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EM VILANKULO: Operadores turísticos e pescadores rejeitam pesquisas sísmicas

Operadores turísticos e pescadores do distrito de Vilankulo, na província de Inhambane, manifestaram a sua oposição à realização de pesquisas sísmicas previstas para a baía, por considerarem que a actividade poderá afectar gravemente a biodiversidade marinha e comprometer o turismo, principal motor económico da região. O projecto, promovido pelo Instituto Nacional de Petróleos (INP), encontra-se actualmente na fase de auscultação pública. Caso obtenha parecer favorável das comunidades, os trabalhos deverão arrancar no início do próximo ano e prolongar-se por cerca de quatro meses.

Texto: Anastácio Chirrute, em Inhambane

O anúncio da realização dos estudos gerou um ambiente de apreensão entre empresários do sector turístico e pescadores, que receiam perder a principal fonte de rendimento caso as pesquisas avancem.

Jacinta Albino, operadora turística, considera que os impactos poderão ser devastadores para o turismo.

“Nenhum turista vai querer visitar este distrito para fazer turismo com o barulho das explosões no mar e sem baleias, golfinhos e peixes.” A empresária questiona ainda qual é a visão do Governo para Vilankulo.

“O que se pretende para Vilankulo? Torná-la capital do turismo ou capital da pesquisa? Nós, como residentes, temos o direito de saber mais sobre este assunto. Estas reuniões devem envolver todas as forças vivas da sociedade, incluindo pescadores, operadores turísticos e a população.”

Segundo a operadora, as comunidades continuam sem perceber quais serão os benefícios concretos do projecto. “Disseram-nos que foi o Governo quem autorizou estas pesquisas, mas o Governo não está aqui representado para responder às nossas preocupações.”

 Durante mais uma sessão de auscultação pública, operadores turísticos e pescadores reiteraram a sua rejeição ao projecto, alegando que a economia local depende directamente dos recursos marinhos e do turismo de natureza.

Valdo Macuácua, também operador turístico, recordou experiências anteriores que, segundo afirma, tiveram efeitos negativos sobre os ecossistemas marinhos.

“Aqui em Vilankulo é possível observar baleias e golfinhos, e isso não foi fácil de conseguir. Há anos veio uma embarcação realizar trabalhos semelhantes e deixámos de encontrar caranguejo. Se este barco voltar para fazer pesquisas, o turismo e os recursos marinhos vão desaparecer.”

Para os pescadores, a preocupação centra-se na sobrevivência das famílias que dependem diariamente da pesca artesanal.

“Como vai ficar a vida dos pescadores depois destas explosões? E quando os problemas surgirem, já não encontraremos os responsáveis por estas pesquisas para responderem pelas consequências. Como irão sobreviver as estâncias turísticas sem turistas?”, questionou.

Os participantes criticaram igualmente a ausência de representantes do Governo nas sessões de consulta pública, alegando que isso impede um esclarecimento directo das dúvidas levantadas pelas comunidades.

“Nas próximas reuniões deixaremos de assinar as listas de presença. Há anos que dizemos ‘não’ a estas pesquisas. Se este projecto trouxesse benefícios para as comunidades, já teria sido acolhido pela população.”

Impactos ambientais e económicos preocupam sector Outra das preocupações apresentadas durante a reunião prende-se com os possíveis impactos ambientais.

A gestora hoteleira Ângela Franlin alertou que o Estudo de Impacto Ambiental não reflecte devidamente a riqueza da biodiversidade existente na baía de Vilankulo.

Segundo explicou, nos últimos meses foram observadas baleias e identificadas áreas de reprodução de tartarugas marinhas, além da presença de jamantas e outras espécies de elevado valor ecológico que, afirma, não são devidamente consideradas no estudo.

“Não existe clareza sobre todas as espécies abrangidas pela avaliação ambiental e não vejo qualquer janela adequada para a realização destas pesquisas ao longo do ano.”

A especialista considera igualmente que o estudo não avalia os impactos económicos sobre o turismo.

“Existem empreendimentos turísticos com mais de 80 trabalhadores e uma taxa média anual de ocupação de cerca de 65%. Se estas pesquisas avançarem e abrirem caminho para a indústria extractiva, qual será a mitigação para os negócios? Se desaparecerem os dugongos, tubarões, baleias e outros animais que atraem turistas, quem compensará as perdas? O estudo não responde a estas questões.”

Como funcionam as pesquisas sísmicas

As pesquisas sísmicas são estudos realizados pelas indústrias petrolífera e do gás para identificar a existência de hidrocarbonetos no subsolo ou no fundo do mar antes da perfuração.

No mar, embarcações especializadas rebocam cabos equipados com sensores e libertam sucessivos impulsos de ar comprimido de elevada intensidade sonora. As ondas propagam-se até ao fundo marinho, reflectem-se nas diferentes camadas geológicas e regressam aos sensores, permitindo a produção de imagens tridimensionais do subsolo.

Segundo especialistas, estes impulsos sonoros podem atingir níveis muito elevados de intensidade, suficientes para alterar o comportamento de espécies marinhas como baleias, golfinhos, tartarugas, dugongos e diversas espécies de peixes, razão pela qual operadores turísticos e pescadores receiam consequências para a biodiversidade e para a actividade económica da região.

Caso as comunidades venham a dar parecer favorável, o INP prevê que as pesquisas sísmicas tenham início no primeiro trimestre do próximo ano, com uma duração estimada de quatro meses. Entretanto, os operadores turísticos e pescadores garantem que continuarão a manifestar a sua oposição ao projecto, defendendo que o turismo sustentável representa uma aposta mais segura para o desenvolvimento de Vilankulo.

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