A fronteira de Cassacatiza (distrito de Macanga), que liga a província de Tete à Zâmbia, continua a registar longas filas de camiões, situação que está a provocar atrasos significativos no transporte de mercadorias. Alguns camionistas afirmam permanecer até seis dias à espera de despacho para atravessar a fronteira, enfrentando noites ao relento e condições precárias.
Texto: Hélio De Carlos, em Tete
Ao longo da Estrada Nacional Número 7 (EN7), os motoristas transformam as bermas em locais de permanência temporária. Cozinham, dormem e lavam roupa enquanto aguardam a sua vez de seguir viagem. Segundo os transportadores, a principal causa dos constrangimentos é a lentidão dos procedimentos fronteiriços.
Helder Massango, que transporta carvão para a Zâmbia, relata que entrou na fila numa terça-feira de madrugada e, três dias depois, continuava longe do posto fronteiriço.
“Entrei na fila na terça-feira às cinco horas. Hoje é sexta-feira e ainda estou a cerca de um quilómetro do posto. Já gastei quatro mil meticais em gasóleo só a ligar e desligar o motor”, lamenta.
Também Manuel Samuel Banda, camionista que importa fertilizantes para Tete, afirma ter acumulado prejuízos devido aos atrasos.
“Na Zâmbia chamam a isto a ‘fila da morte’. Não há casas de banho, não há água. Se alguém adoecer, depende da ajuda dos colegas para chegar a um hospital em Tete. A alimentação é comprada aos vendedores ambulantes que percorrem a fila, mas os preços são elevados”, conta.
Perdas de milhões por dia
Os transportadores queixam-se de prejuízos diários provocados pelo tempo de espera. Além dos custos com combustível, enfrentam despesas com segurança, perdas associadas à deterioração da carga e, segundo alguns operadores, pagamentos informais ao longo do processo.
Paulo Tembo, que há nove anos faz a rota entre Lusaka e Tete, afirma que os atrasos podem comprometer totalmente a rentabilidade de uma viagem.
“Transporto tomate e cebola. Depois de cinco dias parado, parte da mercadoria estraga-se. No final, quem assume o prejuízo sou eu, porque o proprietário da carga recusa-se a pagar por produtos que chegaram deteriorados”, explica.
Despachantes aduaneiros ouvidos no local apontam como principais causas da situação a escassez de funcionários nos serviços de Migração e Alfândegas, as frequentes avarias dos sistemas informáticos e a falta de um parque adequado para estacionamento de viaturas pesadas do lado moçambicano.
“Chegam cerca de 200 camiões por dia e apenas 40 conseguem ser despachados. Os números falam por si”, refere um despachante que pediu anonimato.
Um corredor estratégico sob pressão
Cassacatiza constitui uma importante porta de entrada e saída de mercadorias entre Moçambique e a Zâmbia, desempenhando um papel relevante no escoamento do carvão produzido em Moatize e na importação de diversos bens destinados ao centro e norte do País.
Segundo estimativas dos próprios transportadores, cada camião imobilizado representa perdas operacionais que variam entre 800 e 200 dólares por dia.
Enquanto as filas persistem nos dois lados da fronteira, cresce o descontentamento entre os profissionais do sector. Muitos sobrevivem graças à solidariedade de colegas e moradores das comunidades vizinhas durante os longos períodos de espera.
“Se o Governo quer desenvolvimento, deve começar pelas fronteiras. Porque aqui o que estamos a desenvolver é apenas a paciência”, conclui Manuel Banda, enquanto aguarda mais uma oportunidade para avançar alguns metros na fila.




