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A PARTIR DE BERLIM: “Novos ventos” sopram para os “Madgermanes”

– “A ideia é que possamos receber directamente o dinheiro nas nossas contas”

Depois de mais de três décadas de manifestações, promessas falhadas e sucessivos impasses, os antigos trabalhadores moçambicanos da extinta República Democrática Alemã (RDA), conhecidos como “Madgermanes”, acreditam que a sua longa luta poderá estar a entrar numa nova fase. A reabertura do dossier pelo Parlamento alemão, aliada ao envolvimento crescente de figuras políticas daquele país, alimenta a esperança de que as compensações reclamadas possam finalmente chegar directamente aos beneficiários.

Texto: Milton Zunguze

Em entrevista exclusiva ao Dossier Económico, o membro da direcção da Associação dos ex-Trabalhadores da Antiga República Democrática Alemã, Sérgio Daniel Sitoe, afirma que os sinais vindos de Berlim são os mais encorajadores dos últimos anos.

Segundo explica, o Parlamento alemão voltou a colocar o assunto na agenda política e as autoridades daquele país solicitaram à associação que procedesse ao recenseamento dos antigos trabalhadores, com vista à identificação dos potenciais beneficiários.

“Estamos a cadastrar porque o Parlamento alemão pediu. A ideia é que possamos receber directamente o dinheiro nas nossas contas”, afirmou. Para os “Madgermanes”, este pedido representa um passo concreto e um sinal de que a Alemanha poderá estar a preparar uma solução para um diferendo que se arrasta há mais de 36 anos.

O optimismo é reforçado pelo apoio público de responsáveis políticos alemães. Entre eles destaca-se a Comissária Federal para as Vítimas da Ditadura da RDA, Evelyn Zupke, que, segundo Sitoe, tem assumido um papel central na defesa da causa dos antigos trabalhadores moçambicanos.

“Nós sabemos que a Comissária Federal, Evelyn Zupke, carrega a nossa bandeira e luta incansavelmente pela nossa causa.”

Sitoe acrescenta que outras figuras da política alemã também se têm mostrado favoráveis ao pagamento das compensações, incluindo uma dirigente que poderá assumir funções de liderança após as próximas eleições.

“Uma coisa é a justiça e outra é a política. Em Setembro haverá eleições na Alemanha e, se ela vencer, será mais um ganho para nós. Tirando a senhora Zupke, que tem carregado a nossa causa às costas, essa outra senhora também pode ser uma dádiva de Deus.”

Confiança em Berlim, desconfiança em Maputo

Se os sinais provenientes da Alemanha são encarados com esperança, o mesmo não acontece em relação às autoridades moçambicanas.

Sérgio Daniel Sitoe lamenta que, apesar dos 36 anos de reivindicações, o Estado continue sem reconhecer as compensações reclamadas pelos antigos trabalhadores e critica o facto de o assunto ter ficado de fora do Diálogo Nacional Inclusivo.

“Estamos há 36 anos nesta luta. Mesmo nesse Diálogo Nacional Inclusivo não fomos incluídos. Mas isso já não nos surpreende. Esse diálogo é inclusivo apenas no nome.” Apesar da desconfiança, a associação voltou recentemente a procurar uma solução institucional em Moçambique.

Os “Madgermanes” entregaram uma carta ao Presidente da República, Daniel Chapo, que encaminhou o expediente ao Ministério do Trabalho, Género e Acção Social.

Sitoe diz ter encontrado abertura por parte da ministra Ivete Alane, com quem manteve um encontro considerado positivo.

“Ela foi muito simpática e tivemos uma boa conversa. Ficámos de apresentar os documentos que comprovam que trabalhámos na Alemanha naquela época.” Ainda assim, a experiência acumulada ao longo de mais de três décadas impede grandes expectativas.

“O Governo diz que o problema está resolvido, mas está resolvido à maneira deles. Nós confiávamos muito no Governo. Quando partimos, víamos nele um pai. Quando regressámos, encontrámos outra realidade.”

Na sua opinião, o contraste entre a postura das autoridades moçambicanas e a abertura demonstrada pelas instituições alemãs nunca foi tão evidente. “Graças a Deus, o Parlamento alemão já sabe de nós e está a mexer no assunto. Há coisas que ainda têm de permanecer em sigilo, mas de lá vêm bons ventos e isso deixa-nos felizes.”

Enquanto aguardam por desenvolvimentos, os “Madgermanes” garantem que continuarão a realizar as tradicionais marchas de quarta-feira, que se tornaram o principal símbolo da sua luta.

“Nós continuamos a marchar. É a nossa bandeira, a nossa força, a única arma que temos neste momento.”

Metade dos “Madgermanes” já morreu à espera de justiça

Apesar do renovado optimismo, Sérgio Daniel Sitoe recorda que o tempo continua a jogar contra os antigos trabalhadores. Segundo estima, cerca de metade dos aproximadamente 17 mil moçambicanos que trabalharam na antiga RDA já morreu sem ver resolvido o diferendo.

A associação não dispõe de um sistema nacional que permita contabilizar todas as mortes, mas os dados recolhidos junto dos diferentes grupos revelam uma realidade preocupante.

“Nós não temos um mecanismo que facilite esse levantamento, mas temos a certeza absoluta de que metade ou mais da metade dos ‘Madgermanes’ já perdeu a vida.”

Para ilustrar a dimensão da tragédia, Sitoe recorre ao grupo da fábrica onde trabalhou, em Wolfen.

“Eu trabalhei em Wolfen e presido à Associação Amigos de Wolfen. Éramos quase 400 pessoas. Só desse grupo tenho conhecimento de 72 colegas que já faleceram.”

Segundo afirma, é precisamente esta realidade que torna ainda mais urgente uma solução definitiva para um conflito que atravessou gerações e continua sem resposta.

Uma luta que resiste ao tempo

O diferendo remonta ao início da década de 1990, quando cerca de 17 mil moçambicanos regressaram da extinta República Democrática Alemã, para onde tinham sido enviados ao abrigo de acordos de cooperação entre os dois países. Muitos sustentam que uma parte significativa dos salários descontados durante os anos de trabalho nunca lhes foi entregue.

Desde então, a reivindicação transformou-se numa das mais duradouras batalhas sociais da história recente de Moçambique. Ao longo de mais de três décadas, os “Madgermanes” protagonizaram marchas semanais, confrontos com as autoridades, processos judiciais e diversas acções de protesto, sem que fosse alcançada uma solução consensual.

Entre os episódios mais marcantes destacam-se o protesto dirigido ao então Presidente Joaquim Chissano, em 2002, a ocupação da Embaixada da Alemanha, em Maputo, em 2004, e a entrada nas instalações da Assembleia da República, em 2006, iniciativas que mantiveram viva uma causa que continua, mais de três décadas depois, à espera de uma resposta definitiva.

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