Apesar dos avanços registados na digitalização da economia e da crescente aposta do Governo na transformação digital, a baixa literacia digital continua a ser um dos principais obstáculos à adopção tecnológica em Moçambique. A avaliação é da especialista em estratégia empresarial e transformação digital, Matilde Rungo, fundadora da Ragro Tech Advisory, que considera que o País precisa de investir não apenas em infra-estruturas tecnológicas, mas também na capacitação das pessoas, para que possam tirar pleno proveito das ferramentas digitais.
Texto: Clara Mulima
E m entrevista ao Dossiers & Factos, Matilde Rungo afirma que a transformação digital é um processo permanente e em constante evolução, exigindo das empresas, das instituições públicas e dos cidadãos uma capacidade contínua de adaptação. “A tecnologia evolui todos os dias.
O grande desafio já não é apenas ter acesso às ferramentas digitais, mas garantir que as pessoas saibam utilizá-las para gerar valor económico, resolver problemas e aumentar a produtividade”, afirma.
A empresária explica que foi precisamente a identificação desta realidade que motivou a criação, em 2024, da Ragro Tech Advisory, uma consultora especializada em transformação digital sustentável. Segundo explica, a empresa nasceu da experiência acumulada ao longo de cerca de 19 anos de consultoria em gestão e transformação digital, período durante o qual percebeu que vários sectores da economia nacional evoluíam abaixo do seu potencial por não conseguirem acompanhar o ritmo da inovação tecnológica.
“Durante a minha carreira fui percebendo que existiam sectores que permaneciam praticamente à margem da transformação digital. Um dos casos mais evidentes era o sector agrário, que possui um enorme potencial económico, mas cujo grau de adopção de soluções tecnológicas ainda é muito reduzido”, explica, acrescentando que esta constatação levou-a a fazer uma análise mais aprofundada, que lhe permitiu identificar a baixa literacia digital como uma das maiores barreiras à modernização das empresas.
Uma questão de mentalidade
Matilde Rungo está ciente de que a mentalidade dominante em muitas empresas continua a ser essencialmente analógica, o que leva muitos empresários a encararem os investimentos tecnológicos como um custo adicional e não como uma aposta estratégica para o crescimento.
É precisamente esta barreira que a empreendedora pretende ajudar a ultrapassar através da Ragro Tech Advisory, que se apresenta como uma consultora dedicada à integração entre tecnologia, economia circular e impacto social, tendo como missão democratizar o acesso às tecnologias digitais sustentáveis e apoiar a criação de negócios mais resilientes e competitivos.
Mas a mentalidade analógica não é o único problema, reconhece Matilde Rungo, que, ao longo da sua vasta experiência, também viu muitas empresas desistirem dos processos de digitalização devido à escassez de recursos financeiros.
“Foi exactamente por isso que decidimos desenvolver soluções digitais sustentáveis e adaptadas à realidade das empresas moçambicanas”, conta a consultora, defensora de uma implementação gradual das soluções tecnológicas, sempre em linha com a evolução dos próprios negócios. De resto, a Ragro Tech Advisory é exemplo desse gradualismo.
A empresa foi criada com recursos próprios, cujo capital inicial permitiu estruturar a organização, equipar o escritório e iniciar as actividades operacionais. Só posteriormente beneficiou de apoio institucional, nomeadamente da Tony Elumelu Foundation (TEF), que facilitou a aquisição de mais equipamentos e a contratação dos primeiros colaboradores.
Apesar das dificuldades normalmente associadas ao empreendedorismo, Matilde Rungo considera que conseguiu minimizar muitos desafios graças à experiência profissional acumulada ao longo da carreira. “Os primeiros anos não foram tão difíceis porque eu já trazia quase duas décadas de experiência em consultoria. Isso permitiu-me desenhar uma estratégia de crescimento muito estruturada.”
Ainda assim, reconhece que os desafios financeiros aumentam à medida que a empresa cresce, à semelhança do que acontece com tantas startups moçambicanas.
“À medida que a empresa cresce, as responsabilidades aumentam. Já não basta contar apenas com estagiários. É necessário criar equipas permanentes, investir em talento e garantir sustentabilidade financeira”, explica.
De olhos postos no topo de África
Não obstante as dificuldades, Matilde Rungo projecta o futuro com optimismo e ambição. Um dos seus objectivos é posicionar a Ragro Tech Advisory entre as principais empresas africanas de consultoria em transformação digital e inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento económico.
Segundo explicou, o objectivo não passa apenas pela implementação de tecnologias, mas também por ajudar instituições públicas, empresas privadas e organizações sociais a tornarem-se mais eficientes, produtivas e competitivas.
Entre os projectos estratégicos actualmente em desenvolvimento destaca-se a plataforma AgroTech, considerada pela empresária uma das iniciativas mais ambiciosas da empresa.
Trata-se de uma plataforma digital destinada a integrar produtores agrícolas, compradores, instituições financeiras, operadores logísticos e sistemas de informação numa única solução tecnológica. O objectivo é resolver um dos maiores problemas do sector agrícola moçambicano: a fragmentação da informação e das cadeias de comercialização.
Nos próximos cinco anos, a empresa pretende igualmente desenvolver soluções próprias baseadas em inteligência artificial, expandir as operações para outras províncias moçambicanas e iniciar actividades em mercados africanos de língua portuguesa.
De acordo com a empreendedora, a Ragro Tech Advisory já iniciou contactos empresariais com organizações da Nigéria, país onde participou recentemente em eventos internacionais ligados à inovação e à transformação digital. Essa participação permitiu aumentar a visibilidade internacional da empresa e abrir novas oportunidades de cooperação.
Um talento, um negócio; um talento, uma empresa
Paralelamente à actividade empresarial, Matilde Rungo desenvolve um intenso trabalho de mentoria de jovens empreendedores. Através de programas de formação, procura ajudá-los a identificar talentos, desenvolver competências e transformar capacidades individuais em oportunidades de negócio, sob o lema “Um talento, um negócio; um talento, uma empresa.”
Na sua visão, cada pessoa possui talentos que podem ser transformados em soluções empresariais quando combinados com conhecimento, disciplina e acompanhamento adequado. Por isso, incentiva os jovens a procurarem mentores, alargarem as suas redes de contactos e investirem continuamente na aprendizagem.
“Não é preciso esperar pelo momento perfeito, porque esse momento dificilmente chega. É preciso dar o primeiro passo, aprender durante o percurso e ter coragem para construir algo que transforme vidas”, sustenta a empresária, para quem África possui um enorme potencial humano e tecnológico, que só será plenamente aproveitado se houver um investimento consistente em educação digital, inovação e empreendedorismo.
Com um portfólio que inclui importantes trabalhos virados para a promoção da cibersegurança, da inteligência artificial, da inovação sustentável e da capacitação de jovens e mulheres, Matilde Rungo acredita que a construção de uma economia digital inclusiva dependerá menos da tecnologia disponível e mais da capacidade das pessoas para compreender, adoptar e utilizar essas ferramentas de forma estratégica.
“A transformação digital começa nas pessoas. Sem literacia digital, qualquer investimento tecnológico terá sempre um impacto limitado”, conclui.




