Moçambique registou um Índice de Emprego e Produtividade (IEP) de apenas 28,01 pontos no primeiro trimestre de 2026, um resultado que evidencia as fragilidades estruturais do mercado de trabalho e confirma que o crescimento económico continua a revelar pouca capacidade para gerar emprego produtivo e sustentável. Os dados foram apresentados esta quinta-feira, em Maputo, durante a primeira edição do FUNDEC Economic Outlook 2026, promovida pela Fundação para o Desenvolvimento da Competitividade Empresarial (FUNDEC), iniciativa que pretende criar um espaço permanente de monitoria da economia nacional com base em indicadores científicos.
Texto: Clara Mulima
O principal momento do encontro foi o lançamento da primeira edição do Índice de Emprego e Produtividade (IEP) e da segunda edição do Rating Empresarial e Financeiro (REF). Segundo a FUNDEC, ambos os instrumentos vêm colmatar uma lacuna na análise da economia moçambicana, ao permitirem acompanhar regularmente a evolução do emprego, da produtividade, do ambiente empresarial e das condições de financiamento.
Na abertura do evento, o presidente da FUNDEC, Agostinho Vumba, afirmou que o FUNDEC Economic Outlook pretende apoiar a formulação de políticas públicas e decisões empresariais através da produção de informação económica fiável.
“O País precisa de instrumentos capazes de interpretar a realidade económica e antecipar tendências, permitindo ao Governo, ao sector privado e aos investidores tomar decisões mais acertadas”, afirmou.
Emprego continua marcado pela informalidade
Ao apresentar os resultados do IEP, Vumba sublinhou que o indicador demonstra que o crescimento económico registado pelo país nos últimos anos não tem sido suficiente para melhorar a qualidade do emprego.
Segundo explicou, o mercado de trabalho continua caracterizado por elevados níveis de informalidade, baixa produtividade, reduzida absorção de mão-de-obra qualificada e concentração das actividades em sectores de baixo valor acrescentado.
“O principal desafio da economia já não é apenas criar postos de trabalho, mas assegurar que esses empregos sejam produtivos, formais e capazes de gerar rendimento, inovação e melhores condições de vida”, afirmou.
Para o presidente da FUNDEC, o desempenho económico não pode continuar a ser avaliado apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), uma vez que uma economia pode crescer sem criar empregos de qualidade.
O relatório identifica sete obstáculos que continuam a limitar o mercado laboral, nomeadamente a elevada informalidade, a fraca qualificação profissional, os baixos níveis de produtividade, a reduzida capacidade de inovação das empresas, um ambiente de negócios pouco favorável, a limitada industrialização e a escassa criação de emprego formal.
Vumba advertiu ainda que a incapacidade de gerar oportunidades de trabalho para a juventude constitui um risco para a estabilidade económica e social do país, ao favorecer fenómenos como a pobreza, a exclusão, a criminalidade e a violência.
Empresas enfrentam ambiente económico mais difícil
O FUNDEC Economic Outlook avaliou igualmente a evolução do ambiente empresarial através do Rating Empresarial e Financeiro (REF). O índice recuou de 46,64 pontos, registados em 2025, para 38,62 pontos no primeiro trimestre de 2026, reflectindo o agravamento das condições de funcionamento das empresas.
Segundo Agostinho Vumba, esta deterioração resulta da desaceleração da actividade económica, das dificuldades de acesso ao financiamento, dos elevados custos financeiros, da fraca dinâmica do investimento privado e da redução da confiança empresarial.
Apesar disso, o responsável reconheceu alguns sinais positivos, como a estabilização da inflação, a melhoria de alguns indicadores financeiros e um desempenho mais favorável do mercado de capitais. Contudo, advertiu que uma recuperação sustentada dependerá da implementação de reformas estruturais e da criação de melhores condições para o investimento privado.
Crédito continua insuficiente para dinamizar a economia
Na apresentação técnica do relatório, o economista-chefe da FUNDEC, Clésio Foia, afirmou que o tecido empresarial continua condicionado por um ambiente financeiro restritivo.
Segundo explicou, embora exista liquidez no sistema bancário, o crédito continua insuficiente para impulsionar a expansão do sector produtivo, devido às exigências de garantias por parte das instituições financeiras, que muitas pequenas e médias empresas não conseguem cumprir.
Foia destacou igualmente que sectores considerados estratégicos, como a agricultura e a indústria transformadora, continuam a absorver uma parcela reduzida do crédito bancário, ao contrário das actividades ligadas ao comércio, transportes e comunicações.
O relatório identifica ainda como principais constrangimentos as elevadas taxas de juro, a baixa mecanização dos processos produtivos, a reduzida adopção de tecnologias modernas, a limitada capacidade de investimento e capitalização das empresas e as dificuldades de acesso aos mercados financeiros.
Outro factor apontado como crítico prende-se com os atrasos do Estado no pagamento aos fornecedores e na devolução dos reembolsos do IVA, situação que, segundo o estudo, compromete a liquidez das empresas e limita a sua capacidade de crescimento.
FUNDEC defende reformas económicas
Face a este cenário, a FUNDEC recomenda a criação de mecanismos públicos de garantia parcial de crédito, o lançamento de linhas de financiamento dirigidas às cadeias de valor, sobretudo na agricultura e na indústria, o reforço do apoio às pequenas e médias empresas, a redução dos custos de contexto e da carga fiscal sobre o sector produtivo e o fortalecimento da política de conteúdo local.
A instituição defende igualmente reformas destinadas a melhorar os processos de certificação, normalização e competitividade das empresas nacionais, facilitando a sua integração nos grandes projectos de investimento, nomeadamente os ligados à indústria do gás.
Governo considera indicadores importantes para a governação
Na abertura do fórum, o ministro da Juventude e Desporto, Caifadine Manasse, considerou que os novos indicadores constituem instrumentos relevantes para a definição de políticas públicas, por permitirem acompanhar, com maior rigor, a evolução do emprego, da produtividade e do ambiente empresarial.
O governante recordou que mais de 450 mil jovens entram todos os anos no mercado de trabalho, tornando indispensável reforçar as políticas de criação de emprego, formação profissional, empreendedorismo e desenvolvimento de competências.
Segundo Manasse, o Executivo continuará a implementar reformas destinadas a melhorar o ambiente de negócios, simplificar procedimentos administrativos, promover a inclusão financeira e fortalecer as pequenas e médias empresas, reconhecidas como um dos principais motores da criação de emprego em Moçambique




