Por Amad Canda
Lionel Messi poderá fazer amanhã, 14 de Julho, o seu último jogo no Mundial de 2026, num confronto frente à Inglaterra, inédito no percurso do “10” ao serviço da selecção argentina. De resto, e a avaliar pelas paupérrimas exibições dos campeões em título nos oitavos e quartos-de-final, são elevadas as probabilidades de queda dos comandados de Lionel Scaloni.
Em bom rigor, até ao momento, a continuidade da albiceleste na prova deve-se, em larga medida, ao seu capitão, um verdadeiro oásis no deserto de criatividade da selecção sul-americana, em contraste com a imagem que a “Scaloneta” projectou ao longo dos últimos quatro anos.
A genialidade do génio argentino revela-se em cada gesto, a exemplo da magnífica recepção em contra-ataque que antecedeu o segundo golo diante da Áustria, apontado pelo próprio, depois de Julián Álvarez ter desperdiçado uma oportunidade perante o guarda-redes. Tratou-se — a referida recepção — de mais uma barbaridade produzida por aquele pé esquerdo, embora tenha passado despercebida, o que não surpreende num submundo formatado para valorizar apenas acções de maior notoriedade, nomeadamente golos e assistências.
Em razão dessa obsessão pelos números, alimentada por uma imprensa que trata um jogo de futebol como uma folha de Excel, tantas vezes vemos cepos elevados à categoria de craques e génios catalogados como banais.
Aliás, em função dos argumentos que habitualmente oiço e leio para justificar a atribuição da Bola de Ouro e do The Best da FIFA, quase sempre assentes na estatística, não tenho dúvidas de que Messi só não é catalogado como um jogador comum porque alia, de forma absolutamente excepcional, o lado “invisível” do jogo — o seu supremo QI futebolístico — aos números do Sofascore.
A gloriosa trajectória de Messi comprova-o, mas a prova derradeira é precisamente aquilo que o génio está a fazer nesta edição do Mundial. À entrada para as meias-finais, “La Pulga” lidera a Argentina em praticamente todos os parâmetros ofensivos relevantes. É o jogador com mais golos, assistências, passes-chave, dribles bem-sucedidos, oportunidades criadas, grandes oportunidades criadas e cruzamentos eficazes.
A título de comparação, os restantes semifinalistas apresentam um perfil bem mais “democrático” nestes indicadores. Na França, o melhor marcador é Mbappé, Olise lidera nas assistências, enquanto Barcola apresenta a maior taxa de dribles eficazes. Na Espanha, Oyarzabal é o homem-golo e Cucurella lidera em assistências. Escusado será dizer que os dribles mais eficazes têm a assinatura de Lamine Yamal. Finalmente, na Inglaterra, Kane e Bellingham repartem a liderança da lista de marcadores, enquanto Gordon e Saka são os principais assistentes, cabendo igualmente a Gordon o estatuto de melhor driblador.
Visto sob a lente da honestidade intelectual, este paralelismo conduz a um diagnóstico inequívoco: Messi é uma anomalia futebolística.
Se o futebol fosse um Estado, estaríamos perante a perfeita emulação de Luís XIV. Le football, c’est lui!
Curiosamente, repete-se até à exaustão que os argentinos jogam para Messi. Não é mentira, evidentemente. Mas o contrário é ainda mais verdadeiro.




