Cerca de dois milhões de moçambicanos poderão necessitar de assistência alimentar entre Dezembro deste ano e Janeiro de 2027, devido ao agravamento da insegurança alimentar provocado pelo conflito armado no Norte, pelos efeitos das cheias e da seca que marcaram a última campanha agrícola e pela previsão de um novo período de condições climáticas adversas associadas ao fenómeno El Niño. A projecção consta do mais recente relatório da FEWS NET (Famine Early Warning Systems Network), que estima que entre 1,5 e 1,99 milhões de pessoas venham a precisar de ajuda alimentar durante esse período.
Texto: Arton Macie
Segundo a organização, o País atravessa uma crise alimentar alimentada por factores que se reforçam mutuamente e que reduziram drasticamente a capacidade de milhares de famílias produzirem ou adquirirem alimentos.
Nas províncias de Cabo Delgado e no Norte de Nampula, o conflito continua a impedir o regresso à normalidade, mesmo durante a época das colheitas. Os deslocamentos populacionais e as restrições de acesso às machambas e aos mercados, provocados pelos ataques de grupos armados, dificultaram o funcionamento normal das economias locais.
Embora algumas zonas estejam actualmente em período de colheita, muitas famílias continuam sem produção suficiente para satisfazer as suas necessidades alimentares, sobrevivendo graças à assistência humanitária, a pequenos negócios ocasionais, ao apoio de familiares e à adopção de estratégias de sobrevivência, como a redução da quantidade e do número de refeições diárias.
O relatório assinala que o conflito voltou a intensificar-se entre Abril e Junho deste ano, sobretudo nos distritos de Nangade e Macomia, alastrando depois para Chiúre, Ancuabe e zonas do nordeste de Montepuez. Só até meados de Junho, mais de 23 mil pessoas tinham sido obrigadas a abandonar as suas casas devido aos ataques, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações, situação que agravou ainda mais as dificuldades de acesso à produção agrícola.
A FEWS NET considera que esta instabilidade continuará a marcar a evolução da segurança alimentar pelo menos até Janeiro de 2027, prevendo novos deslocamentos populacionais e a manutenção das limitações de acesso às terras agrícolas e aos mercados.
Cheias e secas comprometem recuperação agrícola
Se o Norte continua condicionado pela guerra, o Sul e parte da região Centro enfrentam as consequências de uma campanha agrícola profundamente afectada por fenómenos climáticos extremos. As cheias de Janeiro, seguidas por períodos prolongados de seca entre Fevereiro e Março, destruíram culturas numa fase crítica do seu desenvolvimento, comprometendo a principal colheita do ano.
Segundo o relatório, mais de 700 mil pessoas foram afectadas pelas inundações, cerca de 440 mil hectares de terras agrícolas sofreram danos e muitos agregados familiares perderam culturas, animais e outras fontes de rendimento. Em várias zonas, a recuperação foi atrasada pela permanência da água nos campos, pela degradação dos solos e pela dificuldade de acesso a sementes, factores que adiaram a segunda época agrícola e reduziram o seu potencial produtivo.
Apesar deste cenário, a FEWS NET prevê uma melhoria temporária das condições de segurança alimentar entre Julho e Setembro. A colheita de hortícolas da segunda época agrícola, favorecida pela humidade residual deixada pelas cheias e pela distribuição de sementes em algumas zonas afectadas, deverá proporcionar algum alívio às famílias mais vulneráveis.
Esse aumento temporário da disponibilidade de alimentos, aliado aos rendimentos sazonais provenientes do trabalho agrícola e da venda de excedentes, permitirá que várias áreas passem da fase de Crise (IPC 3) para a fase de Stress (IPC 2).
El Niño ameaça inverter melhoria temporária
É a partir de Outubro que o relatório antecipa um novo agravamento da situação. Com o esgotamento das reservas alimentares, as famílias voltarão a depender dos mercados para adquirir alimentos, numa altura em que os preços deverão manter-se elevados e os rendimentos permanecerão abaixo do habitual. A FEWS NET prevê, por isso, que vários distritos do Sul e do Centro regressem à fase de Crise (IPC 3) durante o período de escassez, entre Outubro e Janeiro, enquanto, nas zonas afectadas pelo conflito no Norte, a crise alimentar deverá persistir ao longo de todo o período analisado.
Para muitas famílias, isso significará voltar a recorrer a estratégias negativas de sobrevivência, como reduzir o tamanho das refeições, omitir refeições, consumir alimentos menos nutritivos, procurar alimentos silvestres, enviar membros da família para centros urbanos em busca de trabalho ou retirar crianças da escola quando deixarem de beneficiar dos programas de alimentação escolar.
As perspectivas climáticas também não favorecem uma recuperação. O relatório refere que o fenómeno El Niño já está em desenvolvimento e deverá prolongar-se, pelo menos, até Janeiro de 2027, aumentando a probabilidade de um início tardio da próxima época chuvosa, de precipitação abaixo da média e de temperaturas acima do normal, sobretudo nas regiões Sul e Centro.
A organização alerta que estas condições reduzirão as oportunidades de trabalho agrícola para os agregados mais pobres, atrasarão as novas sementeiras, limitarão a regeneração das pastagens e aumentarão a pressão sobre os recursos hídricos, comprometendo igualmente a produção pecuária e a disponibilidade de alimentos silvestres utilizados pelas comunidades durante o período de escassez.
Inflação reduz capacidade de compra das famílias
Ao mesmo tempo, o acesso aos alimentos deverá continuar condicionado pelo aumento do custo de vida. A FEWS NET observa que os preços do milho no Sul permanecem entre 25% e 60% acima da média dos últimos cinco anos, enquanto o arroz custa entre 20% e 40% mais do que o habitual. Em Maio, contrariando o comportamento normal da época, os preços do milho continuaram a subir, reflectindo a fraca disponibilidade da produção local.
A situação agravouse ainda mais com o aumento de 45% do preço do gasóleo e de 26% nas tarifas de transporte, factores que impulsionaram a inflação anual para 7,2%, o nível mais elevado desde Maio de 2023, encarecendo a distribuição dos alimentos e reduzindo ainda mais o poder de compra das famílias.
A assistência humanitária continua a desempenhar um papel importante para evitar um agravamento ainda maior da situação. Em Maio, cerca de 180 mil pessoas receberam ajuda alimentar, principalmente em Cabo Delgado e Gaza, enquanto as operações de resposta às cheias alcançaram aproximadamente 300 mil pessoas nas províncias de Maputo, Gaza e Sofala.
Ainda assim, a FEWS NET considera que a ajuda actualmente disponível não será suficiente para inverter a tendência de deterioração prevista para os próximos meses, estimando que entre 265 mil e 425 mil pessoas venham a receber assistência alimentar em Cabo Delgado até Janeiro de 2027.




