– Moçambique destacado como plataforma estratégica para minerais críticos e logística
Moçambique afirma-se como um dos principais pólos estratégicos da nova indústria mineira africana, ao ser identificado como um dos países-chave para o fornecimento de minerais críticos e para a integração logística regional no mais recente Compendium of Africa’s Strategic Minerals 2026, elaborado pela Africa Finance Corporation (AFC). O estudo, a que o Dossier Económico teve acesso, conclui que o País reúne condições para desempenhar um papel determinante na estratégia continental de industrialização, benefício mineral e desenvolvimento de cadeias regionais de valor, graças às suas reservas de grafite, areias minerais e à sua posição geográfica privilegiada.
Texto: Milton Zunguze
Segundo a AFC, África possui um património mineral inexplorado avaliado em cerca de 8,6 biliões de dólares, valor equivalente a aproximadamente duas vezes e meia o Produto Interno Bruto (PIB) anual do continente. Porém, o verdadeiro desafio já não reside na descoberta de novos recursos, mas na capacidade de os transformar em riqueza através do processamento industrial, do investimento em infraestruturas e da integração económica regional.
É neste contexto que Moçambique surge entre os países com maior potencial para beneficiar da crescente procura mundial por minerais essenciais à transição energética.
Entre os destaques do relatório figura o grafite, mineral em que Moçambique ocupa uma posição de relevo graças à mina de Balama, na província de Cabo Delgado, considerada uma das maiores operações de grafite natural de elevada qualidade do mundo.
De acordo com a AFC, este empreendimento transformou Moçambique num fornecedor estratégico da principal cadeia de abastecimento de grafite natural e de materiais para ânodos fora da China, insumo indispensável para o fabrico de baterias destinadas a veículos eléctricos e sistemas de armazenamento de energia.
A instituição considera que esta posição representa uma oportunidade rara para o País abandonar o modelo assente na exportação de matéria-prima e avançar para actividades industriais de maior valor acrescentado.
Segundo o relatório, a transformação dos minerais em território africano poderá multiplicar significativamente os benefícios económicos gerados pelos recursos naturais, criando emprego qualificado, aumentando as receitas fiscais e fortalecendo a capacidade industrial dos países.
A AFC defende que a simples exportação de minério bruto impede os países africanos de captarem a maior parte da riqueza gerada ao longo das cadeias globais de valor.
Na sua perspectiva, o futuro da mineração africana passa pela criação de uma indústria regional baseada no processamento local, na inovação tecnológica e na integração logística.
Além do grafite, Moçambique integra igualmente o grupo de países estratégicos na produção de minerais pesados e areias minerais, utilizados pelas indústrias aeronáuticas, tecnológicas, energéticas e da construção.
Corredores logísticos vistos como motor da industrialização
O relatório atribui particular importância ao Corredor Logístico de Nacala, identificado como uma das infra-estruturas ferroviárias com maior potencial para impulsionar a integração económica da África Austral.
A AFC recomenda a expansão da ferrovia através de novas ligações à Zâmbia, Malawi, Zimbabwe e outras economias da região, permitindo converter o actual corredor de exportação numa plataforma regional destinada ao escoamento, processamento e industrialização de minerais provenientes de vários países.
Na avaliação da instituição, esta evolução reduzirá os custos logísticos, aumentará a competitividade das operações mineiras e estimulará o investimento industrial ao longo do corredor.
Embora reconheça que muitos portos africanos continuam orientados essencialmente para a exportação de matérias-primas, a AFC considera que infra-estruturas como o Porto de Maputo possuem condições para evoluir para verdadeiras plataformas industriais, desde que sejam acompanhadas por investimentos em energia, zonas industriais e ligações ferroviárias eficientes.
Para a instituição financeira, os portos africanos devem deixar de funcionar apenas como pontos de embarque de minério bruto e assumir um papel central nas cadeias regionais de processamento mineral.
Activos estratégicos para atrair investimento
O estudo inclui igualmente Moçambique entre os países africanos que concentram activos minerais prioritários para futuros investimentos internacionais.
Na avaliação da AFC, os depósitos moçambicanos de grafite figuram entre os activos de maior qualidade do continente e têm capacidade para atrair investimentos de longo prazo destinados ao desenvolvimento das novas cadeias industriais ligadas à transição energética global.
Os autores sustentam que África dispõe de condições únicas para ocupar uma posição central na economia mundial, desde que consiga agregar valor aos seus recursos antes da exportação.
Actualmente, observa-se no documento que muitos países africanos exportam minério bruto e acabam por importar produtos industrializados produzidos a partir desses mesmos recursos, como aço, fertilizantes, componentes electrónicos e materiais utilizados nas energias renováveis.
Para inverter este cenário, a AFC recomenda que os governos africanos apostem simultaneamente na expansão da produção energética, na modernização dos caminhos de ferro, dos portos e das zonas industriais, bem como no reforço das políticas de integração regional.
Oportunidade na transição energética
O relatório destaca ainda que Moçambique integra um grupo restrito de países africanos que já conquistaram posições relevantes nas novas cadeias globais de minerais estratégicos.
Enquanto Angola aposta na instalação da primeira refinaria africana de terras raras e a África do Sul desenvolve projectos de manganês destinados ao fabrico de baterias, Moçambique destacase pelo fornecimento de grafite natural utilizado na produção de materiais para baterias, um mercado cuja procura deverá crescer significativamente nas próximas décadas, impulsionada pela expansão da mobilidade eléctrica e das energias renováveis.
Segundo a AFC, este posicionamento poderá traduzirse numa vantagem competitiva de grande relevância, desde que o País consiga desenvolver capacidade local de processamento e beneficiamento mineral.
O estudo conclui que África apresenta actualmente algumas das mais baixas taxas mundiais de consumo de energia, utilização de aço e aplicação de fertilizantes, indicadores que revelam um elevado potencial de crescimento económico.
Esse crescimento deverá traduzir-se numa procura cada vez maior por minerais destinados às infra-estruturas, construção civil, agricultura, tecnologias digitais, equipamentos industriais e produção de energia — sectores em que Moçambique dispõe de recursos abundantes e de vantagens competitivas para se afirmar como um dos principais centros mineiros e logísticos do continente




