquinas paradas, campos vazios. O sonho de valorizar a produção familiar foi enterrado antes mesmo de germinar.

O projecto, anunciado como de extrema importância para mudar a situação económica de centenas de agricultores, previa complexos voltados à introdução de tecnologias agrárias, mecanização e processamento local de culturas. Era a estratégia oficial para acabar com a fome e com o desperdício. No entanto, tende a virar poeira…e sucata.

Apesar de reconhecer o problema, o director do Serviço Distrital de Actividades Económicas de Vilankulo, Eusébio Jorge Almoço, desdramatiza, garantindo que as infra-estruturas “estão a ser usadas para o fim para o qual foram construídas”.

O responsável acrescentou ainda que a unidade de Mapinhane preparou uma área específica para a produção de gergelim nesta campanha. Para a próxima época agrícola, a expectativa é avançar com o cultivo de milho, que deverá ser processado nas instalações do próprio centro.

“A localidade de Chichocane foi concessionada a uma empresa denominada SEPA, que, neste momento, está a produzir hortícolas em estufas e não só. Também apoia as comunidades na preparação da terra, isto é, na lavoura e gradagem. O Centro Integrado de Mapinhane já está em funcionamento e será gerido pela mesma empresa que está a gerir o regadio de Chimunda”.

Sobre o suposto abandono do equipamento agrícola, Jorge Almoço refutou a informação. Afirmou que as máquinas “estão sim a ser usadas para lavoura em vários campos agrícolas existentes ao redor dos centros”.

Discurso oficial contrasta com a realidade

No terreno, o discurso oficial contra a realidade nua e crua. O que se vê são armazéns vazios, tractores cobertos de capim e agricultores entregues à enxada e à sorte. A promessa de uma nova lógica agrária definha a cada época perdida.

A nossa equipa de reportagem deslocou-se ao Centro Integrado de Transferência de Tecnologia Agrária de Chichocane para apurar a veracidade dos factos. No terreno, o cenário encontrado é absolutamente desolador — uma imagem que mais parece saída de um filme de terror.

Infra-estruturas que custaram somas avultadas ao Estado jazem agora inoperacionais, abandonadas à sua própria sorte, como esqueletos de um sonho esquecido. O silêncio do abandono domina o local, que é, aos poucos, engolido pelo capim alto. Por entre a vegetação selvagem, ratos, cobras e outros animais já reclamaram o espaço como seu território, transformando um centro de esperança em um retrato do descaso.

A população local, ouvida pela nossa equipa de reportagem, está mergulhada na incerteza. Ninguém sabe explicar por que razão o Governo abandonou aquelas infraestruturas, anunciadas como vitais para a comunidade e para a província de Inhambane.

Ângela Vilanculos vive nas proximidades de um dos centros. Recorda-se do dia em que o projecto foi desenhado, encheu-se de alegria, acreditou que, desta vez, a juventude da sua comunidade teria finalmente uma oportunidade de emprego. O Centro foi inaugurado com festa e discursos. Depois, o silêncio. Nunca mais entrou em funcionamento. Ninguém voltou para explicar o que falhou.

“Estamos muito preocupados com esta demora. Queremos ver os nossos jovens a trabalhar, não a perderemse nas bebedeiras e no mundo do crime. Queremos vê-los ocupados, a fazer algo útil para a família e para o país”, desabafa Ângela, com a voz embargada pela frustração.

Ao contrário do centro de Chichocane, que definha no esquecimento, no Centro Integrado de Mapinhane ainda pulsa um fio de vida. No terreno, resistem agricultores. De enxada na mão, trabalham a terra e tentam aproveitar as poucas tecnologias que restam para não deixar a agricultura morrer. É uma teimosia heroica contra o abandono.

No meio do cemitério de projectos, Mapinhane resiste. Diferente do seu irmão gémeo em Chichocane, ali ainda se vê gente na machamba. Agricultores teimosos desafiam o abandono, cavam a terra e espremem as últimas gotas de tecnologia que sobraram. Plantam milho e esperança num chão que o Governo parece ter esquecido.

Se o gergelim e o milho previstos para as próximas épocas saírem do campo para a unidade de processamento, Vilankulo poderá registar o início de uma nova revolução agrícola. Caso contrário, as infraestruturas transformase-ão em memórias amargas de uma inauguração que prometeu futuro e entregou esquecimento

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