– Filha de Umberto condiciona movimentação da conta bancária à leitura do testamento
– Empresa já vai no sexto mês sem pagar salários
Três meses depois da morte de Umberto Sartori, o Complexo Residencial Kaya Kwanga começa a emitir os primeiros sinais de fragilidade, acumulando, até ao momento, seis meses de salários em atraso aos colaboradores. Por detrás desta situação estarão a perda de contratos com clientes de peso e uma dívida milionária do Ministério do Interior/Comando-Geral.
Texto: Amad Canda
A prisão de Umberto Sartori, em Abril do presente ano, sob acusação de narcotráfico, branqueamento de capitais, fraude fiscal, falsificação de documentos e posse de armas exclusivas das Forças de Defesa e Segurança, provocou enorme consternação entre os funcionários do famoso complexo localizado ao longo da Marginal da Cidade de Maputo.
Perante as câmaras de televisão, as lágrimas dos colaboradores pareciam prenunciar que a perda de liberdade do empresário italiano poderia marcar o início do fim da fase mais fulgurante daquele estabelecimento. Aparentemente, o cenário “apocalíptico” tende a confirmar-se, sobretudo depois de Umberto Sartori ter perdido a vida nas celas do Estabelecimento Penitenciário de Máxima Segurança da Machava, popularmente conhecido por B.O.
De acordo com fontes daquele estabelecimento, a procura pelos serviços do Kaya Kwanga reduziu substancialmente após o desaparecimento físico do então proprietário e director-geral. As mesmas fontes esclarecem, no entanto, que a principal quebra se verifica ao nível dos clientes institucionais, uma vez que a dinâmica dos particulares se mantém praticamente inalterada.
Em termos mais concretos, fontes internas afiançaram ao Dossiers & Factos que, neste momento, a empresa tem pelo menos três importantes contratos cessados com igual número de escolas internacionais, situação que afecta severamente a tesouraria. Trata-se da Dream International College, da Escola Portuguesa e da Escola Francesa, todas localizadas na Cidade de Maputo.
Relativamente à primeira unidade de ensino, a renovação contratual terá falhado em Maio, aventando-se a hipótese de a prisão de Sartori ter sido um dos factores determinantes. Já em relação às restantes duas, sabe-se que os contratos terminaram em Junho último, com o fim dos respectivos anos lectivos, havendo, entretanto, sérias dúvidas quanto à sua renovação.
Apesar de o movimento de clientes particulares se manter relativamente estável, o afastamento de pessoas colectivas tem um impacto significativo nas contas da empresa, dada a importância destes clientes no modelo de negócio adoptado há décadas pelo Kaya Kwanga.
MINT já não come no Kaya Kwanga, mas deixou dívida milionária
A cessação dos contratos com as unidades de ensino acima referidas ocorreu depois da saída daquele que, ao longo de décadas, era tido como o principal cliente do Kaya Kwanga – o Ministério do Interior (MINT), através do Comando-Geral da Polícia da República de Moçambique.
De acordo com as nossas fontes, o MINT deixou de frequentar aquele espaço pouco depois da transição da era Filipe Nyusi para a era Daniel Chapo, numa altura em que o falecido Umberto Sartori intensificava a pressão pelo pagamento da alegada dívida milionária para com o Kaya Kwanga.
Objectivamente, o Dossiers & Factos não conseguiu apurar a dimensão exacta do passivo do MINT. Contudo, o renomado jornalista e analista Salomão Moyana chegou a estimá-lo em cerca de 60 milhões de meticais, no seu espaço dominical de comentários na estação de televisão MBC.
De resto, as fontes que temos vindo a citar referem que, até ao início do actual ciclo de governação, o Kaya Kwanga funcionava como uma espécie de “quartel paralelo” de oficiais da Polícia, que diariamente se deslocavam ao local para tomar refeições em nome do MINT.
Igualmente, o complexo hospedava regularmente agentes da PRM provenientes de fora de Maputo, bem como os seus dependentes.
Funcionários sem salários há seis meses
A prova mais evidente de que algo vai mal no Kaya Kwanga é a actual crise salarial que, segundo fontes do Dossiers & Factos, já dura há seis meses. A situação é descrita como inédita nas mais de três décadas de funcionamento do estabelecimento.
Durante os anos de liderança de Umberto Sartori, explicam as fontes, os atrasos salariais nunca ultrapassaram dois meses – precisamente o período de salários em atraso que a empresa tinha quando ocorreu a detenção do empresário.
Ao Jornal, funcionários do complexo fizeram saber que os Recursos Humanos justificam o prolongamento do atraso com a alegada recusa de uma das filhas de Umberto Sartori em assinar documentos bancários. No entanto, contactado pelo Dossiers & Factos, o responsável pelo sector, identificado como Joaquim Macuacua, negou ter feito tais afirmações, classificando-as de falsas.
Instado a apresentar a versão institucional dos factos, Macuacua alegou não ter autorização para o efeito, remetendo a equipa do Dossiers & Factos para a gestão da empresa.
Foi neste contexto que o Jornal contactou o gestor, identificado como Lucanga, que, apesar de referir não poder alongar-se sobre os assuntos da sociedade, reconheceu que um dos filhos de Sartori chegou a condicionar a movimentação das contas bancárias à leitura do testamento do falecido.
Lucanga afirmou, todavia, que o problema ficou ultrapassado na semana passada, embora não tenha esclarecido se o testamento já foi ou não lido.
A fonte referiu ainda que, enquanto gestor, está preocupado com a recuperação da imagem de prestígio de que o Kaya Kwanga gozou outrora, num contexto em que pouco se sabe sobre a forma como a instituição era gerida durante o longo período em que esteve sob liderança de Umberto Sartori.
Recusando-se a avançar com mais detalhes, o novo gestor revelou ainda que as rusgas policiais realizadas na instituição aquando da detenção de Sartori resultaram na apreensão de bens que, segundo afirmou, “não deviam ter sido levados”, incluindo computadores, situação que terá contribuído para as dificuldades actualmente enfrentadas pela empresa.
Garantiu, entretanto, que tem havido comunicação permanente com os colaboradores sobre a situação que a instituição atravessa.
Despedimentos por (in)justa causa
Como consequência da falta de salários, os funcionários do Kaya Kwanga enfrentam, neste momento, dificuldades para fazer face às necessidades mais básicas, com parte significativa a mostrar-se incapaz de se deslocar diariamente ao trabalho.
Perante este cenário, as fontes alegam que os Recursos Humanos têm sido inflexíveis, não hesitando em sancionar os trabalhadores que faltam ao serviço.
Neste momento, há pelo menos três funcionários afastados das suas funções por terem acumulado cerca de 15 faltas, situação que a empresa estará a classificar como “abandono do posto de trabalho”.
Inconformados, os funcionários em causa levaram a empresa ao Tribunal, sendo expectável que o diferendo seja apreciado ainda durante o presente mês de Agosto.




