O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou, há dias, a sua mais recente actualização das Perspectivas para a Economia Mundial (World Economic Outlook), traçando um panorama de uma economia global a navegar entre dois grandes vectores opostos: o impacto negativo da guerra no Médio Oriente e o impulso positivo do ciclo tecnológico impulsionado pela inteligência artificial (IA). Em termos gerais, o organismo reviu em baixa as perspectivas de crescimento económico mundial, mas prevê crescimento estável para a África Subsaariana.
Texto: Amad Canda
Para a economia mundial, o FMI projecta um crescimento de 3,0% em 2026 e 3,4% em 2027, números que representam uma desaceleração face à média de 3,5% observada no biénio 2024-2025. Esta leve quebra deve-se, em grande parte, aos efeitos do conflito no Médio Oriente, que são parcialmente contrabalançados pelo dinamismo da procura no sector tecnológico.
No que concerne à África Subsaariana, as projecções do FMI apontam para uma estabilidade, com um crescimento previsto de 4,3% em 2026 e 4,5% em 2027. Contudo, a instituição adverte que estes números agregados escondem “divergências substanciais entre os países”, que reflectem diferenças no espaço para manobra de políticas, na implementação de reformas e na exposição a choques externos.
O fardo da energia e dos alimentos
O relatório do FMI é particularmente incisivo ao analisar os desafios enfrentados pelas economias mais vulneráveis da região. A instituição salienta que os países importadores de petróleo e com uma participação limitada na cadeia de valor tecnológica, um grupo onde se incluem muitas economias de baixo rendimento, serão os mais afectados pelo aumento dos preços da energia e dos alimentos.
Este cenário é agravado pela estagnação da tendência de desinflação que se verificava desde o início de 2024. O FMI projecta que a inflação global suba de 4,1% em 2025 para 4,7% em 2026, impulsionada pelo encarecimento da energia e dos produtos alimentares. Estes factores, conjugados com a redução da assistência oficial para o desenvolvimento, criam um ambiente particularmente adverso para a região.
Nigéria: entre a estabilidade e o agravamento da pobreza
A Nigéria, a maior economia da região, serve como exemplo desta dicotomia. O FMI manteve a sua previsão de crescimento para o país em 4,1% para 2026 e 4,3% para 2027, justificando esta resiliência com a “melhoria da estabilidade macroeconómica e os efeitos favoráveis dos termos de troca”.
No entanto, o alerta do FMI é sombrio: o crescimento económico poderá ser insuficiente para travar os efeitos nefastos da inflação. A instituição sublinha que os preços mais elevados dos bens de primeira necessidade deverão “agravar ainda mais a pobreza e a insegurança alimentar” no país. Este aviso demonstra que os ganhos macroeconómicos podem não se traduzir em melhorias nas condições de vida da população mais vulnerável.
Moçambique e os desafios da resiliência
Embora não haja uma menção directa a Moçambique no relatório do FMI , o diagnóstico geral traçado para a África Subsaariana aplica-se com particular acuidade à realidade do país.
Enquanto economia que, sendo um produtor de gás natural, ainda se encontra numa fase de desenvolvimento da sua indústria extractiva e é fortemente dependente de importações de bens essenciais, Moçambique encontra-se vulnerável a vários dos riscos identificados pelo FMI. O aumento do preço dos combustíveis e dos alimentos importados exerce uma pressão directa sobre a inflação e sobre o orçamento das famílias, podendo exacerbar os níveis de pobreza.
O relatório do FMI realça a necessidade de “reformas estruturais que promovam a segurança energética, a preparação face à IA, o reequilíbrio interno e a cooperação internacional”. Para Moçambique, esta recomendação traduz-se na urgência de acelerar os projectos de gás natural para garantir receitas e segurança energética, diversificar a economia para reduzir a dependência externa e construir resiliência fiscal para enfrentar choques futuros.
Riscos e o caminho a seguir
O FMI adverte que os riscos para as perspectivas globais estão inclinados para o lado negativo, destacando a possibilidade de uma escalada do conflito no Médio Oriente, o que provocaria nova volatilidade nos preços das matérias-primas e perturbações nas cadeias de abastecimento, com impacto severo na segurança alimentar dos países de baixo rendimento, particularmente na Ásia do Sul e na África Subsaariana.
A instituição defende, como prioridade para as economias afectadas, o restabelecimento da estabilidade de preços, a reconstituição de margens fiscais e a implementação de políticas de apoio temporário e focalizado para os agregados familiares mais vulneráveis, em vez de subsídios generalizados, que são dispendiosos e distorcem os sinais de preços.
A aposta em reformas estruturais que preparem os países para a economia digital e garantam a segurança energética é também considerada essencial para um crescimento mais sustentável e inclusivo.




