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Hospital Provincial regista 55 acidentes de moto-táxi em menos de um mês

O roncar incessante dos motores tornou-se parte da paisagem das estradas da cidade e província de Maputo. Em terminais, mercados e esquinas, dezenas de motorizadas aguardam diariamente por passageiros. Para uns, são uma alternativa rápida e acessível de transporte. Para quem está ao volante, cada viagem pode significar a diferença entre regressar a casa com algum dinheiro ou terminar o dia sem conseguir cumprir a meta semanal exigida pelo proprietário da motorizada.

Texto: Dossiers & Factos

Por detrás de cada corrida há, muitas vezes, uma luta pela sobrevivência. Jovens desempregados encontraram nos moto-táxis uma das poucas alternativas de rendimento, mas o aumento do número de operadores tornou o mercado mais competitivo e elevou a pressão sobre quem depende desta actividade para viver.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Dados do Hospital Provincial da Matola indicam que, entre 9 e 31 de Agosto, foram registados 55 acidentes de viação envolvendo motorizadas. Nenhum dos casos resultou em óbito, segundo a mesma fonte.

A expansão da actividade ocorreu num contexto marcado pelo desemprego e pela redução das oportunidades de rendimento. Depois das manifestações pós-eleitorais de 2024, o encerramento temporário ou definitivo de empresas e estabelecimentos comerciais afectados por saques e actos de vandalismo deixou centenas de jovens sem emprego. Para muitos, conduzir uma motorizada passou a ser uma das poucas portas abertas para garantir o sustento.

Mas a entrada de novos operadores trouxe outro problema: a saturação do mercado. Em algumas paragens da Matola e de Boane, o Dossiers & Factos encontrou grupos de 15 ou mais moto-taxistas concentrados à espera de passageiros. Com mais condutores a disputar os mesmos clientes, cada viagem passou a ser uma pequena competição.

Durante entrevistas realizadas pelo Dossiers & Factos, vários moto-taxistas apontaram a pressão para conseguir passageiros e cumprir as metas semanais como um dos factores que podem contribuir para a condução de risco. Ultrapassagens proibidas, excesso de velocidade, circulação entre veículos e desrespeito pelos sinais de trânsito foram algumas das práticas mencionadas pelos entrevistados.

As metas, segundo os profissionais ouvidos, variam entre 1.500 e 2.000 meticais por semana, valor que deve ser entregue ao proprietário da motorizada. Só depois de cumprir essa obrigação é que o condutor começa a pensar no dinheiro que poderá levar para casa.

“Hoje o passageiro representa a diferença entre cumprir ou falhar”

Em Boane, no bairro Belo-Horizonte, Nito Alberto, apontado pelos colegas como um dos primeiros moto-taxistas da zona, acompanhou a transformação da actividade. Para ele, a profissão perdeu a tranquilidade dos primeiros anos.

“Quando começámos, este trabalho era digno. Havia poucos moto-taxistas, os passageiros apareciam naturalmente e conseguíamos trabalhar com tranquilidade. Fazíamos o nosso dinheiro sem necessidade de correr riscos. Existia respeito entre colegas e havia consciência de que transportar uma pessoa significava transportar uma vida. Hoje isso perdeu-se completamente.”

Nito relaciona o crescimento da actividade com o agravamento do desemprego depois das manifestações de 2024.

“Depois dos saques, muitas empresas fecharam portas e muita gente ficou sem emprego. Ao mesmo tempo, surgiram pessoas com dinheiro para comprar motorizadas e colocá-las nas mãos de jovens desempregados. Esses proprietários não conduzem. Entregam as motorizadas aos rapazes e exigem um valor fixo todas as semanas. Alguns pedem 1.500 meticais, outros chegam aos 2.000. O motorista trabalha todos os dias para garantir primeiro o dinheiro do patrão. Só depois pensa naquilo que vai levar para casa.”

É precisamente no fim do dia, quando a meta ainda não foi alcançada, que, segundo Nito, a pressão se torna maior.

“Quando chega o fim do dia e ainda falta dinheiro para completar a prestação, o desespero toma conta da pessoa. O passageiro deixa de ser apenas um cliente e passa a representar a diferença entre cumprir ou falhar o compromisso. É nesse momento que começam as corridas. Cada um quer apanhar o cliente primeiro.”

Para o veterano, a chegada de novos operadores trouxe também desafios relacionados com a formação e a experiência dos condutores.

“Hoje encontramos adolescentes que mal sabem controlar uma motorizada e já transportam passageiros. Alguns nem carta de condução possuem. Outros conduzem de chinelos, sem capacete e sem qualquer noção do perigo. Entram para esta actividade porque ouviram dizer que dá dinheiro. O problema é que a experiência chega tarde. Em muitos casos, chega quando já aconteceu uma tragédia.”

Embora os dados do Hospital Provincial da Matola não tenham registado mortes no período em referência, Nito diz que os acidentes fazem parte do quotidiano da profissão e alerta para as consequências que podem deixar.

“Actualmente, é raro terminar um dia sem ouvirmos falar de acidentes envolvendo moto-taxistas. Há dias em que contamos três ou quatro ocorrências apenas nesta zona. Muitos colegas ficaram incapacitados. O mais triste é que a maioria desses acidentes poderia ser evitada se houvesse mais responsabilidade e menos pressão financeira.”

N4: o corredor onde o perigo ganha velocidade

Em Tchumene, no município da Matola, José Manuel também acompanha com preocupação a evolução da actividade. Para ele, a Estrada Nacional Número 4 (N4) é um dos pontos que mais expõem os moto-taxistas ao perigo.

“A N4 é uma estrada extremamente perigosa para motorizadas. Temos camiões pesados, autocarros, veículos ligeiros e, no meio de tudo isso, colegas que insistem em desafiar máquinas muito maiores do que as nossas. Quando acontece uma colisão, a motorizada nunca tem hipótese. Quem perde é sempre o moto-taxista e, muitas vezes, o passageiro que confiou a sua vida ao condutor.”

José Manuel reconhece que a pressão económica pesa sobre os profissionais, mas considera que a imprudência também contribui para os acidentes.

“Há colegas que confundem coragem com irresponsabilidade. Pensam que conseguem vencer qualquer veículo porque conhecem a estrada. Outros acreditam que nunca serão vítimas de um acidente. Infelizmente, a estrada não perdoa excessos. Um segundo de distracção é suficiente para destruir uma família inteira.”

O moto-taxista diz já ter perdido amigos em acidentes de viação, “Cada vez que ouvimos uma ambulância aproximar-se, já imaginamos que pode ser mais um colega. Já enterrámos muitos rapazes que apenas queriam trabalhar. Alguns deixaram filhos pequenos. Outros eram o único sustento das suas famílias. É doloroso perceber que continuamos a comete os mesmos erros todos os dias.”

Passageiros entre a rapidez e o medo

A procura pelo serviço, entretanto, mantém-se elevada. Durante a recolha de informações, Dossiers & Factos encontrou passageiros que recorrem frequentemente aos moto-táxis pela rapidez e facilidade de deslocação, sobretudo em zonas onde o transporte convencional é escasso ou demorado. Mas a rapidez que leva muitos passageiros a escolher as motorizadas convive com o medo.

Alguns passageiros entrevistados reconheceram sentir-se inseguros perante determinadas manobras dos condutores, sobretudo quando estes circulam entre veículos, ultrapassam em locais proibidos ou desenvolvem velocidades elevadas.

A contradição é evidente: para os passageiros, o mototáxi resolve problemas de mobilidade; para os condutores, representa uma fonte de rendimento num mercado de trabalho com poucas alternativas.

Uma corrida que vai além da estrada

O crescimento dos moto-táxis em Maputo revela, por isso, um problema que ultrapassa a segurança rodoviária. A expansão da actividade está ligada ao desemprego, à informalidade e à necessidade de sobrevivência de jovens que encontram poucas portas abertas no mercado formal.

 Enquanto aumenta o número de motorizadas, cresce também a disputa pelos passageiros. E quando cada viagem representa dinheiro para cumprir uma meta semanal, uma simples corrida pode transformar-se numa competição perigosa.

Os 55 acidentes registados em apenas três semanas pelo Hospital Provincial da Matola mostram a dimensão do risco. Embora nenhum dos casos tenha resultado em óbito naquele período, cada acidente pode significar ferimentos, incapacidade, perda de rendimento e consequências para famílias inteiras.

Nas estradas de Maputo, a corrida dos moto-taxistas não é apenas contra o trânsito. É também contra o desemprego, a falta de alternativas e a necessidade de garantir o pão de cada dia. É uma corrida em que, para muitos, parar significa deixar de ganhar. Mas continuar a correr pode significar muito mais do que perder o rendimento de um dia: pode significar perder a própria vida.

O desafio está em impedir que esta corrida pela sobrevivência continue a ser disputada ao preço da segurança de quem conduz e de quem viaja.

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