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WIN CAR RENTAL: “Carros de luxo, comportamento de lixo”

Vive-se um ambiente de cortar à faca na Win Car Rental, a principal empresa de aluguer de viaturas de topo de gama no País, com presença em outras três nações da África Lusófona. Em causa está a relação com os motoristas, que denunciam irregularidades graves alegadamente perpetradas pelo patronato, desde a falta de contratos de trabalho até descontos abusivos e injustificados.

Texto: Amad Canda

Com sede na Rua Sacadura Cabral, antiga Fábrica de Refeições, e com delegações nas cidades da Beira, Nampula e Pemba, a Win Car Rental tem na sua carteira de clientes instituições de prestígio internacional, com destaque para as multinacionais do sector de Oil & Gas, como são os casos da Halliburton e Schlumberger.

Para além dos grandes executivos do ramo energético, a empresa é frequentemente solicitada por diferentes homens de negócios, diplomatas e personalidades nacionais e internacionais afeiçoadas ao luxo que as suas viaturas proporcionam. Sucede, contudo, que as viaturas em causa são conduzidas por profissionais insatisfeitos com o tratamento a que, supostamente, são sujeitos na empresa.

Em contacto com Dossiers & Factos, os queixosos deram conta de que a agência tem mais de 100 motoristas no País, dos quais mais de 90% actuam sem contratos de trabalho escritos, em flagrante violação da Lei n.º 13/2023 de 25 de Agosto, Lei do Trabalho.

É certo que o número 1 do artigo 39 da Lei em referência abre espaço para a existência de contratos não sujeitos à forma escrita, mas tal aplica-se apenas aos “casos de contrato de trabalho a prazo certo, que tenha por objecto tarefas de execução, com duração não superior a 90 dias.” Ora, isso não é o que está a ocorrer na Win Car Rental, onde há actividade permanente e, segundo fontes, muitos motoristas operam há mais de cinco anos.

No essencial, a agência privilegia acordos orais com os motoristas que contrata em Moçambique, não se sabendo se opera nos mesmos moldes em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, onde também está implantada. Curiosamente, nem esses acordos orais a companhia consegue honrar, havendo denúncias de cortes abusivos na diária combinada com os motoristas.

Conforme afiançam as fontes, aos motoristas terá sido prometida uma diária de 1500 meticais, mas a empresa estará a pagar apenas 700 meticais, ou seja, abaixo de 50%.

“Somos obrigados a conduzir executivos importantes com fome”, desabafam os profissionais, que também denunciam a falta de canalização de descontos ao Instituto Nacional de Segurança Social, o que, de resto, é consequência directa da inexistência de contratos por escrito.

Do rol das queixas dos condutores constam ainda as alegadas penalizações a que são sujeitos em caso de avarias ou acidentes, apesar de as viaturas estarem todas asseguradas.

“Toda a viatura está sujeita a avarias e todo o automobilista está sujeito a acidentes de viação. Ninguém sai de casa para se acidentar”, lamentam as fontes, apontando o gerente de nome Momade Badrodine Madaugy Júnior como o principal autor dos desmandos, supostamente com a conivência de seu patronato.

“Não temos nada a declarar”

Depois de colher as inquietações dos colaboradores, Dossiers & Factos procurou ouvir a versão do patronato, tendo inicialmente entrado em contacto telefónico com Ricardo Loja, apontado como o proprietário da agência. Loja atendeu o telemóvel e ouviu atentamente a colocação do jornalista, mas não quis falar.

“O senhor é jornalista?” — questionou o empresário, por sinal, filho do antigo ministro da Indústria e Comércio, Carlos Alberto Sampaio Morgado. Perante a resposta positiva, este retorquiu com um veemente “não te conheço” – como se disso dependesse o exercício da profissão – antes de desligar a chamada.

Seguidamente, Dossiers & Factos ligou para Momade Badrodine Madaugy Júnior, que convidou o jornal a fazer-se aos escritórios da Win Car Rental no dia seguinte. Dito e feito. À hora marcada, lá estava o jornalista atrás do contraditório, embora já tivesse sido avisado de que a empresa adoptaria uma “postura fechada” por não saber se os queixosos são realmente motoristas da Win Car Rental.

No local, o Jornal foi recebido por três figuras, incluindo Momade Júnior. Pôs-se, novamente, a explicar o objectivo da sua incómoda visita, sob constantes interrupções dos anfitriões – primeiro para exigir provas de que era mesmo jornalista e, mais adiante, para cobrar o documento que o habilitava a falar em nome dos motoristas.

Pacientemente, o Jornal esclareceu que o seu trabalho não é sindical e que apenas se resumia à confrontação das queixas recebidas. Nesse instante, uma voz estrondosa irrompeu na pequena sala com os seguintes dizeres: “Fundamentalmente é isto: não temos nada a declarar.”

Era o próprio Ricardo Loja a dar por terminado o encontro de que não tinha participado, tendo sido prontamente obedecido pelos seus subordinados, que, no entanto, ainda foram a tempo de mandar recado aos motoristas, por via do jornalista: “Vão queixar-se ao Ministério do Trabalho.”

“Eles têm carros de luxo, mas o comportamento é de lixo”, avisara um dos motoristas cuja identidade ocultamos por razões óbvias.

*Extraído da edição 672 do Dossiers & Factos

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